sexta-feira, 30 de março de 2007


O barulho do vento fazia os velhos olhos buscarem por uma segurança tão distante quanto o tempo em que podia se proteger do mundo.
Hoje segue tateando cada centímetro a sua volta, em busca de caminhos. Buscando em cada um dos sentidos remanescentes tentar encontrar qualquer passagem pela parede negra da noite, qualquer passagem que o leve ao calor de sua cama que grita por seu nome, como uma sereia ardente à beira de um abismo.
O relampejar ilumina o tudo a sua volta. Era preferível que o raio não existisse. Não agora. O que era aquilo parado na porta? Havia algo parado ali? Alguém?
A fúria do trovejar invade todo seu corpo, denunciando a proximidade do raio que rasgou os céus poucos segundos atrás e deixou um frio doloroso em sua coluna retorcida pelos anos.
Outro raio. Mais forte, azulado.
Seus olhos buscam a porta.
Nada.
Fechada e negra como a noite que o cerca.
O trovão veio mais demorado dessa vez, fazendo vibrar os talheres sobre a mesa, janelas, cortinas e suas roupas que em vão o protegiam do frio.
Apesar dos vidros e portas cerrados, um vento deslizou sobre suas costas, suave como um sopro, com a sutileza de uma serpente. Em toda sua vida, o desejo de se virar e olhar pra trás nunca foi tão forte, provocando uma pressão dolorosa sobre seus ombros. Mas o medo imperava de forma tenaz, um misto de razão e instinto. O mesmo instinto que fez seus pulmões pararem ao sentir novamente o respirar tocar sua pele.

segunda-feira, 19 de março de 2007


Vi um ponto brilhante ao longe. O vibrar inconstante do vôo fazia-o balançar em todas as direções, como se fosse o farol de uma motocicleta veloz vindo na contra-mão, traçando um caminho a seguir em meio ao nada que me cercava. A escuridão era tão sufocante quanto fria, silenciosa e infinda.
Pedi mais do motor solitário que gemia e urrava forte contra o vento. Com um solavanco brusco, as hélices tornaram-se ainda mais terríveis e impiedosas, dilacerando nuvens e monstros imaginários, que surgiam loucos a minha frente.
O velho caçador estava em seu limite. Como um falcão lançado sobre sua presa, devorava os quilômetros na direção da luz que não se aproximava, ignorando os gemidos e vibrações da fuselagem. Os ponteiros do combustível pendiam, fazendo sangrar a esperança, enquanto dores lancinantes explodiam minha cabeça como martelos de guerra.
Um instinto de sobrevivência me fazia acelerar, os nós de meus dedos já brancos e anestesiados de tanta força começavam a formigar enquanto tudo o que eu queria era chegar ao calor da luz que me chamava ao longe.

- quem é?
- posso entrar?
- me fala o que quer.
- preciso te ver.
- acho que não vai dar.
- porque não?
- melhor não.
- por-que-não?
- por favor, não insista...
- porra! eu só quero te ver!
- ...
- onde você está?
- ...
- ei! puta que pariu...
- sua estupidez é seu cartão de visitas.
- desculpa. desculpa. é que estou pirando... preciso te tocar...
- por favor, vá embora.
- me dá um bom motivo.
- ...
- fala!
- ...
- mas que merda! não dá pra nao ser estúpida com você!
- eu não estou sozinha aqui.

domingo, 18 de março de 2007



No reino dos dias lentos, as árvores eram grandes. Poderosas como guerreiros. Silenciosas como lagos.
O vento uivava ao se chocar contra as pedras e montanhas, levando consigo a poeira dos homens, os lamentos das mulheres e o crepitar das chamas.
Do outro lado do rio, a noite vinha observar o que o dia deixava pra trás. Ver as casas em chamas, os vivos a correr, os mortos a lamentar.
_Vem, guerreiro que habita as distâncias. Vem com sua armadura e sua coragem. Sua espada e seu espírito. Devora nosso medo com teu olhar, leva daqui essa fera e seu terror.

O guerreiro olhou para o céu mas nada encontrou. Olhou para as montanhas e viu o tempo se arrastar como uma serpente cruel que tem olhos para todas as direções. Impiedosa,

Um grito ao longe despertou aqueles que jaziam à mercê de seus sonhos sem imagens. Trôpegos levantavam seus olhos em busca de uma resposta, enquanto seu peito explodia de terror, criando imagens de pesadelos há muito guardados e cultivados pela vida.

O dragão mostrou-se no horizonte. Muitos jurariam a verdade do sorriso em sua boca. O sorriso sinistro em seus olhos hipnóticos e frios. Ele vinha a caminho da carne, dos ossos e da dor.

_Vem. Traga sua carga de medo e desgraças.