domingo, 20 de maio de 2007


juventino gostava de sair às ruas da cidade trajando seu terno impecável, chapéu preto de feltro e fita branca. as botinas de couro cru que deixavam pegadas fundas na poeira, sustentavam metro e noventa do homenzarrão e faziam par às esporas que castigavam as costelas do pobre cavalo.
ninguem sabia de onde apareceu o sujeito. gentil, justo e bom pagador. sua casa era uma formosura só. isso, vista por fora, pois ninguem mais entrou no palacete depois que a comprou do coronel gervásio por volta da época das enchentes, quando ninguem pagaria um caroço de milho por residencia na região. homem corajoso e com tino de artista. reformou o palacete com as próprias mãos. bom gosto danado.
muita gente contava que certa manhã viram alguem correndo em meio ao mataréu, do jeito que veio ao mundo, gritando como se estivessem querendo lhe cortar as partes. muita gente jura de pé junto, até hoje, que era juventino. logo em época de quaresma. dia depois da lua cheia.
padre afonso foi chamado em vias de se fazer reunião.
_e se é lobisomem fugido?
_valha-me meu sinhô jisuis!
foi rezada missa em segredo de juventino, que era cristão fiel. ajudou até na reforma da paróquia e da escolinha pra criançada da cidade.
_senhor, afasta de nós a besta fera!
as mocinhas que ficavam nas janelas se ajeitando para fazer boa imagem de pretendidas não mais queriam ser vistas pelo peludão.
as crianças na rua corriam para as pernas das mães que quase caíam duras fazendo o sinal da cruz.
os homens baixavam os olhos, pois dizem que encarar o coisa-ruim faz nascer furúnculos por todo o corpo. isso é coisa de tirar coragem de qualquer um.
juventino pareceu nunca notar o medo de seus vizinhos. ainda não se sabe se não notava realmente, ou se fingia de desentendido.
tudo o que se tem notícia até hoje, é de que o padre, o açougueiro, o prefeito e mais algumas pessoas participantes da reunião secreta, foram convidados para um jantar na casa de juventino. lá, foram informados de que ganharam passagens para conhecer toda a europa, tudo por conta do anfitrião, e deveriam partir imediatamente. e, é claro, todos aceitaram.
palavras de juventino. quem vai duvidar?

terça-feira, 15 de maio de 2007



ela despertou diante de uma parede escura, marcada pelas gotas de chuva que caía forte.
movia-se lentamente, procurando sentir suas extremidades frias e rígidas, que aos poucos reagiam ao fluxo do sangue que circulava forte, provocando calafrios.
sentou-se na cama, encolhida, tentando no escuro ver o telefone do outro lado do quarto. alguns dias antes tinha lido algo sobre viagens da alma durante o sono. gostaria de poder experimentar, e, poder se observar sonhando. gostaria de poder se dividir agora para que uma parte pudesse sair pela porta e se molhar, de braços abertos. ver as pessoas passando em seus carros velozes, indiferentes àquela parte que observava. girar. gritar.
gritar.
a irmã fez ranger a cama no quarto ao lado. chorou muito essa noite.
chorou até doer o peito. sabia que doía mais do que qualquer coisa. sabia bem porque doía.
foi até a geladeira e pegou a caixinha de leite. não podia ver chuva descendo escura/brilhante pela janela. não conseguia ouvir as gotas no telhado ou no chão.
sentiu o estômago ficar frio. as pernas finas faziam o corpo balançar por baixo da camisola que a mãe trouxe no natal. era macia, leve. quase não deixava sentir as marcas na carne.
a cama voltou a ranger. ouviu a irmã procurando as sandálias no escuro.
_a chuva parou?
_parou.
_o pai já vai voltar!
_volta pra sua cama. volta. nao vou deixar que ele chegue ao seu quarto hoje de novo.
chorando e tremendo, a irmã cobriu-se dos pés a cabeça.
o som das chaves na porta demorou mais dessa vez. as chaves caíram e demoraram a ser levantadas novamente. a porta se abriu e junto ao fedor de alcool e cigarro, ele entrou.

terça-feira, 8 de maio de 2007

soldado universal


_soldado universal!
_fala.
_toca aquela musica assim: 'um dia frio, vamos nós dois beber um vinho'
_heheh... essa eu nao sei. pede outra.
_é assim: 'um dia frio...'
_ow disgrama. essa eu nao sei.
_me da um gole do seu vinho?
_cade seu copo? o menino aqui vai encher pra voce.
_nao para. toca qualquer musica ae!
_toma seu vinho entao.
_soldado universal!
_fala, doidão.
_toca ae.
_voce nao deixa eu continuar. vai ser burricido assim lá no alto do morro.
_soldado!
_ ...
_me da um gole do seu vinho?
_porra, de novo? dodge V8, hein?
_toca aquela assim: 'um dia frio, vamos nós dois beber um vinho'
_véio... voce é mala demais. toma esse vinho devagar. vou te levar embora nao.
_entao toca racionais?
_ ...
_soldado universal! soldado!!