sexta-feira, 19 de outubro de 2007



_eu gostaria de estar la quando aconteceu. me senti fraco. incapaz.
_dizem que podia-se ouvir os gritos mesmo sob o barulho do transito.
os dois homens olharam para tras, ao ouvir um carro parando sobre o cascalho da calçada.
de um verde agressivo, contrastava com a paisagem montanhosa que pairava como um quadro enegrecido pelo tempo.
um guarda-chuva flutuou do lado oposto. negro e pomposo, cobria os olhos que guiavam aquela boca vermelha e provocante. volumosa, a beira da pornografia.
os dois trocaram olhares que não escondiam os pensamentos ímpares.
ela encaminhou-se pela grama, ladeada por um garoto com cerca de 8 anos, postura ereta, e refinada. deixou no ar um leve aroma de água e sabonete. simples. direto.
seguiu para o grupo de pessoas e postou-se ao lado de um antigo carvalho. colocou a mão esquerda sobre o ombro do garoto e olhou em volta.
_...ainda que eu ande pelos vales...
_ande para o inferno, padre.
as pessoas viraram-se assustadas e algumas se afastaram ao ve-la parada ali.
ouviam-se comentarios sobre sua beleza, sua ousadia e sobre o garoto cego.
ela encaminhou-se para o caixao e tocou a tampa, derramando as gotas de chuva que haviam se acumulado.
_ele foi o melhor ja conhecemos. voces não valem essa grama onde pisam. voces o mataram. deram a ele a pior morte que alguem pode ter. quero que saiam agora daqui.
ele não precisa de suas palavras de salvação, padre. voces são um um coração falido que precisa abusar do medo alheio para manter-se aquecido. fico feliz por ter certeza de que o calor dele agora está no ar. desprendeu-se. voou.
os dois homens se aproximaram da mulher. em suas mãos brilhava a arma que já havia feito deitar tantos corpos. ela estava pronta para berrar e banhar o solo com o sangue de mais um desconhecido.