quinta-feira, 28 de agosto de 2008




staccato


era uma vez o copo. nele água. doce. e seus aromas.
suco, talheres, limpo.
agora, um Beta.
vermelho. irritado. faminto sempre.
era uma vez o teatro. atores, atrizes, poetas, maquiadores, diretor e platéia no auge do fim. o último aplauso reverberou por poucos metros, saído de mãos que tocaram um corpo horas antes.
o corpo caminhava rumo a um carro prata. gosta em especial dos carros prata. parecia que nunca se sujavam. eram cada dia mais comuns pelas ruas. comuns como seus passageiros. clientes. incomuns.
era uma vez um caderno com capa branca. tinha entre suas páginas uma fita de náilon marcando a última página escrita. gastos. ganhos. perdas. nomes. também o valor do Corpo.
sentia cada ano vibrando em sua pele. causticada casca coberta de histórias. exatamente assim. extremamente clichê.
era uma vez um Clichê. maquiado suavemente. singular entre os seus. ora vulgívagos, ora sôfregos e solicitados.
falaram do rosto puro e atrativo. precisa não. se pinta não.
não se pintava. não com esmero.
gastou com roupas. pouca roupa em partes. na maior parte das partes, era pouca. Clichê com frio, outrora também apresentado como Corpo.
o caderno como um adágio completava a saída. casa cheua essa noite. sorria o proprietário em conversa animada, alheio ao caderno que passava. compunha. estilizava.
encaminhou-se ao primeiro taxi, ainda cantarolando a melodia final da reprise. chorou. como chorou doze anos atrás.
o cansaço fazia a visão turvar-se. letreiros duplicavam seus dizeres num ir e vir vertiginoso. era tarde. o bastante para desejar o lar que cegava e deixava dormentes todos os sentidos.
era uma vez uma porta. antiga, cheia de cupins e nervuras. cheia de lembranças. guardava do mundo. guardava o mundo.
acendeu a luz da sala. o peixe levantou-se do fundo do copo. investiu contra o reflexo que a claridade trouxe. tinha fome. era vermelho e irritado.

segunda-feira, 5 de maio de 2008



- hmmm...
- que isso?!
- tava sentindo seu perfume. uma delícia.
- e precisa chegar tão perto? dá licença?
- é que não resisti. me perdoa?
- tudo bem, mas me dá licença.
- qual é o seu nome?
- existem outras formas de descobrir isso sem precisar dar uma de tarado.
- é o que estou fazendo nesse momento.
- tarde demais.
- agora to sendo educado. até cara de labrador sofrido eu to fazendo.
- ...
- vai falar não? voce ja é bem grandinha pra ter tão pouca educação.
- seu cretino!
- ta vendo? agora já passou a me ofender.
- não acredito nisso. voce começou com toda essa palhaçada e agora eu sou a errada? dá um tempo.
- típico das mulheres isso de tentar distorcer os fatos para que no final, tudo quanto é bobagem que façam ou digam tenha sido motivada por alguma coisa que tenhamos feito - ou não.
e eu não disse que voce tava errada. disse que era ofensiva e mal educada.
- não to acreditando nisso... meu nome é Gabriela. satisfeito? pode me deixar em paz agora?
- não.
- ahh... então vá passear.
- isso foi uma indireta?
- voce ta me irritando, sabia?
- mas eu não to fazendo nada demais! só estou sendo simpático e tentando sobreviver a seus ataques. isso me pareceu uma indireta, sim. ta aqui sozinha, puxa papo comigo e começa a falar sobre passear.
- ...
- me ignorar não vai mudar o que voce fez.
- saco! eu não te fiz nada! nem sei porque to insitindo em conversar ainda. dá um tempo!
- nossa... que grossa.
- eu não sou grossa! nunca tratei ninguem assim, mas voce ta me tirando do sério!
- tudo bem. eu te desculpo. qual é seu nome mesmo?



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008


ao terminar de ler Garcia Marquez, tive um surto de nostalgia misto de um formigamento nas partes.
a saia branca e surrada, que marcava as curvas quando ela acabava de se levantar ainda povoa meus sonhos, fazendo fechar meus olhos e sentir os aromas da infância impregnados de folhagens, lenha queimada, roupa lavada, animais, e ela.
nunca foi um primor de beleza ou de educação, mas tinha dois dons explícitos.
o de cozinhar e o de provocar.
o primeiro era caracterizado por seu famoso feijão tropeiro. pessoas vinham de cidades vizinhas às sextas e sabados para deliciarem-se. devo confessar que muito da fama de seu tropeiro era devido às pernas que iam e vinham levando e trazendo as refeições. o segundo dom estava completamente ligado a essas pernas.
propostas recheadas de cifrões eram feitas diáriamente, sempre provocando um sorriso provocador e uma negativa acompanhada da frase que se tornou cultura popular 'é muita carne pra tu conseguir moer'.
eu mal havia descoberto os primeiros pelos em meu corpo e já maquinava formas de conseguir moer tanta carne. sim. fui prematuro no que diz respeito às coisas desejosas do corpo. anotava em meu caderno de caligrafia os nomes daquelas com quem ja havia visto estrelas, constelações e galaxias inteiras. tudo anotado em letras rotas e inteligíveis aos olhos de meus pais e da professora.
ahh... a professora.
moça magra, olhos castanho-esverdeados, longos cabelos negros e cacheados, que teimavam em cobrir durante todo o tempo o que ela tinha de melhor, oculto em suas camisas brancamente impecáveis.
'oi! voce viu aquele safado? toda semana é a mesma história. o pior é que nem posso engrossar e acabar com isso.'
'faz bem. eles só vem aqui pra tentar conseguir dessas coisas com voce.'
'porque voce diz que faço bem?'
'ora... porque acho que ele não te merece.'
'que isso, garoto? fazendo pouco caso de mim? acha que não sou boa o suficiente pra ele?'
'não foi o que eu quis dizer.'
'e o que quis dizer?'
'ele não saberia o que fazer com tanta mulher.'
ela riu muito, ficou me olhando e perguntou se eu sabia do que tava falando.
foi minha vez de sorrir, e dizer que se precisasse de alguns ensinamentos pro dia em que decidir aceitar alguma proposta, ela saberia onde me achar. ela riu ainda mais.
levantou-se e foi até o balcão. trouxe uma garrafa com uma cachaça verde, cheia de pedaços de uma folha verde-escura e várias nervuras de raiz.
'bebe até a metade. depois voce vai me levar em casa. se conseguir achar o caminho, deixo voce me ensinar.'
sentada de frente pra mim, vigiou cada gota ardente que descia por minha garganta.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

direto ao ponto.

quem descobriu o brasil?
nao sei.
como nao sabe?
ué... nao sei.
mas voce nao viu isso hoje na escola?
vi, mas ninguem falou que eu tinha que lembrar.
voce ta de brincadeira
eu nao!! to conversando com voce!
quem descobriu o brasil?
ja falei que nao sei!
pega seu caderno.
pra que?
nao interessa. pega.
entao fala pra que.
vou precisar repetir?
ta bom... ta bom. toma.
onde ta a materia de hoje?
sobre o brasil?
sim.
tem nao.
como nao tem?
fiquei com preguiça de escrever.
...
porque ta me olhando assim? ta com raiva?
sua ultima chance. quem descobriu o brasil?
pedro alvares cabral.
porque nao respondeu antes???
porque voce nao tava com cara de mau.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

dor.

ele subiu as escadas lentamente, apoiado ao corrimão gelado. sentia-se como se carregasse uma tonelada presa a cada tornozelo. abriu a porta da frente e sentou-se no último degrau para fumar antes de se deitar.

tinha esse hábito há anos. ainda hoje abria a porta para seu cão sair e ficar junto dele. ele havia morrido há 7 meses, mas a velha mania mantinha-se ali. presente e estática.
gostava de observar as luzes dos carros que passavam trepidando sobre o calçamento da rua estreita e escura. as lampadas dos antigos postes de madeira não iluminavam mais do que poucos metros ao redor de cada poste, criando poças amarelas que vistas de longe pareciam o corredor de um hospital de filmes de terror. puxou com voracidade o ultimo trago no cigarro e jogou a guimba sobre a grama ao lado.

levantou-se, trancou a porta e voltou para a rua, seguindo até um banco de madeira rústico que havia em frente de um prédio inacabado de 3 andares. retirou do bolso o aparelho de telefone e sentou-se, fazendo estalar as tábuas ressecadas e enegrecidas sustentadas por dois troncos de eucalipto, rachados e perfurados por cupins. pegou o isqueiro com corpo de plastico transparente e ficou brincando com o liquido, tentando nivelar quando viu um rapaz subindo a rua, vindo em sua direção.

vestia uma camisa branca, jeans surrado e um tenis encardido com cadarços enormes que escapavam aos lados da bainha da calça.
aproximou-se e pediu fogo para acender um cigarro.

_obrigado. posso me assentar?
_a vontade.
_voce ainda sente muita falta dele?
_o que?
_voce ainda sente muita falta dele?
_de quem? do que voce ta falando?
_Cisco.
_como voce sabe dele?
_sente muita falta?
_quem é voce? como sabe dele?
_desculpe, Paulo. pode me chamar de Raz.
_isso é alguma brincadeira? quem é voce?
_eu sei que todos os dias abre a porta e espera que ele saia atropelando tudo para se sentar a seu lado enquanto fuma. falando nisso, devia parar com o cigarro. considere como um conselho valioso. sei que senta-se na beirada da cama e pensa nela. amarga um arrependimento por nao te-la buscado aquele dia.
_...
_a grande maioria das pessoas trocaria as conquistas de toda uma vida pela chance de voltar atras e mudar uma vírgula em sua história.
_o que te faz pensar que quero mudar algo?
_tudo sei. mais cedo ou mais tarde, vai perceber isso. não foi em vão que voce chamou por mim.
_voce......??
_voce ainda ouve os gritos?
Paulo olhou para o lado. queria poder ouvir os vizinhos brigando, os jovens chutando lixeiras no caminho de volta pra casa, mas não havia som. era difícil até mesmo ouvir sua respiração. um chiado que vinha do fundo e gritava com dor ao chegar em suas cordas vocais. o grito morria antes mesmo de passar por seus dentes. só existia o frio e o silêncio.
"os gritos... eles nunca foram embora...acho que nunca irão. talvez se eu não tivesse sido tão covarde..."
_acho que nunca foram embora.
_sabe que nunca irão?
_não consigo dormir desde que Cisco se foi... sonho com o menino sendo devorado. não consigo fazer nada. só fico parado escondido enquanto ele é comido vivo... olhando pra mim, chamando pelo pai e por mim. acordo chorando, gritando por perdão, pedindo para que essa vida chegue logo ao fim. mas o dia sempre vem. quente. barulhento. cheio de movimentaçao em volta de meu mundo que gira em anti-horario.
Raz era jovem. tinha o rosto magro, com barba malfeita e que crescia em pontos separados. os olhos lembravam os olhos de um cão traiçoeiro, sorrindo entre os dentes amarelos de nicotina. seu hálito lembrava poeira muito seca, que faz tossir, engasgar e lacrimejar. ele se lavantou, olhou para o céu e pareceu contar algumas estrelas antes de olhar novamente para Paulo. colocou a camisa para dentro da calça, coçou a cabeça e piscou.
_estarei em sua casa te esperando. demore o tempo que achar necessário. se achar que deve voltar atrás, nunca mais entre ali. vá para longe, tente esquecer sua dor e seu medo. mas saiba que nos encontraremos novamente, e nesse dia, não me verá em trajes que alimentem sua tranquilidade.

[ foto de Marta Rickes]