quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008


ao terminar de ler Garcia Marquez, tive um surto de nostalgia misto de um formigamento nas partes.
a saia branca e surrada, que marcava as curvas quando ela acabava de se levantar ainda povoa meus sonhos, fazendo fechar meus olhos e sentir os aromas da infância impregnados de folhagens, lenha queimada, roupa lavada, animais, e ela.
nunca foi um primor de beleza ou de educação, mas tinha dois dons explícitos.
o de cozinhar e o de provocar.
o primeiro era caracterizado por seu famoso feijão tropeiro. pessoas vinham de cidades vizinhas às sextas e sabados para deliciarem-se. devo confessar que muito da fama de seu tropeiro era devido às pernas que iam e vinham levando e trazendo as refeições. o segundo dom estava completamente ligado a essas pernas.
propostas recheadas de cifrões eram feitas diáriamente, sempre provocando um sorriso provocador e uma negativa acompanhada da frase que se tornou cultura popular 'é muita carne pra tu conseguir moer'.
eu mal havia descoberto os primeiros pelos em meu corpo e já maquinava formas de conseguir moer tanta carne. sim. fui prematuro no que diz respeito às coisas desejosas do corpo. anotava em meu caderno de caligrafia os nomes daquelas com quem ja havia visto estrelas, constelações e galaxias inteiras. tudo anotado em letras rotas e inteligíveis aos olhos de meus pais e da professora.
ahh... a professora.
moça magra, olhos castanho-esverdeados, longos cabelos negros e cacheados, que teimavam em cobrir durante todo o tempo o que ela tinha de melhor, oculto em suas camisas brancamente impecáveis.
'oi! voce viu aquele safado? toda semana é a mesma história. o pior é que nem posso engrossar e acabar com isso.'
'faz bem. eles só vem aqui pra tentar conseguir dessas coisas com voce.'
'porque voce diz que faço bem?'
'ora... porque acho que ele não te merece.'
'que isso, garoto? fazendo pouco caso de mim? acha que não sou boa o suficiente pra ele?'
'não foi o que eu quis dizer.'
'e o que quis dizer?'
'ele não saberia o que fazer com tanta mulher.'
ela riu muito, ficou me olhando e perguntou se eu sabia do que tava falando.
foi minha vez de sorrir, e dizer que se precisasse de alguns ensinamentos pro dia em que decidir aceitar alguma proposta, ela saberia onde me achar. ela riu ainda mais.
levantou-se e foi até o balcão. trouxe uma garrafa com uma cachaça verde, cheia de pedaços de uma folha verde-escura e várias nervuras de raiz.
'bebe até a metade. depois voce vai me levar em casa. se conseguir achar o caminho, deixo voce me ensinar.'
sentada de frente pra mim, vigiou cada gota ardente que descia por minha garganta.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

direto ao ponto.

quem descobriu o brasil?
nao sei.
como nao sabe?
ué... nao sei.
mas voce nao viu isso hoje na escola?
vi, mas ninguem falou que eu tinha que lembrar.
voce ta de brincadeira
eu nao!! to conversando com voce!
quem descobriu o brasil?
ja falei que nao sei!
pega seu caderno.
pra que?
nao interessa. pega.
entao fala pra que.
vou precisar repetir?
ta bom... ta bom. toma.
onde ta a materia de hoje?
sobre o brasil?
sim.
tem nao.
como nao tem?
fiquei com preguiça de escrever.
...
porque ta me olhando assim? ta com raiva?
sua ultima chance. quem descobriu o brasil?
pedro alvares cabral.
porque nao respondeu antes???
porque voce nao tava com cara de mau.