Muito tempo atrás consegui enxergar através da fumaça de memórias que ardiam na fogueira das lembranças que partiam dele. Vi seus olhos insistindo em girar ao redor, gravando tudo que pudesse ser visto e sentido. Tudo que pudesse denunciar nosso tempo. Vi suas mãos ávidas por minha carne e por meu gosto. Os poros inundados de meu cheiro. Impregnado de mim.
Saturado.
Buscando espaço para desesperadamente devorar cada parte do que nunca cheguei a ser.
Muito tempo atrás sonhei um sonho sem tempo. Deitada no chão senti quando ele chegou a porta. Olhava para o caminho de insetos entre o reboco. Cismando com cada pensamento trazido e levado por aquelas trilhas. Vez ou outra piscava, querendo encontrar os olhos, afogar de lágrima tudo o que estaria prestes a deixar fugir.
Ele pensou meu nome. Me devoraria devagar. Mais uma vez. E mais uma vez, eu não me soltaria da força de sua respiração ou do trovejar de suas asas.
