quarta-feira, 29 de setembro de 2010


Aída gostava de luzes. Espalhou por toda a casa velas e luminárias, lâmpadas brancas e amarelas, quadros e enfeites iluminados.
Na sala, um grande aquário cheio de luzes fluorescia as células dos peixes.
Brilhavam.
Fernando tinha centenas de garrafas, organizadas em prateleiras de madeira escura. Divididas por cores, formatos e odores de antigos conteúdos.
Caminhava entre elas todas as noites. Diminuído em seus sonhos, diminuto como uma ficção.
Sonhava.
Pedro juntava pedaços de antigos carros em seu quintal. Ignorava as rodas. Davam sensação de fuga, e ele queria ficar. Queria que nada mais passasse. Nada mais se afastasse de seus olhos.
Passava pela pintura desgastada os dedos roídos e sentia o vento que ali passou. Fechava os olhos para devorar cada segundo dessa liberdade.
Stela via o mundo em verde. Através das janelas, a senhora do ônibus, o sol do parque, a flor caída, um cão bravio.
Verde. 
E nada fazia tanto sentido quanto verde. Como olhos. Canto do olho. Canto da boca carregando um meio sorriso sem fim.
Leo cultivava um infinito de mudanças a cada dia. O tamanho do prato. A forma do espelho. Os tipos de sons, sabores, lembranças, sentimentos. Todos bem embalados em papel grosso. Amarrados com cordas brancas e finas. A cada reencontro, silêncio. 
Recomeço. 
Uma sensação castanha de tempo voltando.
Não havia sentido em outros universos. Independente do nome que o carregasse. Nenhum que explicasse o vôo de um pássaro, os gritos de uma chuva que cai, a distância entre desejos que não se chocam.
Num dia sem sol, nasceu Ana. 
Gostava de unhas azuis e  sonhos inacabados.