Todos haviam enlouquecido.
Perseguiam os cães gritando sem sentido, saltavam de pontes sorrindo, entravam em igrejas procurando por amigos do passado.
Com o olhar perdido, sentado no meio da rua eu olhava para as paredes. Aguardava que delas saísse um anjo com seu olhar em fúria e suas mãos em fogo.
Um homem passou por mim rindo e arrastando uma cama. Sobre ela seu filho carregado de piolhos e sujeira pulava e gritava ordens imprecisas sobre o caminho a seguir.
As árvores cresciam descontroladas, derrubando casas e postes. A noite murmuravam histórias dos tempos em que os homens devoravam o mundo ao redor. Todos temiam esses dias, como se a sanidade fosse um novo princípio do fim.
De meu canto, via tudo passar lento. Ouvia cada parte do tudo berrar como crianças famintas, enquanto o anjo não chegava.
Seu bater de asas se confundia com passos lentos daqueles que fugiam das sombras.
Distantes.
Anteriores ao tempo.
Num dia claro e silencioso surgiu uma mulher em silêncio.
Olhou ao redor. Tocou árvores e abraçou as pessoas.
Virou-se em direção ao céu com olhos verde-sonho que faziam querer chorar.
