sexta-feira, 9 de março de 2012

inacabado #28

Ela estava decidida a não deixar que dessa vez ele se perdesse entre a multidão.
Ignorou qualquer resquício de fome e começou a esperar.
No horário de costume, lá estava ele se desintegrando entre os outros como um fio de fumaça que se movimenta para dizer que está bem perto do fim.
Num último átimo, ela chamou seu nome.
Ele se virou ainda sorrindo da piada dos amigos e a enxergou linda e ofegante. Seu rosto afogado numa negritude de cabelos desmedidos pelo vento.
Voltou alguns passos e a abraçou forte. Dizendo seu nome completo, como prometeu que o faria.
vamos sair daqui? Ela pediu.
O segurou pela mão e abriu caminho entre os caminhantes.
se fosse num sonho - pensou - eu queria poder voar daqui. chegar ao vazio de qualquer lugar só pra conseguir ouvir sua voz e suas histórias em meio a um silêncio escandaloso.
Mas se sentaram sob uma grande árvore à vista de todos, e de ninguém.
me conta uma história - pediu de novo.
Ele não sabia contar histórias. Gostava de escrevê-las. Olhar para a janela buscando respostas no horizonte ou nos carros que passavam quando lhe faltava o ar. Então lhe sorriu e perguntou o que gostaria de ouvir.
quero te ouvir. Ela disse.
E ele falou. Sobre noites que caem pesadas. As engrenagens que manipulam os improváveis caminhos da vida. Os sons que escapam de mil instrumentos. Sobre as peles que se tocam e os olhos que se veem. Falou do tempo que passa lento andando ao lado da distância e dos aromas dotados de saudade.
De olhos fechados, ela absorvia cada entonação. Sorria para si. Chorava para si. Se abraçava para aplacar todo sentimento, então voltava a respirar.
gostaria de poder dançar com você. Disse.
eu não sei dançar.
não faz mal.
Então se levantou e o pegou pelas mãos.
Dançaram ali, a vista de todos e de ninguém.
Ele devorava cada segundo num viajar nômade entre seus ombros e pescoço. Tocando a pele branca e macia com os labios fechados num ir e vir lento. Sentindo o perfume e os poros que se arrepiavam.
Se aproximou de seus ouvidos. Respirou ali, para que ela soubesse que a estava trazendo lento para dentro de si.
tem algo que você me deve. e quero receber agora.
Ela fechou os olhos.
Sorriu e sentiu sua nuca ser invadida por dedos que se perdiam entre os fios de seus cabelos.