terça-feira, 13 de novembro de 2012



Acordou assustado pela manhã.
Ao levantar da cama, bateu a cabeça numa coisa.
Era uma coisa antiga, que não via desde os tempos em que dependia do bom humor dos pais para conseguir dinheiro suficiente para sair num fim de semana.
De repente, ela estava ali, pendurada sobre sua cama inexplicavelmente a balançar, movida pela força motriz de sua cabeçada.
Saiu intrigado e fervendo a memória em busca de um motivo para aquilo estar ali.
Ao entrar no banheiro, havia uma coisa diferente.
Também no corredor para a cozinha, na cozinha, sala e garagem.
Uma brincadeira de meu irmão, pensou.
Não havia nada de diferente com o carro, mas seguiu para o trabalho ainda triturando pensamentos em busca de uma lógica.
Trabalhou como trabalharia num dia comum.
Comentou no almoço sobre as coisas que reapareciam. Riu. Riram.
Voltou para casa amaldiçoando o excesso de carros. O mau cheiro de combustível. A má educação de todas as pessoas.
Parou na porta de casa para que o portão se abrisse.
Abriu o porta malas para pegar sua pasta, e inacreditavelmente, deu de cara com dezenas de coisas ali, soterrando tudo.
Desistiu de pegar a pasta e abriu a porta de casa, que estava meio presa por alguma coisa do outro lado.
Era um amontoado de coisas que o obrigaram a empurrar forte para que a porta abrisse, derrubando tudo numa barulheira caótica.
Olhava perplexo para tudo aquilo e se recusava a acreditar que estava acontecendo. Centenas de coisas suas estavam surgindo sem qualquer explicação ou motivo.
Ou havia um motivo?
Pensou por alguns segundos.
Não.
Era algo insano. Incabível de se pensar a respeito.
Tudo que havia possuído na vida, e que havia deixado de fazer parte dela estava de volta, como um filme antigo em que tudo surge de repente num recorte de película.
As coisas iam aumentando, ocupando cômodos, espaços, se amontoando sobre as outras como uma avalanche ameaçadora que se aproximava esmagando tudo que estava abaixo.
Encostou-se na parede espantado e sem reação.
Estava nervoso.
Suava muito quando estava assim, e suas mãos pregavam, incomodando.
Sentiu seus dedos tocarem algo.
Uma coisa pequena em seu bolso direito.
Tirou a mão fechada dali, e abriu lentamente para ver uma coisa brilhante que o fez sentir um frio subir por sua coluna e arrepiar os cabelos da nuca.
Todas as coisas estavam ali de volta.
A maioria carregava sua inutilidade esmagadora como uma horda desesperada, mas algumas coisas que não deviam ter passado em brancos tempos, passaram.
E hoje não havia tempo sequer para chorar por elas.