quinta-feira, 14 de março de 2013

Lentamente


Eu não estava preparado.
Esperava e sabia o quão próximo estava o fim.
Mas não aceitava ainda.
Desde criança carrego comigo a necessidade absurda de absorver conhecimento.
Me recostar calado pelas esquinas e observar o mundo girando ao meu redor.
Só observar e absorver.
Li mil e um livros. Mil e dois, talvez.
Dois mil?
Não me lembro mais.
Mas cada fio de cabelo, cada centímetro de pele, cada célula inquieta carrega consigo fragmentos desse conhecimento.
Eu não sofria mazela alguma que a idade trazia consigo.
Bons dentes. Bons ossos.
Uma memória confusa, mas cheia de meias inverdades.
Não podia mais dirigir meu Ford, mas nutria a esperança de um dia acordar virado do avesso, não me preocupando com os outros e guiar novamente por alguma estrada reta e longa.
Não podia comer o que bem entendesse, mas me faz falta comer doces num saco de pão, fingindo estar comendo o pão.
Não tinha mais jeito com as mulheres, mas me transportava para centenas de galáxias durante o momento de olhos fechados sentindo um perfume.
Imaginando um corpo sendo tocado. Uma boca sorrindo durante um beijo.
Gostaria de me lembrar da história de cada pele que beijei.
As mentiras que contei. As mentiras que ouvi.
As verdades que nunca esqueci.
Eu ainda não estava preparado.
Penso como algo muito próximo do absurdo o fato de o mundo perder quem ainda pode somar.
Gênios da música, pacificadores, poetas e tantos outros que, se houver um plano superior que controle o ir e vir dos viventes, penso que é um plano falho e cruel.
Não figuro entre músicos, poetas, pacificadores e outrem. Sou um amante de meu próprio mundo.
Desejoso de minhas próprias vontades e sempre dedicado a meus próprios planos.
Juro que não estava pronto.
Tinha coisas deixadas para dizer na última hora.
Olhares para a última hora.
Algum drama, talvez.
Sempre gostei de me imaginar rindo daqueles que ficariam para trás para cuidar da bagunça que eu havia de deixar.
Não vejo sentido em simplesmente não mais poder sentir o medo de não mais sentir.

sexta-feira, 1 de março de 2013

00:27



Vagava uma noite silenciosa ao redor.
Sem gatos, cães ou pessoas invadindo a janela do quarto quando o telefone vibrou e iluminou meio mundo bem ao lado da cama.
Era uma mensagem dizendo Sinto sua falta.
Simples assim. Sem rodeios ou floreios. Sentia falta e deixava para mim o destino desse sentimento.
Me deitei e fechei os olhos que formavam imagens sem sentido se movimentando e se desfazendo com o fim da lembrança da luz.
Eu também tinha saudades.
Queria responder dizendo para que se encontrasse comigo no lugar de sempre.
'Estamos indo tão bem', falei dias atrás.
Pelo visto, não era o suficiente para ele.
Não o era também para mim.
Queria me levantar e pintar minha boca de vermelho.
Colocar o vestido que ele gosta e afogar meus poros do perfume que o faz fechar os olhos.
Me afogar em suas mãos que me arrepiam.
Me afogar de sua carne e de seus sussurros.
Gosto dos seus cabelos, ele disse.
De sua boca, seu sorriso e sua teimosia.
Era alguém que fazia valer mais cada dia vivido. Que merecia a verdade de cada sorrir.
Virei para o lado e fechei os olhos querendo chorar, mas se havia alguma lágrima, ela estava escondida longe demais.
Estamos indo tão bem.
Repeti para o silêncio que me ouvia de olhos fechados.