Ao entardecer do centésimo vigésimo oitavo dia Noé sentiu doer a fome.
Uma fome tão terrível e triste que escurecia a visão, fazendo doer as articulações que berravam com o esforço para manter o corpo em movimento.
Podia sentir seu corpo se devorando lentamente. Desesperadamente nos últimos dias.
Ébrio pelo ar nauseabundo que, quase tangível, acertava seu rosto a cada movimento, caminhou para a borda do barco.
Olhou para o horizonte molhado e inalcançável e sentiu um desejo absurdo de vomitar.
Seu corpo se contorceu em dor, mas não havia o que colocar para fora.
Seus lábios ressecados sangraram com o esforço da boca. Os olhos lacrimejaram preciosas lágrimas que marcaram caminho por seu rosto.
Com uma expressão de desamparo, olhou ao redor.
Pouco restara para cuidar.
Naamá prostrada de encontro a parede olhava com seus olhos sem alma para um cordame que balançava estupidamente tentando alcançar o vento.
Havia uma dezena de dias que não dizia palavra.
Não se banhava.
Era um fantasma vestindo negro que caminhava lento e desesperançado.
Sobraram algumas cabras, pássaros e uma vaca que mal se sustentava apoiada num canto.
Ela mugiu ao perceber que era observada.
Suas costelas gradeadas como um bambuzal subiam e desciam infladas pelo ar salgado que saturava cada centímetro de pele.
Noé olhou novamente para Naamá que permanecia olhando sem ver. Respirando programadamente como uma máquina.
Caminhou para o fundo do enorme barco olhando ao redor, buscando o enferrujado machado que jazia enterrado num enorme pedaço de madeira escura e macia.
Foi fácil tira-lo dali.
Como se a força tivesse voltado para seus ossos e músculos ressequidos, segurou com firmeza o cabo roto e longo.
Caminhou de volta para perto do fantasma de sua mulher que ignorava o mundo ao redor.
Um trovão berrou ao longe, enclausurado na negritude do céu que se agitava entre ventos, raios e a fúria do deus.
Os segundos pareciam não passar enquanto o mundo era cercado por essa negritude brutal, enquanto os olhos desciam lentos do cabo para a lâmina. Da lâmina para suas mãos secas.
Levantou os braços. E, com eles, subiu o machado pesado. Agora tão leve. Tão puro.
Outro berro acertou esquerda e direita de seus ouvidos.
Naamá levantou os olhos com uma aceitação que beirava o desespero. Um pedido. Uma cumplicidade silenciosa e ansiosa.
Dessa vez um raio fez em pedaços parte da frente do grande barco, acompanhado de um ensurdecedor vendaval trovão tormenta que parecia cavalgar um corcel enfurecido.
O machado desceu com violência e rapidez terríveis.
Com um baque surdo partiu ossos, nervos, carne, pele pensamentos.
O animal caiu de joelhos e deixou que a morte seguisse seu curso.
A mulher levantou-se e se aproximou.
Tocou o ombro de Noé e se abaixou para recolher o sangue que corria quente e vivo enquanto a tempestade se afastava silenciosa. Incrédula. Resoluta.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
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