Começou pelos pratos que estavam empilhados a direita da mesa escura.
A madeira gasta denunciava uma idade avançada, marcada por inúmeros pratos, talheres, panelas e caixas ali colocados durante anos e anos.
Sentado no chão de terra batida seu filho brincava enterrando um marimbondo com areia, só para que em seguida pudesse salvá-lo.
E recomeçar.
O sol soava leve naquela tarde. Amansado por nuvens suaves e um vento frio que fazia balançar o sino de vento feito com pedaços de bambu.
Olhou para o instrumento roto, e se lembrou de que precisava consertar uma das hastes soltas.
Voltou a cantarolar a canção cantada no almoço. Era sua favorita, e contava a história de alguém que se vai para nunca mais voltar. Se arrepende, mas ainda assim não volta.
As pessoas sorriam, cantavam, comiam e gargalhavam genuinamente.
Aquele era um instante de quietude, onde ninguém se importava com o mundo girando veloz do lado de fora.
Não havia medo, dor, solidão ou falta de paz.
Eram um.
Que trazia um presente.
Que trazia o alimento.
A canção.
A mão.
O abraço.
Um que desejava aquele momento para sempre.
Que agradecia em silêncio.
Cantando mil canções de amor.
Sorvendo a aguardente preparada com esmero e mestrandade e calor e paixão.
Ainda cantava baixinho, com o menino acompanhando as partes mais fáceis.
Vez em quando olhava para trás.
Ele olhava de volta.
Indócil e sujo.
Feliz.
Não havia mais silêncio no mundo.
Era tudo vida e recomeço.
O cheiro do café.
O zumbido de uma mosca.
Sorriu pequeno e pensou que gostava de como o som da água que saía pela torneira confundia-se com o murmurar do riacho que passava ao lado de sua casa.
A vida voltava aos trilhos lentamente.
O verde voltava aos quatro cantos de seu quintal.
Os amigos não haviam abandonado seus dias.
Os sonhos não mais deixavam suas noites.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
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