segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A mão esquerda de Deus

O quarto apesar de branco, era escuro.
Deixava ver uma linha clara escapando por debaixo da porta pesada que fechou lenta e num som abafado pelas borrachas em suas bordas.
Estava sozinha.
Nos cantos nem mesmo uma aranha ouvia ou via qualquer de seus movimentos.
Sem moscas.
Sem almas por perto.
Apenas um silêncio tangível que cheirava a mofo e cascas velhas de laranja.
Do lado de fora deveria estar movimentado, com pessoas indo e vindo, executando suas funções de forma mecânica e desinteressadas. Pensando em suas vidas, ou na ausência delas.
Em seus homens, mulheres, filhos, casas frias e doenças silenciosas.
No sem sentido do tudo.
Na falta de sentido de suas escolhas.
Vazio.
Deitada e encostada numa parede fria desejou poder ouvir musica.
Tentou se lembrar de uma canção antiga, que sua mãe cantarolava enquanto cozinhava.
Se lembrou do cheiro da lenha queimada, e dos sons dos animais no quintal.
Do pai contando histórias contadas pelo pai de seu pai.
De seus sorrisos sinceros e sem som. Do calor de seu quarto onde brigou um sem número de vezes com seus irmãos.
Tocou a parede fria sentindo as falhas na pintura grosseira, como se fosse a agulha de um disco de vinil lutando para se manter em movimento enquanto acordes fugiam por entre seus dedos.
Chaves tilintaram do lado de fora, fazendo com que os pensamentos fugissem como pássaros numa revoada descontrolada.
A luz cegou.
Ouviu uma voz dizendo que a hora chegara.
Num tom suave e direto. Como se pedisse perdão.
Não havia o que se perdoar.
Nada além das promessas não cumpridas.
Dos abraços negados.
Dos silêncios dissimulados e das memórias de dias vividos em vão.
Ainda haveria tanto tempo.
Tantas histórias para contar e gravar com os olhos.
Sabores para a boca e sentidos para os dedos.
A voz de seus pais soando de novo, e novas canções para serem conhecidas, mas o tempo era uma ilusão cruel.
Andando lentamente pelo corredor longo e estreito sentiu descer por seu rosto uma lágrima quente, que deixava um rastro que aos poucos se perdia entre o toque de um frio impossível.
Seu corpo tremia, mas seus passos firmes continuavam em frente, a caminho da mão esquerda de Deus.

domingo, 2 de agosto de 2015

Fuga

Devolve o meu toque.
Meu beijo roubado num dia de chuva.
Abre seus olhos e vê que passou.
Devolve meu abraço infinito onde te coloquei para alcançar mil estrelas.
Devolve meu sonho.
Meus dias de sonho.
Meu tempo passado e perdido entre palavras cruas.
Me entrega o medo que mostrei entre as paredes que nos fecharam para sempre.
Entrega o sem conta de sorrisos ao te ver chegar.
Devolve a lembrança de mim.
A esperança do nós.
Foge de meus olhos.
Foge de meus sonhos atormentados pelos fantasmas do que não somos.
Leva consigo essa angústia desesperada que deixou em minhas mãos vazias e tristes.
Minha insônia.
Esses dias vermelhos em meus olhos.
Devolve meu canto.
Minhas canções.
Meus olhares.
Minha voz dizendo verdades.
Me entrega sem que eu saiba de onde vem.
O que é seu estou devolvendo dia a dia.
Gota a gota do que sangra a cada lembrar, nas costas de meu aceitar silencioso.
Foge de meus sonhos.
De meu peito devastado pelo segundo atravessar da tempestade negra que é você.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ciúme

Foi como se houvesse brasa viva e pulsante em meu peito.
Um desejo descontrolado de explodir e levar entre meus mil pedaços outros mil pedaços dele.
Para bem longe.
Doloridos em cacos pontiagudos de vidro e aço e madeira branca e seca. Daquelas duras de quebrar e queimar. Que envergam até o limite, sempre berrando contra o vento e a força do mundo que a impele contra o solo.
E resiste.
Cresce e germina o ar com sua verdidão e sons misturados de fruto nascendo e folhas vibrando amarelas sandices intocáveis.
Foi por um momento apenas.
Um toque de mãos numa despedida despida de qualquer implicidade.
Não houveram palavras pintadas de paixão ou aromatizadas de qualquer erotismo que me fizesse respirar leve.
Foi como se houvesse brasa viva entre meus olhos, meu passos e a distância que tornaria seguro meu mundo a seu lado.
Respirando lentamente para que o ciúme se desprenda evaporando de meu corpo e meus poros e ouvidos surdos por mil eternidades.
Ela se foi, ele me viu chegar.
Sorrindo com os olhos me abraçou dizendo um oi bonito e carregado de uma branca pureza alheia a meus loucos pensamentos.
Fechei os olhos, mergulhando nua em minha própria paz construída.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Fome

Há uma fome que não passa.
Corre de braços abertos entre a luz e a escuridão.
Entre campos e florestas densas.
Em silêncio.
Em brados infindos.
Uma fome que, insatisfeita, não nos deixa partir para o nunca mais.
Uma fome em cores impossíveis.
Em sons sentidos nas pontas dos dedos.
Vibrando pequeno como se para ouvir, fosse preciso sonhar.
Essa fome carrega em si um perfume inalcançável.
Um cheiro do animal aprisionado em seu corpo.
Cítrico e selvagem como uma folha que cai.
Me olhando com fúria e espera.
Vigiando cada olhar e movimento.
Cada passada larga do desencontro.
Farejando cada passo rumo ao que não fomos.
Há uma fome que não passa, apesar do tempo e do medo e da chuva ao redor.
Ela corre livre entre os lobos de sua pele,
Que devoram cada pedaço de nós para que nunca possamos voltar.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O sonho de Alice

Ela suspirou por um segundo que durou o restante de sua vida.
Durou pelo tempo em que seus olhos permaneceram fechados.
Absorvendo. Se alimentando de cada molécula daquele momento.
Incrédula.
Absorta em se perder para sempre, olhou para os lados sem ver o que podia ser encontrado.
Buscando um ponto de fuga para seu desespero.
Tentando respirar com o peito esmagado e os olhos a deriva sem saber em que oceano se perderam.
Viu aquelas mãos subirem num gesto perfeito de entrega e sonho.
Fechou novamente os olhos para sentir de perto a melodia que fugia das caixas espalhadas ao redor.
Ela chegava rouca e cheia de dor.
Uma harmonia absoluta e descrita em cores primárias e perdidas, e nuas, e quentes, e abandonadas numa frequência inalcançável.
Era o fim.
As mãos baixavam lentas em direção ao microfone que transmitia ao cosmos um ouro líquido.
Era um ansioso pedido de perdão.
Quis chorar como se o mundo fosse um canto escuro onde pudesse se esconder sozinha até o fim dos tempos.
Rasgando todas as cartas que nunca conseguiu enviar.
Todos os segredos que teimou em esconder.
Olhou para a porta negra e fechada que a dizia para ficar.
Sabia que lá fora a lua a esperava indicando o caminho de casa, mesmo sem estrada por onde pisar.
Sem a luz amarela para guiar seus olhos molhados.
Fique.
Cantava o ouro líquido desesperado.
Ela se levantou trêmula para aplaudir, mas não havia som.
Apenas seu coração pulsando descontrolado a espera de um próximo acorde.