Há uma fome que não passa.
Corre de braços abertos entre a luz e a escuridão.
Entre campos e florestas densas.
Em silêncio.
Em brados infindos.
Uma fome que, insatisfeita, não nos deixa partir para o
nunca mais.
Uma fome em cores impossíveis.
Em sons sentidos nas pontas dos dedos.
Vibrando pequeno como se para ouvir, fosse preciso sonhar.
Essa fome carrega em si um perfume inalcançável.
Um cheiro do animal aprisionado em seu corpo.
Um cheiro do animal aprisionado em seu corpo.
Cítrico e selvagem como uma folha que cai.
Me olhando com fúria e espera.
Vigiando cada olhar e movimento.
Vigiando cada olhar e movimento.
Cada passada larga do desencontro.
Farejando cada passo rumo ao que não fomos.
Farejando cada passo rumo ao que não fomos.
Há uma fome que não passa, apesar do tempo e do medo e da chuva
ao redor.
Ela corre livre entre os lobos de sua pele,
Que devoram cada pedaço de nós para que nunca possamos voltar.