O quarto apesar de branco, era escuro.
Deixava ver uma linha clara escapando por debaixo da porta pesada que fechou lenta e num som abafado pelas borrachas em suas bordas.
Estava sozinha.
Nos cantos nem mesmo uma aranha ouvia ou via qualquer de seus movimentos.
Sem moscas.
Sem almas por perto.
Apenas um silêncio tangível que cheirava a mofo e cascas velhas de laranja.
Do lado de fora deveria estar movimentado, com pessoas indo e vindo, executando suas funções de forma mecânica e desinteressadas. Pensando em suas vidas, ou na ausência delas.
Em seus homens, mulheres, filhos, casas frias e doenças silenciosas.
No sem sentido do tudo.
Na falta de sentido de suas escolhas.
Vazio.
Deitada e encostada numa parede fria desejou poder ouvir musica.
Tentou se lembrar de uma canção antiga, que sua mãe cantarolava enquanto cozinhava.
Se lembrou do cheiro da lenha queimada, e dos sons dos animais no quintal.
Do pai contando histórias contadas pelo pai de seu pai.
De seus sorrisos sinceros e sem som. Do calor de seu quarto onde brigou um sem número de vezes com seus irmãos.
Tocou a parede fria sentindo as falhas na pintura grosseira, como se fosse a agulha de um disco de vinil lutando para se manter em movimento enquanto acordes fugiam por entre seus dedos.
Chaves tilintaram do lado de fora, fazendo com que os pensamentos fugissem como pássaros numa revoada descontrolada.
A luz cegou.
Ouviu uma voz dizendo que a hora chegara.
Num tom suave e direto. Como se pedisse perdão.
Não havia o que se perdoar.
Nada além das promessas não cumpridas.
Dos abraços negados.
Dos silêncios dissimulados e das memórias de dias vividos em vão.
Ainda haveria tanto tempo.
Tantas histórias para contar e gravar com os olhos.
Sabores para a boca e sentidos para os dedos.
A voz de seus pais soando de novo, e novas canções para serem conhecidas, mas o tempo era uma ilusão cruel.
Andando lentamente pelo corredor longo e estreito sentiu descer por seu rosto uma lágrima quente, que deixava um rastro que aos poucos se perdia entre o toque de um frio impossível.
Seu corpo tremia, mas seus passos firmes continuavam em frente, a caminho da mão esquerda de Deus.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
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