quinta-feira, 23 de agosto de 2007



...dizem que os pecados dos pais passam para os filhos...


a moça de camisa azul olhava para as arvores passando velozes pela janela do ônibus.
pensava no marido voltando de outro lugar. estaria também observando as arvores que passam velozes? tão velozes quanto os dias bons de suas vidas. tão velozes quanto suas noites acordados.
seu medo de ficar sozinha vivia chocando-se com o medo de envelhecer em desgosto. sem poder ter filhos, sem ter um companheiro de verdade.
ligou o rádio, fechou os olhos e começou a cantar.

ele lia sobre engenharia genética. as aplicações da hibridação de Southern, quando tomou um empurrão do lado direito.
_desculpe.
_tudo bem. acontece.
_sobre o que ta lendo?
_genética. fim de curso.
_muito legal. onde faz o curso?
_na federal.
_eu terminei no ano passado o curso de letras.
_legal.
_se estiver incomodando, me fala.
_não... tudo bem.
_qual é o seu nome?
_luiz.
_nome bonito. forte. prazer, alex.
ele voltou a abrir a revista maldizendo a estratégia usada pelo cara para se aproximar.
maldizendo o perfume adocicado que ficou em sua camisa no momento da trombada. a lembrança dos olhos devoradores e da mão pesada em seu ombro enquanto a voz mansa pedia desculpas.
pediu licença e se afastou. sentou-se nos degraus da porta do onibus, e minutos depois precisou se levantar para ver alex passando e se despedindo com um sorriso triste.

descendo do onibus, olhou para o céu. lembrou-se de muitos anos antes, quando conseguia ver um oceano de estrelas. seus formatos, suas constelações.
deitava-se na calçada da casa de seus pais e ao lado de seu irmão ficava tentando contar as maiores, mas sem apontar, porque diziam que apontar e contar estrelas provocava o nascimento de verrugas. eles morriam de medo.
começou a caminhar, sentindo as pedras do chão denunciando suas formas sob a sola fina de seu sapato. vira os homens colocando cada uma delas, um trabalho de perfeição e suor. eram pessoas humildes e felizes. faziam o que gostavam de fazer, e com um talento que beirava a perfeição.
parou novamente. respirando fundo em meio ao frio, tentava criar coragem para se dirigir ao ponto mais alto da catedral.

[foto de leonardo costa braga]

quinta-feira, 2 de agosto de 2007



_tudo certinho?
_tudo certo. obrigada.
_então ta bom. tchau.
_tchau.
Z passou pela porta da sala de recebimento de materiais e leu num quadro um informe sobre música erudita, num sábado próximo. lembrou de um grande amigo da infância.
a caminho do elevador, viu pelo corredor varias plantas em vasos bonitos e de pintura envelhecida. plantas artificiais, provavelmente.
o elevador estava demorando. havia um rapaz que lia um quadro com explicações sobre o uso racional do mesmo. batia o pé esquerdo, irritado e impaciente.
a seta indicando a direção do elevador que parou, iluminou-se para baixo. direção correta. a porta se abriu e mostrou-se vazio. no momento, eram os dois os únicos passageiros.
_'passageiros?' - pensava ele. - como se chamavam os ocupantes de um elevador? ocupantes? e os dirigidores de metrô? motorista, pilotos, operadores? vai saber.
o elevador parou no 13º andar e entrou um rapaz magro, com cerca de 25 anos. um ferimento no meio do labio inferior. a primeira vista, poderia tratar-se de um piercing arrancado, ou perfuração inflamada. logo atras dele vinham dois seguranças de uma transportadora de valores, com as mãos sobre os coldres. quando estavam dentro do elevador, e de frente para a porta, entrou um terceiro carregando uma escopeta calibre 12.
formaram um triangulo, com o homem da escopeta a frente, e com um aceno de cabeça, o mais velhor deles apontou para o meio da formação, dizendo onde o rapaz machucado deveria ficar.
ele carregava sob o braço direito uma pasta de lona fina, azul e surrada. sem qualquer inscrição ou símbolo.
a porta se fechou e recomeçou a descida. chegando ao 11º andar, as luzes se apagaram e o elevador parou violentamente, jogando no chão o homem da escopeta e o rapaz impaciente do 15º.
Z só nao caiu porque estava apoiado ao final do elevador, entre o fundo e a lateral esquerda. ouvia o som dos cabos balançando e se chocando. seus olhos começavam a se acostumar a escuridão e viu o homem da escopeta e o impaciente se levantando e praguejando.
não havia sinal para os celulares, e o unico radio disponível com os seguranças só captava estática.
ainda com as luzes do elevador apagadas, o elevador voltou a descer lenta e gradativamente. às vezes parando por cerca de 10 segundos, e voltando a se movimentar em seguida.
era impossivel saber em que andar estavam agora. a agonia por liberdade começava a dar lugar a uma preocupação com o que poderia estar causando o problema.
em seus ouvidos o cantor berrava ''i will fly arround your fire anymore'' no momento exato em que pararam novamente e começaram a subir. os seguranças sacaram as armas e tantavam desesperadamente contato atraves do radio. arrancou os fones do ouvido e tentou abrir a porta.
estática.
parou novamente. as paredes vibraram e começaram a ouvir pancadas fortes vindas de cima. não onde estavam, mas muito acima, como se tentassem arrombar algo.
todos começaram a procurar por alguma saida de emergência, apertando freneticamente - e em vão - os botões.
_merda. só faltava isso. eu morrer no escuro, e no meio de um monte de homem.
pensava Z, enquanto forçava a porta que parecia soldada por fora. voltou-se para tras e deu de cara com o rapaz magro. sob a luz dos celulares, ele sorria. olhava para cima, decifrando a escuridão, e sorria.