
...dizem que os pecados dos pais passam para os filhos...
a moça de camisa azul olhava para as arvores passando velozes pela janela do ônibus.
pensava no marido voltando de outro lugar. estaria também observando as arvores que passam velozes? tão velozes quanto os dias bons de suas vidas. tão velozes quanto suas noites acordados.
seu medo de ficar sozinha vivia chocando-se com o medo de envelhecer em desgosto. sem poder ter filhos, sem ter um companheiro de verdade.
ligou o rádio, fechou os olhos e começou a cantar.
ele lia sobre engenharia genética. as aplicações da hibridação de Southern, quando tomou um empurrão do lado direito.
_desculpe.
_tudo bem. acontece.
_sobre o que ta lendo?
_genética. fim de curso.
_muito legal. onde faz o curso?
_na federal.
_eu terminei no ano passado o curso de letras.
_legal.
_se estiver incomodando, me fala.
_não... tudo bem.
_qual é o seu nome?
_luiz.
_nome bonito. forte. prazer, alex.
ele voltou a abrir a revista maldizendo a estratégia usada pelo cara para se aproximar.
maldizendo o perfume adocicado que ficou em sua camisa no momento da trombada. a lembrança dos olhos devoradores e da mão pesada em seu ombro enquanto a voz mansa pedia desculpas.
pediu licença e se afastou. sentou-se nos degraus da porta do onibus, e minutos depois precisou se levantar para ver alex passando e se despedindo com um sorriso triste.
descendo do onibus, olhou para o céu. lembrou-se de muitos anos antes, quando conseguia ver um oceano de estrelas. seus formatos, suas constelações.
deitava-se na calçada da casa de seus pais e ao lado de seu irmão ficava tentando contar as maiores, mas sem apontar, porque diziam que apontar e contar estrelas provocava o nascimento de verrugas. eles morriam de medo.
começou a caminhar, sentindo as pedras do chão denunciando suas formas sob a sola fina de seu sapato. vira os homens colocando cada uma delas, um trabalho de perfeição e suor. eram pessoas humildes e felizes. faziam o que gostavam de fazer, e com um talento que beirava a perfeição.
parou novamente. respirando fundo em meio ao frio, tentava criar coragem para se dirigir ao ponto mais alto da catedral.
[foto de leonardo costa braga]