segunda-feira, 19 de novembro de 2007

coisas. e a infância.


acordei bem cedo, com o vizinho a acelerar seu velho automóvel velho ao lado da janela de meu quarto. coloquei a cabeça pra fora "bom dia, senhor saulo!" gritei pra vencer o ronco esfumaçado.
ele levantou a mão em cumprimento e acelerou ainda mais, feliz da vida com seu carburado milnovecentosealgumacoisa.
minha mulher estava tomando o cafe da manha quando passei pela cozinha para pegar uma camisa limpa na area de tanque. "bom dia, amor' beijo. "leva o bebê ao medico pra mim hoje? tenho uma reunião de ultima hora".
tá bom. levo.
mensagem pro chefe. vou atrasar.
"to indo. ja ta tudo pronto. te amo." ela foi.
ouvi choro no outro quarto. mamadeira na mão e bico na boca do guri.
"ta na hora, amigão. vamos? fralda limpa? graças a deus."
"prrrrr"
"heheh... é isso ae."
coloquei o guri na cadeirinha para criancinhas do carro e passei nele o cinto de segurança de quatro pontos, não sem ouvir uma reclamação inteligível de quem nao quer ficar ali sentado.
plebe rude pra começar bem o dia. ele batia palmas meio descoordenadas, mas batia.
transito foda.
calor de quem nao tem ar condicionado no carro.
menino estressando. dei pra ele um daqueles jornaizinhos que a galera entrega nos sinais com propaganda de tudo o que existe.
rasgou tudo em minutos e tentou comer o ultimo pedaço. "nao faz isso, cara!" tomei dele e fui xingado numa lingua há muito esquecida.
entreguei as chaves de casa e tomei de volta. vai que ele joga pela janela.
"o que eu vou te dar?"
abri o porta luvas e achei o vidrinho do laboratório. dentro dele alguma coisa balançante e distrativa.
entreguei pro moleque que ficou satisfeito e quietinho. seguimos viagem. consulta rápida e rasteira. "como está esperto o rapazinho!"
nem me fale.
voltamos pro carro e fui xingado de novo quando fechei o cinto de segurança de quatro pontos. já de cara entreguei pra ele o santo vidrinho distrativo, mas que tinha deixado de ser balançante.
"onde voce colocou o treco que tava aí dentro?"
"prrrr"
"eita bosta... chegando em casa eu te tiro daí e procuro."
procurei.
nada do artefato balançante, chacoalhante, ou o que quer que seja.
deixei isso de lado, coloquei o vidrinho de volta no porta luvas e entreguei o estressado para a babá.
"da tchau pro papai, dá?"
balancei a mão e fui trabalhar.
"boa noite, amor. obrigado por ter levado o bebe. salvou minha pele".
a gente tá aí pra isso mesmo.
"amor, voce viu meus dentes de leite? mamãe me entregou mas nao faço idéia de onde deixei".
nada vi.
"vidrinho branco com tampinha verde...?"
nada sei.
"ah, nao..."
acho que ta no carro. vou olhar pra voce.
peguei o vidrinho e enfiei bem fundo no saco de lixo mais fedorento que encontrei.
vi nao, amor. posso jurar que tinha visto no carro, mas nao ta la. cheguei a vasculhar o lixo de hoje, mas tá lá tambem nao. tem valor sentimental, né?

Um comentário:

lady-bug disse...

vc e aquela p**** daquele menino são f***!