quinta-feira, 15 de outubro de 2009


Despertei entre escombros, com as mãos e pés doloridos, a boca e olhos ressecados. empoeirados. Sentia em meus ouvidos uma pressão que fazia doer a cabeça em pontadas silenciosas. Sentia apenas silêncio, dor e escuridão. Fiquei ali sentado de olhos fechados esperando me acostumar a falta de luz, e aos poucos comecei a perceber vultos que se moviam ao redor. Alguns andavam agachados, outros corriam, rastejavam, e alguns, como eu, estavam parados olhando em volta. Não me lembro por quanto tempo dormi, nem mesmo como cheguei ali. Minhas roupas estavam extremamente sujas e nada havia nos bolsos, além do pó que impregnava. Era impossível dizer se estávamos numa sala ou num grande alojamento. Sem sons, sem vento. Sem direção.

À medida em que recuperava meus sentidos, percebia mais e mais pessoas. Alguns parecendo tão perdidos quanto eu. Outros imersos em sua própria alma, alheios ao que nos cercava como se estivessem em coma. Os braços pendentes e olhos muito distantes não se moviam. Pareciam bonecos bizarros e mal acabados.

Uma criança veio correndo entre os vultos e parou perto de uma mulher grande e suja. Falou algo que a distância não me deixou ouvir e sumiu correndo entre os errantes. Tentei gritar por ela, mas não consegui emitir nenhum som. Quase explodi minha garganta tentando falar, mas em vão. Caminhei em direção a mulher com dificuldade, mas meu estômago revirava a cada passo e meus olhos começaram a lacrimejar exageradamente, a ponto de me imperdir de ver. Os ouvidos zumbiam como se houvesse uma furadeira trabalhando a plena carga, dilacerando aço e concreto em fragmentos que se enterram fundo na carne, sem deixar esquecer. Caí de joelhos quando minhas pernas falharam e entre a poeira e as lágrimas, vi a menina correr em minha direção. Chegou bem perto, como se estivesse sentindo meu cheiro quando vi que não tinha olhos. Em seu lugar, bolas negras e opacas giravam em todas as direções, como se fossem uma espécie de radar. 'Ainda é cedo pra você andar. Quando nascer um pouco mais, venho te buscar.' Sua voz era um misto de grito e murmurio. Tempestade e calmaria, com uma pele rugosa que parecia resistir a poeira. Ela apontou para o norte com dedos longos e ossudos, de onde subia um enorme sol negro com bordas de um cinza cegante, mas que não aquecia. Não iluminava. Piscou algumas vezes observando o que parecia ser um céu e depois se voltou pra mim tocando meus braços e tornou a me cheirar. Instintivamente, tentei sentir seu cheiro quando percebi que desde que despertei, não havia respirado. Ela correu antes que eu pudesse perguntar algo e pegou a mulher pelas mãos. Levei minha mão ao peito e as lágrimas pararam quando não senti.

terça-feira, 15 de setembro de 2009



oi. boa tarde.
boa tarde.
estou participando de um projeto pra universidade em que foi proposto o tema "desconhecidos". gostaria muito de poder fazer uma foto da senhora com algum filho, ou parente próximo.
foto?
sim. foto.
mas foto pra que?
pra um projeto da escola.
e pode ser com meu marido também?
é claro!
então espera que vou chamar. Antôooooonio!
então. quem é esse moço?
ele é da entidade.
não, senhora. da universidade. é que estou participando de um projeto fotográfico em que foi proposto o tema "desconhecidos". gostaria muito de poder fazer uma foto de vocês. posso?
foto? pra fazer o que?
para um projeto.
o que vai fazer com essas fotos?
algumas delas serão expostas no encerramento do projeto.
foi isso mesmo que ele te falou primeiro?
foi... acho que foi.
e quanto você vai ganhar com elas?
não vou ganhar dinheiro com elas. isso vale ponto para o trabalho.
então seus professores vão ganhar!
acho que não, senhor.
ah. claro que vão. onde você já viu isso? parece bobo. fotógrafo é cheio do dinheiro, que eu to sabendo. quando vai dar pra gente?
nossa... meu dinheiro mal ta dando pra pagar meu curso.
tá mais fodido do que eu então, hein?
mais ou menos isso.
veja bem. veja bem. meu dengo aqui vai valorizar seu trabalho. embelezar essa tal exposição. olha como ela é graçuda.
tenho certeza que vai. mas me desculpem. estava olhando aqui e só agora vi que gastei todo o rolo do filme na parte da manhã, e não tenho mais.
filme?
é.
você é burro? porque nao compra uma daquelas máquinas de tirar foto com telinha?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Dias atrás me vi correndo entre nossos medos.
Descobri, caindo em abismos, que corria a sós.
Nas mãos, ouro e sonhos em troca de teu olhar.
Entre rios e montanhas senti o frio. Me alimentei de meu cansaço.
Bebi as notícias trazidas pelo vento, e os segredos guardados sob as sombras.
Desafiei os gritos das tempestades, rompendo o tempo a caminho de nós.
Te vi ao longe. Vestida de luzes, dançava.
Girando entre os braços, vigiada de perto pelo sabor de seu perfume.

Parado a sua frente, me vi.
Minhas roupas contavam minhas dores e meus pés ainda buscavam abrigo entre as pedras e a terra seca que varreu minha pele e meus cabelos.
Nas mãos, minha espada e meu escudo gasto escrito em letras de bronze, que refletindo seus olhos, diziam sim.

[foto de edu rickes]

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Moro bem a beira do fim do mundo.

Minha casa tem janelas de pedra e vidro que deixam ver a chuva chegar. Meu cão de olhos espertos enxerga longe, correndo entre galhos e sóis.

Moro bem a beira do fim do mundo.

Onde meu flho e meus amigos cantam sobre gatos e telhados. Onde há uma menina e um céu. Magos felizes espalhando acordes honestos e estradas a percorrer.

Moro bem a beira do fim do mundo.

Onde há uma nova esperança, um novo perfume e novos sorrisos. Há saudade e recomeços. Grama para cortar e erros para corrigir.

Moro bem ali. No topo do morro, entre um lago e um grande carvalho. À nós, o sol vem primeiro.

Entre nos está a distância e a força para percorre-la.

Pra nós, todo o amor do mundo.

terça-feira, 18 de agosto de 2009



olha quem tá ali!
quem?
a sandrinha, cara.
que sandrinha?
aquela que tava com a gente na festa de fim de ano.
ué... onde?
ali, encostada na janela.
cara... não é ela.
é sim! claro que me lembraria dela, né?
voce ta doido. aquela é a irmã do chico.
que chico?
lá do bairro. cria pombo.
e quem diabo cria pombo?
o irmão dela.
cara... isso nao foi uma pergunta direta. eu tava raciocinando sobre qualquer vantagem em se criar pombo.
ah sim.
e é lógico que é ela. olha que boca. aposto que os cabelos tem o mesmo perfume daquele dia. nao tem como esquecer, né?
para de falar "né", e deixa de ser teimoso.
teimoso é você. eu dei uns beijos nela. eu é que sei se é ou não é.
então tá bom.
quando esvaziar o ônibus vou lá conversar com ela.
conversar o que?
sei lá. saber como ela tá.
heheh
o que foi? agora também nao tenho mais condiçao de dialogar com uma pessoa?
falei nada.
mas riu aí igual um calango.
e calango ri?
nao sei. mas voce riu.
parei.
é bom mesmo.
ta bom.
...
agora vai lá antes que chegue no ponto final.
eu vou.
então vá.
segura minha bolsa.
ta com medo de ela ouvir sua marmita batendo?
...

oi.
sim?
deixa eu te perguntar, voce sabe os preços dos pombos do seu irmão?