segunda-feira, 22 de novembro de 2010


Ela olhava para fora e sorria.
Talvez se lembrasse de palavras sussurradas na noite anterior. Juras de amor sem fim, elogios a seus cabelos castanhos e finos, seu rosto de menina com uma pinta negra desafiando os negros olhos, uma sutileza conhecida apenas pelos dois e que a fez se arrepiar.
Sorria quase a rir entre estranhos que, enjaulados em seu próprio mundo, não tinham mais garras nem asas.
Viu um vulto dormindo na janela do veículo ao lado. Lembrou-se de seu sono a dois, seu despertar observado, seu desejo tímido de evaporar num átimo sendo devorado pelo desejo do outro. Cobriu o rosto e quis ser possuída por aqueles olhos que a despiam com fome e paixão, que a tocavam embalados por seu cheiro jovem e medroso.
Baixou o lençol, descobrindo o sorriso honesto. Sua mente girava visitando terras distantes onde queria levá-lo pra sempre.
Ele sorriu de volta.
Queria cantar sobre anjos e paisagens molhadas de sol, mas era só silêncio.
Despertou de seus pensamentos e olhou ao redor. E em cada jaula, cada olhar, cada rosto, a vida parecia ser só aquilo que se via passar todos os dias, da mesma forma. O tedioso ir e vir. O viver apenas para viver.
Cega de amor em seu canto, ela voava.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010


Todos haviam enlouquecido. 
Perseguiam os cães gritando sem sentido, saltavam de pontes sorrindo, entravam em igrejas procurando por amigos do passado.
Com o olhar perdido, sentado no meio da rua eu olhava para as paredes. Aguardava que delas saísse um anjo com seu olhar em fúria e suas mãos em fogo.
Um homem passou por mim rindo e arrastando uma cama. Sobre ela seu filho carregado de piolhos e sujeira pulava e  gritava ordens imprecisas sobre o caminho a seguir.
As árvores cresciam descontroladas, derrubando casas e postes. A noite murmuravam histórias dos tempos em que os homens devoravam o mundo ao redor. Todos temiam esses dias, como se a sanidade fosse um novo princípio do fim.
De meu canto, via tudo passar lento. Ouvia cada parte do tudo berrar como crianças famintas, enquanto o anjo não chegava.
Seu bater de asas se confundia com passos lentos daqueles que fugiam das sombras.
Distantes.
Anteriores ao tempo.

Num dia claro e silencioso surgiu uma mulher em silêncio.
Olhou ao redor. Tocou árvores e abraçou as pessoas.
Virou-se em direção ao céu com olhos verde-sonho que faziam querer chorar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010


Aída gostava de luzes. Espalhou por toda a casa velas e luminárias, lâmpadas brancas e amarelas, quadros e enfeites iluminados.
Na sala, um grande aquário cheio de luzes fluorescia as células dos peixes.
Brilhavam.
Fernando tinha centenas de garrafas, organizadas em prateleiras de madeira escura. Divididas por cores, formatos e odores de antigos conteúdos.
Caminhava entre elas todas as noites. Diminuído em seus sonhos, diminuto como uma ficção.
Sonhava.
Pedro juntava pedaços de antigos carros em seu quintal. Ignorava as rodas. Davam sensação de fuga, e ele queria ficar. Queria que nada mais passasse. Nada mais se afastasse de seus olhos.
Passava pela pintura desgastada os dedos roídos e sentia o vento que ali passou. Fechava os olhos para devorar cada segundo dessa liberdade.
Stela via o mundo em verde. Através das janelas, a senhora do ônibus, o sol do parque, a flor caída, um cão bravio.
Verde. 
E nada fazia tanto sentido quanto verde. Como olhos. Canto do olho. Canto da boca carregando um meio sorriso sem fim.
Leo cultivava um infinito de mudanças a cada dia. O tamanho do prato. A forma do espelho. Os tipos de sons, sabores, lembranças, sentimentos. Todos bem embalados em papel grosso. Amarrados com cordas brancas e finas. A cada reencontro, silêncio. 
Recomeço. 
Uma sensação castanha de tempo voltando.
Não havia sentido em outros universos. Independente do nome que o carregasse. Nenhum que explicasse o vôo de um pássaro, os gritos de uma chuva que cai, a distância entre desejos que não se chocam.
Num dia sem sol, nasceu Ana. 
Gostava de unhas azuis e  sonhos inacabados.

domingo, 22 de agosto de 2010



Muito tempo atrás consegui enxergar através da fumaça de memórias que ardiam na fogueira das lembranças que partiam dele. Vi seus olhos insistindo em girar ao redor, gravando tudo que pudesse ser visto e sentido. Tudo que pudesse denunciar nosso tempo. Vi suas mãos ávidas por minha carne e por meu gosto. Os poros inundados de meu cheiro. Impregnado de mim. 
Saturado. 
Buscando espaço para desesperadamente devorar cada parte do que nunca cheguei a ser. 
Muito tempo atrás sonhei um sonho sem tempo. Deitada no chão senti quando ele chegou a porta. Olhava para o caminho de insetos entre o reboco. Cismando com cada pensamento trazido e levado por aquelas trilhas. Vez ou outra piscava, querendo encontrar os olhos, afogar de lágrima tudo o que estaria prestes a deixar fugir. 
Ele pensou meu nome. Me devoraria devagar. Mais uma vez. E mais uma vez, eu não me soltaria da força de sua respiração ou do trovejar de suas asas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010


A parede me olhava com olhos distantes que sentenciavam aos gritos a necessidade de escrever. Depois de um silêncio literário de meses, procurei em meus cadernos frases perdidas que, conectadas, criariam um monstro textual que precisaria ser alimentado, cresceria, devoraria pensamentos.
Encontrei uma nota em tinta vermelha. Cópia de um escrito da época do colégio.
Ela tinha cabelos castanhos muito lisos. Sardas pequeninas como uma constelação.
'como você consegue ler com todo esse barulho?'
Foi o que nos aproximou.
Era dois anos mais velha. Estava prestes a se formar e voltaria à cidade onde moravam os pais.
Voltou numa tarde de quarta-feira após um passeio pelo campus da universidade.
Ainda hoje sinto um frio na barriga ao sentir seu perfume encarnado na pele de alguma desconhecida que passa por mim. Passam sem me ver. Carregando cada milímetro de seus próprios sonhos. Alheias a meu desejo de abraça-las e sentir em cada pescoço um intenso cheiro de céu.

Numa frase breve, arranquei todo pedaço de história que pudesse ser desfiado.
'me conta de você.'
Esperei semanas. Torturado pelo imediatismo por vezes cruel criado pelos telefones e computadores.
Tirei do envelope uma foto que saiu pelo lado de trás. Por um tempo sem fim observei a nota que se repetia a meus olhos. A letra mantinha o mesmo desenho, o mesmo alinhamento perfeito. Triturava as nervuras do papel, marcando o branco como uma cicatriz recente.
Não imagino por quanto tempo ou por quantas vezes li aquilo, mergulhado em fragmentos de passados, presentes e sentidos antes de virar a fotografia.

me afogo com sede. bebendo da luz que passa lenta pela constelação de seus olhos.

domingo, 9 de maio de 2010



Ela despertou com a música latejando em sua cabeça. Um refrão grudento e desesperado que transmitia uma paixão tão intensa que beirava uma dor destruidora.
Foi ao computador e imprimiu a tradução da letra que leu enquanto a música era executada pela oitava vez seguida, no volume máximo do stéreo.
Suspirava profundamente a cada oitava alcançada pela cantora. Tomou banho e se aprontou para o trabalho ao som da canção. No metrô, lia e relia o papel em suas mãos. Vez ou outra olhava pela janela, tentando tomar pra si todo amor que passava veloz por entre as pessoas que iam e vinham por todos os lados. Respirava fundo para segurar o nó que se formava em sua garganta, vez ou outra secando uma lágrima que teimava em brotar.
Passou do ponto onde desceria, e decidiu seguir até o final da linha. Cantava.
Ela se levantou e sentiu que atraia cada olhar e sentido ali. Nunca, em cada segundo da vida da cada uma das pessoas ali presentes, havia sido sentido tamanho pulsar de amor.
O ar parou naquele instante. Os homens piscavam boquiabertos. As mulheres com os olhos deitados de lágrimas, lamentavam sem fim.
Ela abriu os braços e deixou cair a cabeça para trás num sorriso infinito.
Mil crianças nasceram. Milhares de idosos se tocaram, num adeus saturado de paixão.
Ela sorriu um sorriso sem fim e deu o primeiro passo em direção a eles.