terça-feira, 7 de junho de 2011


Ele se olhou no espelho e organizou com as mãos os cabelos que insistiam em acompanhar o descaso do vento.
Fechou os olhos e respirou fundo.
Abriu a torneira e limpou o rosto longamente, de cabeça baixa assistindo as gotas explodirem contra a porcelana azul da pia.
No espelho impecavelmente limpo, seus olhos refletiam vermelhos e cansados. Enjoados dessa visão que se repetia tanto. Dessa sensação imutável que se desenrolava a tanto tempo.
Sua mente varreu uma época em que caminhava entre as pessoas e podia perceber seus sentimentos, seus perfumes, seu ardor. Um tempo que passou tão lentamente quanto o tempo é capaz de passar.
Ela disse algo da cama. Disse para si mesma, contorcida em febre e insanidade. Os olhos vidrados fitavam a janela escura, que deixava entrar a noite silenciosa. Trazia consigo o frio do lago inerte que ficava a poucos metros de distância. Um frio que não era suficiente para acalmar a fúria que devorava sua carne.
Ele se sentou a beira da cama observando. Havia se trocado, e agora vestia uma camisa azul e calça preta. Os pés brancos e descalços se destacavam na penumbra do quarto.
Pediu que se acalmasse.
Que o perdoasse.
Então tocou a pele de suas costas arqueadas e sentiu os poros dilatados, os pêlos arrepiados berrando na ponta de seus dedos.
Quis dizer para si mesmo que dessa vez seria diferente. Podia ser diferente.
Mas sentia uma dor lascinante invadindo seu corpo. Ela estava quente. Ele tinha fome.
Mordeu brutalmente a artéria de sua coxa. Urrando como um animal preso, desesperado.
Ela não emitiu um som sequer.
Vergou seu corpo e se agarrou aos lençóis com tanta força que os nós de seus dedos deslocaram-se.
Quando terminou, ela estava parada olhando para seu rosto. Não havia medo nem surpresa. Era apenas a imagem triste da piedade.
Nem todas agiam assim.
Na última semana  era a terceira a ser levada para sua casa. A primeira a demonstrar a piedade que tantas vezes o fez chorar.

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