Ele era bruto como um torrão de pedra que escapa de uma encosta tostada pelo sol.
De poucas e lascinantes palavras. Era um bruto de ação, disso não havia quem duvidasse. A vida trafegava melhor desde que suas mãos de ferro tocaram a garganta flácida do governo. Não era querido, mas respeitado por tamanha competência e vontade ferrenha. Mas houve aquela manhã, onde com um abrir definitivo de olhos o bruto derramou o caos sobre a vida, em baldadas afogantes.
Sentou-se em sua cadeira de governante e mandou chamar rádio televisão internet telégrafo e fofoqueiros.
Falarei - Falou o bruto.
A sala apinhada de gente borbulhava de excitação. Falaria o bruto. Caso raro. Muito raro.
Ele já estava sentado ali, a frente de todos com os olhos baixos, perdido nas linhas secas de Graciliano. Um acessor se aproximou informando que todos os veículos estavam ali. Era hora hde falar.
Tudo bem - ele respondeu fechando lentamente aquelas páginas secas e olhou para frente. Um oceano de olhos lacrimosos e ansiosos por qualquer falha. As falhas vendem mais do que os acertos, sabia ele.
Bom dia - falou olhando para cada rosto ali.
A voz era sempre baixa, calma, decidida.
Olhou para baixo, para o local onde seu paletó creme se misturava a sua camisa branca sem gravata.
Nunca usara uma gravata, exceto quando jovem ao ser obrigado pelo pai, sob ameaças de não participar do maior evento da cidade. Mas, ao conseguir passar pelos portões afrouxou o nó. Cinco minutos depois ela estava dobrada e guardada no bolso esquerdo da calça.
Tenho uma informação para que divulguem. A partir de hoje qualquer tipo de maquiagem está terminantemente proibida. Cirurgias plásticas estéticas estão proibidas.
Como assim? - bradou a repórter enfeitada da terceira fila - voce tem algo contra mulheres ficarem bonitas?
Mulheres não ficam bonitas. Elas são ou não são. É uma simples questão de aceitação. - o bruto olhava com descaso ao redor. Parou os olhos sobre um magro jovem ansioso.
Pergunte, jovem. - falou.
O jovem se levantou. Quis saber da indústria cosmética e seus cifronários prejuízos. Foi informado de que naquele momento todas recebiam informações e verba para que mudassem sua linha de produção. Todos deveriam produzir medicamentos, vacina, alimento, educação.
Absurdo! Berravam alguns. Gargalhadas despejavam outros.
Enlouquecera o bruto - Teimava em afirmar a sociedade.
Teimavam mesmo sabendo que fora um ato de extrema sabedoria.
Saúde e educação no lugar de pós e tinturas? Seria perfeito se não fosse algo do que se discordar.
O povo foi para a avenida. Ficou pelado em protesto. Queimou onibus. Chutou cachorros. Mulheres se tingiram de carvão. Homens passaram a concordar que carvão é belo. As mulheres emburraram. Queriam blush.
É humana a necessidade de se ter a quem reclamar as frustrações.
Muitos viam outros muitos reclamando. Entravam na causa apenas pela oportunidade de ter contra quem guerrear.
O bruto decidiu não mais se pentear. Acordava pior do que havia dormido na noite anterior.
Transformou-se em alvo de atentados. Os jornais faziam charges descabeladas de sua pessoa.
Ele não se importava. Ao décimo quarto mês do plano estavam começando a se encher os estoques de vacinas. O alimento nas prateleiras era vendido a preço de banana. Outros países eram ajudados, pois havia abundancia.
Universidades gratuitas começavam a receber os alunos.
A Era da Verdade. Foi o tema de vestibulares por todo o país.
Existe verdade mais cortante do que um rosto de verdade? Perguntou certa mocinha num videolog. Virou hit.
Conte para seu filho - disse o bruto para seu acessor - que o mundo é um lugar mais honesto sendo monocromático.
Mas o mundo não tem só uma cor, senhor.
Sim. Tem. Apenas a cor única de nossa pele.
Na manhã seguinte o bruto foi encontrado em sua cama.
Sua carta de despedida encerrava o plano, e dizia a próprio punho;
'enfeitem-se. Quando a fome voltar à sua porta, ou a porta de seu amigo, saberás que abrir mão de ilusões para trabalhar por uma realidade é duro, mas nos torna um povo maior.'
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
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