Ela fechou os olhos e respirou fundo.
Levantou os braços e imaginou cada curva.
As pernas arqueadas girando pesadas.
Todo o corpo enrijecido num só movimento.
Imaginou o público olhando para o alto, absorvendo todo aquele momento.
Os sorrisos.
Os gritos silenciosos que num coro gritavam mil vozes.
As mãos em sua direção como regentes de seu ato.
Deu mais um passo e baixou os braços.
Abriu os olhos, e seus dedos brancos e úmidos indicavam o caminho.
Pouco a pouco o som do público invadia sua mente como uma corrente que crescia gradativamente.
Ocupava o tempo e o ar.
Misturava-se ao cheiro multicolor que lhe chegava.
Respirou fundo.
O som aumentava.
Levantou novamente os braços e flexionou as pernas.
Saltou.
Girou.
Lembrou de si mesma enquanto criança numa cadeira de balanço, sentindo o vento e o sol em seu rosto.
Atrás de si, seu irmão empurrava forte para que voasse cada vez mais alto.
Caía.
Lembrou de si mesma beijando pela primeira vez. Mil frios na barriga. O medo de não saber como agir.
A angústia de esperar pela próxima vez. Do gosto do beijo e o perfume roubado da outra pele, e que ficara aprisionado em suas mãos.
Tocou a água.
Era agora uma imagem de si mesma de frente para o espelho.
Chorando. Desfazendo um curativo que não deixava vestígio do que não podia mais ser visto.
Chegou ao fundo, e com um impulso ligeiro se entregou novamente ao ar.
O som voltou, preenchendo de cores, som e luzes cada molécula ao redor.
Sorriu um meio sorriso molhado e passou a mão pelo rosto.
Tudo era branco e verde, cinza e vermelho.
Sorriu um sorriso por completo.
Aquilo era bom o bastante.
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