Acordou agarrada a um desejo incontrolável de sentir a areia da praia se movendo sob
seus pés enquanto assistia o sol inundar timidamente o canto do quarto, criando um
prisma ao se debater contra o meio copo de água sobre o móvel ao lado da cama.
Desligou o telefone celular e separou um conjunto de roupas.
Ligou o computador e comprou as passagens, ignorando a caixa
de e-mail que insistia em saltar avisando a urgência de mil trabalhos.
Era por volta das onze da manhã quando desembarcou recebida
por um calor maciço que fez seu corpo se arrepiar de prazer.
Apertou de leve a alça da maleta e caminhou em direção ao
taxi.
O motorista era um senhor alto, de voz aveludada e pelos
embranquecidos pelo tempo.
Perguntou do destino e de onde veio.
Contou dos anos ao lado da mulher e do filho inquieto.
Da noite anterior pelas ruas da cidade.
Do momento em que saiu da cama.
Ela observava e absorvia tudo.
O cheiro do couro dos bancos, do ar soprado através das
janelas, da água de colônia impregnada de calor vinda do homem, o movimento
brusco das pessoas, prédios, arvores, cães, coisas deixadas para trás enquanto
o carro amarelo seguia veloz pela avenida.
Pagou agradecendo e sorrindo.
Olhou para a entrada do hotel e para os dois lados da rua.
Alguns bares, restaurantes, vozes e o mar ao longe murmurando
cansado.
Se olhou no grande espelho do quarto.
Os cabelos tinham mania de se espalhar por sobre os ombros,
criando a sensação de uma adolescente querendo parecer mais velha.
Desatou o primeiro nó da camisa.
Começou a tirar a roupa leve que havia escolhido.
Fazia cada movimento se observando.
Gravando cada centímetro de sua pele.
Gravando cada centímetro de sua pele.
Decorando cada sensação.
Encarando o próprio rosto até que estivesse nua diante de
si mesma.
Fechou os olhos.
Escolheu o que vestir.
Com qual perfume se embebedar.
Qual sorriso sorrir.
Voltou para a rua, e em seu peito pulsava o desejo
incontrolável de um querer animal.
Uma vontade intensa. Pura. Tangível, de devorar a si mesma.
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