sexta-feira, 13 de abril de 2007




_opa.
_oi, bem.
_hum.
_dona Creuza veio aqui hoje. tava com cara boa nao. ficou o tempo todo falando do cachorro de dona Ana. latiu a noite inteirinha. acredita? e a dona nem se deu ao trabalho de xingar o bicho. e olha que o cachorro é daqueles grandões, da bocona, sabe?
_hum.
_acredita que quando amanheceu, dona Creuza passou na porta e tava lá a mulher brincando com o monstrengo, como se ele tivesse passado a noite inteira fazendo boas ações. bicho safado. eu é que não tenho coragem nem de chegar perto. aquela bocona danada.
_...
_o homi daquela pampa velha passou por aqui hoje. disse que nem quer saber de nada. é pra voce esperar na porta sabado cedinho pra sairem juntos pro trabalho. homi bão ele. cuida bem da esposa.
fiquei pensando na sua marmita. to achando meio sem vitamina, sabe? vou colocar umas folhas pra voce. gosta, né?
_hum.
_uns minino gritaram coisa feia pro doidinho que fica pra cima e pra baixo nos ônibus. ficou brabo demais!! jogou um monte de pedra e quase que acerta dona Creide. os motorista tomaram partido do doidinho e quase chamaram as autoridades.
um monte de fi sem mãe!
_hum.

sexta-feira, 30 de março de 2007


O barulho do vento fazia os velhos olhos buscarem por uma segurança tão distante quanto o tempo em que podia se proteger do mundo.
Hoje segue tateando cada centímetro a sua volta, em busca de caminhos. Buscando em cada um dos sentidos remanescentes tentar encontrar qualquer passagem pela parede negra da noite, qualquer passagem que o leve ao calor de sua cama que grita por seu nome, como uma sereia ardente à beira de um abismo.
O relampejar ilumina o tudo a sua volta. Era preferível que o raio não existisse. Não agora. O que era aquilo parado na porta? Havia algo parado ali? Alguém?
A fúria do trovejar invade todo seu corpo, denunciando a proximidade do raio que rasgou os céus poucos segundos atrás e deixou um frio doloroso em sua coluna retorcida pelos anos.
Outro raio. Mais forte, azulado.
Seus olhos buscam a porta.
Nada.
Fechada e negra como a noite que o cerca.
O trovão veio mais demorado dessa vez, fazendo vibrar os talheres sobre a mesa, janelas, cortinas e suas roupas que em vão o protegiam do frio.
Apesar dos vidros e portas cerrados, um vento deslizou sobre suas costas, suave como um sopro, com a sutileza de uma serpente. Em toda sua vida, o desejo de se virar e olhar pra trás nunca foi tão forte, provocando uma pressão dolorosa sobre seus ombros. Mas o medo imperava de forma tenaz, um misto de razão e instinto. O mesmo instinto que fez seus pulmões pararem ao sentir novamente o respirar tocar sua pele.

segunda-feira, 19 de março de 2007


Vi um ponto brilhante ao longe. O vibrar inconstante do vôo fazia-o balançar em todas as direções, como se fosse o farol de uma motocicleta veloz vindo na contra-mão, traçando um caminho a seguir em meio ao nada que me cercava. A escuridão era tão sufocante quanto fria, silenciosa e infinda.
Pedi mais do motor solitário que gemia e urrava forte contra o vento. Com um solavanco brusco, as hélices tornaram-se ainda mais terríveis e impiedosas, dilacerando nuvens e monstros imaginários, que surgiam loucos a minha frente.
O velho caçador estava em seu limite. Como um falcão lançado sobre sua presa, devorava os quilômetros na direção da luz que não se aproximava, ignorando os gemidos e vibrações da fuselagem. Os ponteiros do combustível pendiam, fazendo sangrar a esperança, enquanto dores lancinantes explodiam minha cabeça como martelos de guerra.
Um instinto de sobrevivência me fazia acelerar, os nós de meus dedos já brancos e anestesiados de tanta força começavam a formigar enquanto tudo o que eu queria era chegar ao calor da luz que me chamava ao longe.

- quem é?
- posso entrar?
- me fala o que quer.
- preciso te ver.
- acho que não vai dar.
- porque não?
- melhor não.
- por-que-não?
- por favor, não insista...
- porra! eu só quero te ver!
- ...
- onde você está?
- ...
- ei! puta que pariu...
- sua estupidez é seu cartão de visitas.
- desculpa. desculpa. é que estou pirando... preciso te tocar...
- por favor, vá embora.
- me dá um bom motivo.
- ...
- fala!
- ...
- mas que merda! não dá pra nao ser estúpida com você!
- eu não estou sozinha aqui.

domingo, 18 de março de 2007



No reino dos dias lentos, as árvores eram grandes. Poderosas como guerreiros. Silenciosas como lagos.
O vento uivava ao se chocar contra as pedras e montanhas, levando consigo a poeira dos homens, os lamentos das mulheres e o crepitar das chamas.
Do outro lado do rio, a noite vinha observar o que o dia deixava pra trás. Ver as casas em chamas, os vivos a correr, os mortos a lamentar.
_Vem, guerreiro que habita as distâncias. Vem com sua armadura e sua coragem. Sua espada e seu espírito. Devora nosso medo com teu olhar, leva daqui essa fera e seu terror.

O guerreiro olhou para o céu mas nada encontrou. Olhou para as montanhas e viu o tempo se arrastar como uma serpente cruel que tem olhos para todas as direções. Impiedosa,

Um grito ao longe despertou aqueles que jaziam à mercê de seus sonhos sem imagens. Trôpegos levantavam seus olhos em busca de uma resposta, enquanto seu peito explodia de terror, criando imagens de pesadelos há muito guardados e cultivados pela vida.

O dragão mostrou-se no horizonte. Muitos jurariam a verdade do sorriso em sua boca. O sorriso sinistro em seus olhos hipnóticos e frios. Ele vinha a caminho da carne, dos ossos e da dor.

_Vem. Traga sua carga de medo e desgraças.