quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

hoje acordei pensando em estrelas.
o que tem as estrelas?
tem memória. elas vêem. sabem tanto que não se cabem e caem.
pra onde vão? caem na terra?
não sei. só vi que caem. já viu alguma caindo?
vi. caem tão rápido que dão a sensação de estarem gritando pelo negror do céu.
eu acho que alguém mora nelas. e fica lá, vendo a chuva que cai cinzenta, o sol secando todas as coisas.
ja me falaram que cada estrela é a alma de uma pessoa que tá aqui na terra.
sei não. é pouca estrela pra tanta gente.
eu acho que ainda tem um monte pra lá. onde nem dá pra ver.
quer mais vinho?
quero.
me fala mais das estrelas.
eu queria poder marcar uma e te falar que é um presente meu.
eu aceito todas.
é muito egoísmo, né? tem mais um monte de gente que quer ter uma estrela.
mas ninguém vai saber que são minhas. imagina que estão só achando que tem.
sei nao...
vai me dar?
sabe aquela grandona ali, perto da lua?
sei.
ela está no céu todos as noites. sempre no mesmo lugar, tendo lua ou não. eu te dou aquela.
e se um dia ela também cair?
vai ser um bom motivo pra gente sentar de novo e conversar sobre aquilo que não entendemos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Um

Se ajoelhou entre as folhas que, ainda mortas, estalavam sob o peso de sua dor.
Se houvesse espaço na imensidão a sua volta, tentaria correr. Mas estava cercado por lembranças que lamentavam medonhas, como presenças que, sem rumo, procuravam ficar perto de um corpo a pulsar.
Do céu vingador não veio anjo nem chuva.
Só um cinza esmagador que se movia, dando passagem ao vento frio de dedos estranhos e impiedosos a vasculhar.
Remexer a dor lasciva que berrava surda por dentro. Gritava tanto que o peito se rasgava num choro sem som.
Um gemido e memórias fugiam dali a caminho do cinza céu.
Não havia espaço.
Ficava tudo ali, amargando os olhos negros sem fim. Sem espaço. Não havia ponto de fuga.
Tentou dizer pra si que o sono leva o rasgar da dor. Tentou com força, a ponto de arder o sangue nas veias.
Doeu muito fundo pensar em não mais sofrer por amor.
Chorou devagar, como quem espera que o corpo seque e consiga descansar nos braços da piedade.

Deitou.

Mas não havia espaço.



"Malvadeza 
Judiar assim 
Tenha dó do meu coração 
Que desatinou, roeu, que deu pena 
Amargou essa solidão 
Desabou a chorar por ti, o Serena 
Pronto pro teu perdão."

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011



amanhã, quando acordarmos, você ainda estará usando os olhos lindos que trouxe hoje para me ver chegar?
vai me abraçar como se dissesse que hoje é o melhor dia para se viver?
vivo sonhando com seu beijo. quero tocar lento sua boca, e te ouvir falar bobagens sem sentido, do tipo que me farão rir durante dias.
quero saber se amanhã, quando acordarmos, eu posso te levar comigo.
te acompanhar correndo louca entre os carros enquanto sorri olhando para trás.
levando consigo a certeza de que nunca vou te deixar correr sem destino.
amanhã, quando o sol nascer, vou segurar a sua mão e te apresentar ao mundo, deixando entrar pelas janelas todas as histórias que o vento possa contar.
para cada uma delas, vamos escolher um sonho que possamos plantar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011


a cortina pesada filtrava as luzes que berravam la fora, chamando para a noite.
uma de suas mãos percorriam de leve a cintura.
a outra, ia e vinha pela linha da coluna. emaranhando os cabelos.
transferindo pensamentos.
de olhos fechados, girando devagar, percebiam os móveis no cômodo.
mesa baixa, sofá.
janela.
luzes berrando.
pensou em como podia ser possível um segundo conter tantas lembranças.
ou mesmo gravar tantas memórias.
como uma nota tocada pode conter dor. paz. fúria. paixão.
vivam em segundos. e, cada um deles, carregado de lembranças, memórias, acordes.
as luzes berravam.
foram até a porta.
ébrios do vinho. do escuro. do toque.
de mãos dadas, em silêncio desceram os degraus e iluminaram seus olhos com o mundo veloz que, guiado pela noite, chamava.
seguiram até uma esquina movimentada.
ela sorriu.
vestida como se fosse dormir, fez uma reverência.
ali, entre o mundo, a noite, as luzes que berram, os acordes em fúria e as almas ébrias, dançaram.
se olharam pela milésima terceira vez.
sorriram.
ele sorriu.
então suas mãos voltaram a lhe transferir pensamentos.