quinta-feira, 24 de maio de 2012

74

Ela despertou com as mãos trêmulas, sentindo o coração bater tão forte que latejava a cabeça. Ficou ali um tempo deitada entre seus três travasseiros preferidos, com os quais se cercava todas as noites.
Sorriu olhando para o nada.
Ela estava novamente sentada no banco enquanto aguardava sua senha ser chamada para atendimento.
O número 74 surgiu no letreiro digital e ela se encaminhou para o guichê 12. O atendente pegou sua senha e sem delongas prosseguiu com todo o procedimento.
Por um tempo inacreditável o toque dos dedos no momento da entrega da senha permanecia em suas mãos, subindo por seus braços e ombro. A cada piscar de olhos invadia mais e mais cada centímetro de pele. Arrepiando o corpo, pressionando suas costelas, como uma presença invisível controlada por sua vontade. Doeram-lhe os seios e a nuca, enquanto a sensação continuava a dominar seu corpo.
Ouviu seu nome ser chamado.
Repetido.
Era o atendente perguntando sobre um endereço para entrega.
O odiou por um segundo.
Amou desesperadamente cada uma das palavras que informavam algo que nem mesmo importava mais.
Quis toca-lo novamente, mas ouviu um agradecimento de despedida que não deixava margem para qualquer tentativa.
'Não'.
Levantou-se e caminhou com dificuldade até a porta.
Não conseguiu atravessar a rua. Parou ali bem na entrada, atrapalhando o tráfego daqueles que iam e vinham. Um segurança se aproximou. Uma moça perguntou se estava tudo bem.
Ela apenas olhava para dentro. No guichê 12 trabalhavam alheias a seu ardor as mãos que lhe fizeram voar.
O atendente percebeu a movimentação e se levantou para olhar.
Era a moça que havia atendido.
Ela o viu se aproximar vestido de preto e azul. Carregando suas mãos em sua direção. Levando para perto aqueles olhos que da indiferença anterior mostravam agora outra faceta de uma alma.
'O que houve'? Ele perguntou.
Ela não sabia se poderia responder. Sua boca estava seca e tremia. Suas pernas sustentavam pequenos espasmos que subiam cada vez mais fortes intercalados por uma respiração profunda. Deu um passo a frente e deixou sua bolsa no chão.
Tocou o braço do atendente e fechou os olhos.
Naquele momento o mundo era um sol com mil fagulhas. Ofuscante. Ensurdecedor. Inacreditável.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Café


Quando ela surgiu, eu havia acabado de pedir dois cafés.
Um cremoso, com um toque de chocolate meio amargo.
O meu, puro. Muito forte.
Me olhou com surpresa, dando a certeza de uma palavra perdida entre os lábios. Uma palavra travada pelo anseio de contar cada célula de seus sonhos.
Voltei para a mesa com aquela visão impregnada em meus olhos até que olhei para aquela que me esperava.
Não havia mais coração em meu peito, nem alma aprisionada em minha carne.
Tudo voava ao redor, me olhando do alto, querendo se partir em tres pedaços.
Queria voltar ao balcão e olhar de perto aqueles olhos que me perseguiam em mil sonhos. Beijar seu sorriso vermelho de olhos fechados.
Ao longe ela nos olhava sem ver, com a mesma intensidade que eu ali vivia sem insistir.
Perdido num dia nublado em que corria sem fim ao encontro de portas que sempre se fechavam, desejei mudar o tempo.
Pedir perdão e me levantar.
Deixar para tras passado e presente.
Desafiar o medo que estrangulava com dedos de pedra.
E se aquele beijo vermelho não me trouxesse a paz que eu esperava?
Por outro lado, e se aquele olhar de lago fosse a coisa mais próxima do paraíso onde alguma vez me encontraria?
Olhei novamente em sua direção. Em seu lugar, um homem pedia um expresso enquanto contava moedas na palma das mãos.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Poesia

Ele havia acordado inúmeras vezes durante a madrugada. Assaltado por uma ansiedade devoradora, despertava sobressaltado a olhar para a janela negra de tanta noite.
As cinco da manhã já se encontrava de olhos muito abertos, acompanhando os vincos do teto que mudavam de posição conforme a luz escorria para dentro do quarto, brotada do amanhecer lento.
Na tarde anterior, uma amiga de longa data sugeriu entre sorrisos: voce deveria vender poesia aos necessitados de coração.
Sentou-se numa praça do centro da cidade sob a sombra de um antigo flamboyant portando papéis perfumados com aromas de erva-doce e canela, duas canetas de escrita fina, com corpo acabado em madeira escura apoiados numa mesa desmontável outrora usada para apoiar livros e refrescos na varanda de casa.
Em seu peito, um crachá pendurado por uma corda branca que sustentava o dizer POESIA.
Está vendendo poemas? Perguntou a primeira moça.
Faz tempo está amando? Sorriu o velho.
Faz tempo. Escreve algo pra mim?
Pra você ou para aquele que voce ama?
Para os dois.

E ele escreveu. Sobre mãos que se tocam. Olhares que se procuram. Peles que se atraem.
O preço era o valor da poesia. Somente quem a tivesse na alma naquele momento poderia definir.
Ela pagou. Sorriu. E se foi sem dizer palavra.
Outros pararam para ver.
Alguns se aproximaram.
Alguns pediram conselhos.
Não haviam conselhos. Apenas poesia.
Quero uma poesia para alguém que nunca mais vi.
Se nunca mais viu, pretende entregar?
Não.Vou guardar pra mim e ler sempre que me doer a saudade.

E ele escreveu. Sobre mistérios que dedicavam aos sonhos, sobre tantas léguas que levam e nunca mais trazem de volta. Sobre o céu que vê, o sol que seca, a memória que sussurra lembranças dos tempos que dois eram o respirar de um.
Os papéis se acabaram.
Tem uma papelaria logo ali. Alguem falou.
A poesia tem o momento certo para acabar. Sorriu o poeta para as pessoas.
Colocou no bolso da frente as canetas de ponta fina com acabamento em madeira escura e dobrou a mesa dobrável.
Despediu-se com um aceno da mão enrugada e caminhou de volta para casa com o coração em pedaços.