Ele havia acordado inúmeras vezes durante a madrugada. Assaltado por uma ansiedade devoradora, despertava sobressaltado a olhar para a janela negra de tanta noite.
As cinco da manhã já se encontrava de olhos muito abertos, acompanhando os vincos do teto que mudavam de posição conforme a luz escorria para dentro do quarto, brotada do amanhecer lento.
Na tarde anterior, uma amiga de longa data sugeriu entre sorrisos: voce deveria vender poesia aos necessitados de coração.
Sentou-se numa praça do centro da cidade sob a sombra de um antigo flamboyant portando papéis perfumados com aromas de erva-doce e canela, duas canetas de escrita fina, com corpo acabado em madeira escura apoiados numa mesa desmontável outrora usada para apoiar livros e refrescos na varanda de casa.
Em seu peito, um crachá pendurado por uma corda branca que sustentava o dizer POESIA.
Está vendendo poemas? Perguntou a primeira moça.
Faz tempo está amando? Sorriu o velho.
Faz tempo. Escreve algo pra mim?
Pra você ou para aquele que voce ama?
Para os dois.
E ele escreveu. Sobre mãos que se tocam. Olhares que se procuram. Peles que se atraem.
O preço era o valor da poesia. Somente quem a tivesse na alma naquele momento poderia definir.
Ela pagou. Sorriu. E se foi sem dizer palavra.
Outros pararam para ver.
Alguns se aproximaram.
Alguns pediram conselhos.
Não haviam conselhos. Apenas poesia.
Quero uma poesia para alguém que nunca mais vi.
Se nunca mais viu, pretende entregar?
Não.Vou guardar pra mim e ler sempre que me doer a saudade.
E ele escreveu. Sobre mistérios que dedicavam aos sonhos, sobre tantas léguas que levam e nunca mais trazem de volta. Sobre o céu que vê, o sol que seca, a memória que sussurra lembranças dos tempos que dois eram o respirar de um.
Os papéis se acabaram.
Tem uma papelaria logo ali. Alguem falou.
A poesia tem o momento certo para acabar. Sorriu o poeta para as pessoas.
Colocou no bolso da frente as canetas de ponta fina com acabamento em madeira escura e dobrou a mesa dobrável.
Despediu-se com um aceno da mão enrugada e caminhou de volta para casa com o coração em pedaços.
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