terça-feira, 22 de maio de 2012

Café


Quando ela surgiu, eu havia acabado de pedir dois cafés.
Um cremoso, com um toque de chocolate meio amargo.
O meu, puro. Muito forte.
Me olhou com surpresa, dando a certeza de uma palavra perdida entre os lábios. Uma palavra travada pelo anseio de contar cada célula de seus sonhos.
Voltei para a mesa com aquela visão impregnada em meus olhos até que olhei para aquela que me esperava.
Não havia mais coração em meu peito, nem alma aprisionada em minha carne.
Tudo voava ao redor, me olhando do alto, querendo se partir em tres pedaços.
Queria voltar ao balcão e olhar de perto aqueles olhos que me perseguiam em mil sonhos. Beijar seu sorriso vermelho de olhos fechados.
Ao longe ela nos olhava sem ver, com a mesma intensidade que eu ali vivia sem insistir.
Perdido num dia nublado em que corria sem fim ao encontro de portas que sempre se fechavam, desejei mudar o tempo.
Pedir perdão e me levantar.
Deixar para tras passado e presente.
Desafiar o medo que estrangulava com dedos de pedra.
E se aquele beijo vermelho não me trouxesse a paz que eu esperava?
Por outro lado, e se aquele olhar de lago fosse a coisa mais próxima do paraíso onde alguma vez me encontraria?
Olhei novamente em sua direção. Em seu lugar, um homem pedia um expresso enquanto contava moedas na palma das mãos.

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