quarta-feira, 18 de julho de 2012
Haviamos cavalgado durante horas sem parar. Os cavalos suados transformavam o ar gelado ao nosso redor em pequenas nuvens de vapor. A todo momento algum olhar desesperado buscava nossos perseguidores. O medo estava cavalgando a nosso lado, gargalhando de nosso silêncio cúmplice.
Se agarrando a nossa carne como um animal possuído e faminto.
Eles continuavam a vir. Sem descanso. Sem pausa. Era como se nosso desespero deixasse uma trilha brilhante que podia ser seguida através da mais impenetrável das noites.
Sons estranhos escapavam das arvores ao redor. Lamúrios dolorosos. Passos. Animais que fugiam correndo e voando. Toquei instintivamente a arma em minha cintura. Havia feito isso mil vezes nas ultimas horas.
Duas balas. Repeti mais de mil vezes.
Duas balas.
Éramos três.
Um que sangrava aos jatos de um talho nas costelas. Era um espectro a beira da escuridão montado num cavalo de olhos muito abertos, que lutava para se manter em pé. Fugindo. Exigindo o impossível de seus músculos e ossos.
Outro era um homem vigoroso e duro. Carregava consigo um facão enorme e um rifle sem munição que parecia funcionar como um amuleto ao qual se agarrar em busca de conforto.
Perdera o olho direito cerca de sete horas atrás, e de seus gritos restou apenas o vazio de uma órbita.
Eu queria parar. Precisava descansar. Não sentia mais minhas pernas, e meus dedos da mão esquerda estavam negros e queimavam. Mas eles continuavam a vir. Implacavelmente. Cruéis como um pesadelo.
Duas balas.
Descendo um caminho de cascalho meio congelado o espectro caiu de sua montaria fazendo cair também o outro homem.
Os cavalos não se levantaram.
Haviam desistido de lutar, olhando para o nada enquanto esperavam que tudo se apagasse.
Parei cerca de cinco metros a frente desejando com toda força da alma seguir em frente até que também meu cavalo caísse. Até que não houvesse mais força em meu corpo e me entregasse a escuridão que vinha veloz.
Fechei os olhos com força e desmontei me amaldiçoando.
Meu cavalo tremia e continuava envolto em sua nuvem. O soltei para que seguisse caminho, mas ele continuou ali com os olhos vidrados. Toquei seu focinho. Agradeci em silêncio e dei meia volta.
O primeiro homem estava quase morto. Vapores saíam descontrolados e descompassados de sua boca. Seu pulmão parecia ser a única coisa de seu corpo devastado que lutava para manter-se funcionando.
O segundo sangrava pela boca e nariz, segurando o cabo do facão desembainhado.
Olhei nos olhos e parei a seu lado. Pensei em levar a cintura minha mão em busca de minha arma, mas ela ja estava ali.
Duas balas.
Repeti em meio a uma névoa de vapor.
Duas balas.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Sonhei que havia morrido.
O mundo, ou o que restou dele para mim era visto como pelas lentes de uma fisheye.
Parte desfocado por todos os cantos, parte estourado de luz ou pela falta dela.
Muitas vozes.
Alguma música.
Eu havia morrido. E carros passavam despejando seus sons pela janela.
Lembrei - no sonho - que já havia sonhado com isso antes, mas não dessa forma.
Me percebia numa espécie de escritório.
Havia uma moça numa mesa.
Um senhor ao telefone próximo a uma porta.
Papéis.
Desconhecidos.
Indiferentes.
Mecânicos.
Vazando por um estreito campo de visão, meu mundo era um borrão desesperador de inércia.
Em qual HD ele está? Ouvi alguém perguntar.
Voz de mulher. Aparentemente jovem.
Sentou-se bem na minha frente, colocou fones de ouvidos, mão no queixo, cotovelo na mesa e olhos numa tela.
Eu corria num terreno gramado. Tentava pegar alguns patos aos tropeços. Caí. Olhei para trás e sorri de volta para meu pai que me encorajava a levantar.
Lutava para tirar sons de uma flauta. Meus amigos de infância debochavam dos sons que poluíam a roda de conversa.
Chegava em minha rua exibindo um LP da Legião Urbana. O primeiro contato que tivemos com o rock. E que salvou nossas almas adolescentes.
Sofria absurdamente por garotas inalcançáveis.
Aprendia música.
Conhecia e ancorava novos amigos.
Aprendia inverdades.
Roubava poesia para impressionar as meninas bonitas.
Bebia pela rua voltando da escola.
Abraçava meu cachorro fiel.
Pescava com meu pai.
Trabalhava.
Crescia.
Errava.
Perdia.
Sonhava.
Escolhia caminhos certos e errados.
Voltava.
Partia.
Ensinava.
Comemorava.
Numa maternidade, colocava um fone no ouvido de meu filho tocando Milton para que a primeira música de sua vida fosse algo feito com alma.
Sofria.
Voltava a caminhar.
De repente, escuridão.
Talvez fosse o sonho dando lugar a uma noite que me dizia estar vivo.
Em qual HD eu estava?
O mundo, ou o que restou dele para mim era visto como pelas lentes de uma fisheye.
Parte desfocado por todos os cantos, parte estourado de luz ou pela falta dela.
Muitas vozes.
Alguma música.
Eu havia morrido. E carros passavam despejando seus sons pela janela.
Lembrei - no sonho - que já havia sonhado com isso antes, mas não dessa forma.
Me percebia numa espécie de escritório.
Havia uma moça numa mesa.
Um senhor ao telefone próximo a uma porta.
Papéis.
Desconhecidos.
Indiferentes.
Mecânicos.
Vazando por um estreito campo de visão, meu mundo era um borrão desesperador de inércia.
Em qual HD ele está? Ouvi alguém perguntar.
Voz de mulher. Aparentemente jovem.
Sentou-se bem na minha frente, colocou fones de ouvidos, mão no queixo, cotovelo na mesa e olhos numa tela.
Eu corria num terreno gramado. Tentava pegar alguns patos aos tropeços. Caí. Olhei para trás e sorri de volta para meu pai que me encorajava a levantar.
Lutava para tirar sons de uma flauta. Meus amigos de infância debochavam dos sons que poluíam a roda de conversa.
Chegava em minha rua exibindo um LP da Legião Urbana. O primeiro contato que tivemos com o rock. E que salvou nossas almas adolescentes.
Sofria absurdamente por garotas inalcançáveis.
Aprendia música.
Conhecia e ancorava novos amigos.
Aprendia inverdades.
Roubava poesia para impressionar as meninas bonitas.
Bebia pela rua voltando da escola.
Abraçava meu cachorro fiel.
Pescava com meu pai.
Trabalhava.
Crescia.
Errava.
Perdia.
Sonhava.
Escolhia caminhos certos e errados.
Voltava.
Partia.
Ensinava.
Comemorava.
Numa maternidade, colocava um fone no ouvido de meu filho tocando Milton para que a primeira música de sua vida fosse algo feito com alma.
Sofria.
Voltava a caminhar.
De repente, escuridão.
Talvez fosse o sonho dando lugar a uma noite que me dizia estar vivo.
Em qual HD eu estava?
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Gota a gota, a chuva formava uma harmonia inconstante, trespassada pelos pneus dos carros que cortavam a rua escura.
Sentada em silêncio ela esperava. Juntando em pedaços o tempo que passava.
Amarrando o enredo de um caos particular, onde dançava de braços abertos.
Olhando para o céu que girava mil estrelas sem fim.
Que fazia sorrir por estar tão perto de fugir aos olhos, esperando e desejando o toque.
O impacto incontrolado de um perfume desconhecido, carregado de fragrâncias que a fariam divagar em segundos toda liberdade que os sonhos permitiam.
Voaria.
E do alto veria seus olhos a espera de um ponto de fuga.
Um instável movimento do mundo que faria toda órbita na qual navegava mudar de direção.
Voaria em círculos.
Gritando para que as ondas se acalmassem. Que o tremor passasse e sua presença fosse o bastante para acalmar o peito em pedaços.
Pedaços que se desfizeram em gotas ao vê-lo chegar.
Escorreram por seu corpo ao encontro da chuva e preencheram tudo ao redor, como se fosse a própria noite feita de seus mais desesperados desejos.
Ele sorriu com os olhos.
Vinha devagar, como se devorasse com a alma cada parte daquele momento.
Crescia. Trazendo consigo tudo que seria capaz para fazê-la desprender-se desse mundo e fazer com que seus corpos fossem apenas um.
Não havia vazio para onde escapar do momento.
Tudo ao redor era noite.
Negra entre milhões de estrelas.
Palpável.
Visceral.
Assinar:
Comentários (Atom)
