quarta-feira, 4 de julho de 2012

Sonhei que havia morrido.
O mundo, ou o que restou dele para mim era visto como pelas lentes de uma fisheye.
Parte desfocado por todos os cantos, parte estourado de luz ou pela falta dela.
Muitas vozes.
Alguma música.
Eu havia morrido. E carros passavam despejando seus sons pela janela.
Lembrei - no sonho - que já havia sonhado com isso antes, mas não dessa forma.
Me percebia numa espécie de escritório.
Havia uma moça numa mesa.
Um senhor ao telefone próximo a uma porta.
Papéis.
Desconhecidos.
Indiferentes.
Mecânicos.
Vazando por um estreito campo de visão, meu mundo era um borrão desesperador de inércia.
Em qual HD ele está? Ouvi alguém perguntar.
Voz de mulher. Aparentemente jovem.
Sentou-se bem na minha frente, colocou fones de ouvidos, mão no queixo, cotovelo na mesa e olhos numa tela.
Eu corria num terreno gramado. Tentava pegar alguns patos aos tropeços. Caí. Olhei para trás e sorri de volta para meu pai que me encorajava a levantar.
Lutava para tirar sons de uma flauta. Meus amigos de infância debochavam dos sons que poluíam a roda de conversa.
Chegava em minha rua exibindo um LP da Legião Urbana. O primeiro contato que tivemos com o rock. E que salvou nossas almas adolescentes.
Sofria absurdamente por garotas inalcançáveis.
Aprendia música.
Conhecia e ancorava novos amigos.
Aprendia inverdades.
Roubava poesia para impressionar as meninas bonitas.
Bebia pela rua voltando da escola.
Abraçava meu cachorro fiel.
Pescava com meu pai.
Trabalhava.
Crescia.
Errava.
Perdia.
Sonhava.
Escolhia caminhos certos e errados.
Voltava.
Partia.
Ensinava.
Comemorava.
Numa maternidade, colocava um fone no ouvido de meu filho tocando Milton para que a primeira música de sua vida fosse algo feito com alma.
Sofria.
Voltava a caminhar.
De repente, escuridão.
Talvez fosse o sonho dando lugar a uma noite que me dizia estar vivo.
Em qual HD eu estava?

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