segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Me vi refletido na vitrine de uma loja de aparelhos celulares mal iluminada pelos postes da avenida.
Tênis velhos, camisa e calça sem estampas ou marcas da moda.
Um penteado anacrônico, mas que caía bem ao conjunto - diziam.
Embriagado por uma sessão de cinema que me arrancou a fala e o fôlego, me enxergava parado ali.
Pensando em minha vida, meu caminho de volta pra casa, o desfecho do filme cruel.
Não conseguia me afastar de mim mesmo. Tão próximo de uma realidade palpável e quente, que qualquer som pelas ruas era um trovoar imenso e desconcertante.
A barba mal feita denunciava noites curtas e manhãs apressadas de uma alma entregue ao trabalho, sem trégua e sem tempo.
Toquei meus cabelos e senti no pulso o perfume daquela manhã navegando por meus poros e persistindo bravamente depois de horas de luta.
Ele havia elogiado esse perfume.
Perguntou qual era.
Sorri desconfiado e respondi olhando no olho.
Ele sorriu de volta, falando bem de minha escolha.
Se afastou com o papel na mão e um sorriso se perdendo no canto da boca, a caminho de seu escritório. Para longe de mim.
O reflexo sorriu olhando para mim.
Estava começando mais uma vez.
A sensação de desespero.
A vontade de que a noite seja breve.

A esperança de que dessa vez seja tudo diferente.

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