domingo, 28 de setembro de 2014

O Vazio

Subiram as escadas lentamente, contando cada degrau como se fosse um cego tateando a escuridão e reconhecendo cada nota negra que impregnava o ar invisível ao redor.
Em seus braços um saco de papel com algumas poucas frutas e um pão de casca fina.
Não gostava dos pães se desmanchando sobre a mesa.
Escolhia sem pressa os mais claros e macios, visualizando a manteiga que se espalhava e temperava a massa acompanhada por um café forte e quente.
O saco de papel fazia um som abafado quando roçava contra sua camisa, estalando quando se encontrava com a costura de seu bolso.
47.
O número de degraus já estava memorizado, mas ainda assim contava a cada vez.
Repetia em voz alta para que a pessoa ouvisse.
47.
Dessa vez era uma moça que acompanhava, trazendo consigo seus 16 anos.
Tinha um dos sorrisos mais bonitos e genuínos que vira em toda a vida.
Cabelos muito lisos e pequeninos. Olhos grandes e claros, vizinhos de rugas sorridentes.
Ela deixara de sorrir dois dias atrás, e desde que a percebeu seguindo-o, vinha cabisbaixa e segurando as próprias mãos nervosamente, apertando os dedos muito finos.
Não disse nada.
Ela não disse nada. Não o olhou nos olhos.
Nenhum deles jamais olhou até que entrassem no apartamento.
Nenhum deles jamais disse qualquer coisa.
A primeira fora uma senhora muito triste a quem se apegou discretamente, e mesmo sem o dizer, recebeu o mesmo afeto em retorno, o que não o isentou da dose de pavor ao vê-la subindo lentamente as escadas em sua companhia. Cabisbaixa. Silenciosa. Infeliz.
O menino que chorava muito veio muitos dias depois. Da mesma forma.
E outro mais.
E outros mais.
Já não tinha medo daqueles que o acompanhavam.
Ainda menos daqueles que passaram a habitar sua casa.
Percebeu em cada um a busca por companhia. A continuidade do carinho que tinha por cada um enquanto pacientes.
Abriu a porta e entrou sem acender a luz.
Ainda era claro e mil pontos de luz inundavam os cantos da sala.
Havia silencio. Poeira. Uma canção que entrava pela brecha na janela.
Ela cantava sobre o absurdo da solidão. Sobre a inconsequência do tempo.
Sentados a mesa sorriam e se levantavam seus pacientes perdidos.
A moça do sorriso mais lindo do mundo não sorria.
Não chorava.
Não tinha coragem de cruzar a porta.
Apertava seus dedos finos e brancos.
Queria voar.
Todos queriam, disseram. E então a abraçaram enquanto o homem sozinho seguia para seu quarto, deixando o saco de papel sobre a mesa vazia.

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