segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Começou pelos pratos que estavam empilhados a direita da mesa escura.
A madeira gasta denunciava uma idade avançada, marcada por inúmeros pratos, talheres, panelas e caixas ali colocados durante anos e anos.
Sentado no chão de terra batida seu filho brincava enterrando um marimbondo com areia, só para que em seguida pudesse salvá-lo.
E recomeçar.
O sol soava leve naquela tarde. Amansado por nuvens suaves e um vento frio que fazia balançar o sino de vento feito com pedaços de bambu.
Olhou para o instrumento roto, e se lembrou de que precisava consertar uma das hastes soltas.
Voltou a cantarolar a canção cantada no almoço. Era sua favorita, e contava a história de alguém que se vai para nunca mais voltar. Se arrepende, mas ainda assim não volta.
As pessoas sorriam, cantavam, comiam e gargalhavam genuinamente.
Aquele era um instante de quietude, onde ninguém se importava com o mundo girando veloz do lado de fora.
Não havia medo, dor, solidão ou falta de paz.
Eram um.
Que trazia um presente.
Que trazia o alimento.
A canção.
A mão.
O abraço.
Um que desejava aquele momento para sempre.
Que agradecia em silêncio.
Cantando mil canções de amor.
Sorvendo a aguardente preparada com esmero e mestrandade e calor e paixão.
Ainda cantava baixinho, com o menino acompanhando as partes mais fáceis.
Vez em quando olhava para trás.
Ele olhava de volta.
Indócil e sujo.
Feliz.
Não havia mais silêncio no mundo.
Era tudo vida e recomeço.
O cheiro do café.
O zumbido de uma mosca.
Sorriu pequeno e pensou que gostava de como o som da água que saía pela torneira confundia-se com o murmurar do riacho que passava ao lado de sua casa.
A vida voltava aos trilhos lentamente.
O verde voltava aos quatro cantos de seu quintal.
Os amigos não haviam abandonado seus dias.
Os sonhos não mais deixavam suas noites.

domingo, 28 de setembro de 2014

O Vazio

Subiram as escadas lentamente, contando cada degrau como se fosse um cego tateando a escuridão e reconhecendo cada nota negra que impregnava o ar invisível ao redor.
Em seus braços um saco de papel com algumas poucas frutas e um pão de casca fina.
Não gostava dos pães se desmanchando sobre a mesa.
Escolhia sem pressa os mais claros e macios, visualizando a manteiga que se espalhava e temperava a massa acompanhada por um café forte e quente.
O saco de papel fazia um som abafado quando roçava contra sua camisa, estalando quando se encontrava com a costura de seu bolso.
47.
O número de degraus já estava memorizado, mas ainda assim contava a cada vez.
Repetia em voz alta para que a pessoa ouvisse.
47.
Dessa vez era uma moça que acompanhava, trazendo consigo seus 16 anos.
Tinha um dos sorrisos mais bonitos e genuínos que vira em toda a vida.
Cabelos muito lisos e pequeninos. Olhos grandes e claros, vizinhos de rugas sorridentes.
Ela deixara de sorrir dois dias atrás, e desde que a percebeu seguindo-o, vinha cabisbaixa e segurando as próprias mãos nervosamente, apertando os dedos muito finos.
Não disse nada.
Ela não disse nada. Não o olhou nos olhos.
Nenhum deles jamais olhou até que entrassem no apartamento.
Nenhum deles jamais disse qualquer coisa.
A primeira fora uma senhora muito triste a quem se apegou discretamente, e mesmo sem o dizer, recebeu o mesmo afeto em retorno, o que não o isentou da dose de pavor ao vê-la subindo lentamente as escadas em sua companhia. Cabisbaixa. Silenciosa. Infeliz.
O menino que chorava muito veio muitos dias depois. Da mesma forma.
E outro mais.
E outros mais.
Já não tinha medo daqueles que o acompanhavam.
Ainda menos daqueles que passaram a habitar sua casa.
Percebeu em cada um a busca por companhia. A continuidade do carinho que tinha por cada um enquanto pacientes.
Abriu a porta e entrou sem acender a luz.
Ainda era claro e mil pontos de luz inundavam os cantos da sala.
Havia silencio. Poeira. Uma canção que entrava pela brecha na janela.
Ela cantava sobre o absurdo da solidão. Sobre a inconsequência do tempo.
Sentados a mesa sorriam e se levantavam seus pacientes perdidos.
A moça do sorriso mais lindo do mundo não sorria.
Não chorava.
Não tinha coragem de cruzar a porta.
Apertava seus dedos finos e brancos.
Queria voar.
Todos queriam, disseram. E então a abraçaram enquanto o homem sozinho seguia para seu quarto, deixando o saco de papel sobre a mesa vazia.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Quando fechou os olhos com um sorriso pequeno brotando em sua boca, o fez em meio a uma multidão de perfumes que escapavam de seus cabelos, envolvendo os dois corpos quentes, provocando arrepios pela pele que percebia entre os ombros nus um roçar suave da barba por fazer, da boca quente que se abria e mordia de leve os caminhos para seus sonhos.
Sentiu uma mão forte subir por suas costas, seu pescoço, sua nuca.
Suas pernas tremiam e o coração parecia querer crescer tanto, os envolver, ser um manto rubro de proteção de onde nunca mais sairiam.
Se deixou beijar.
Perdeu-se no caminho de volta a realidade, abraçada a um perfume que lhe tirava do chão, contando histórias incontadas, segredos imutáveis, lembranças ternas.
Fora de si a noite começava a tomar o mundo entre as mãos, fazendo dormir as árvores e animais incansáveis. Calando as crianças e os carros velozes. Acalmando os homens e acariciando a paixão das mulheres.
Levantou-se num átimo e abotoou sua roupa.

Refez o penteado e respirou fundo antes de sair pela porta carregada pelos passos mais pesados que uma mulher já deu em toda a história impossível de duas almas, deixando para trás um coração em silencio.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A chuva

Ao entardecer do centésimo vigésimo oitavo dia Noé sentiu doer a fome.
Uma fome tão terrível e triste que escurecia a visão, fazendo doer as articulações que berravam com o esforço para manter o corpo em movimento.
Podia sentir seu corpo se devorando lentamente. Desesperadamente nos últimos dias.
Ébrio pelo ar nauseabundo que, quase tangível, acertava seu rosto a cada movimento, caminhou para a borda do barco.
Olhou para o horizonte molhado e inalcançável e sentiu um desejo absurdo de vomitar.
Seu corpo se contorceu em dor, mas não havia o que colocar para fora.
Seus lábios ressecados sangraram com o esforço da boca. Os olhos lacrimejaram preciosas lágrimas que marcaram caminho por seu rosto.
Com uma expressão de desamparo, olhou ao redor.
Pouco restara para cuidar.
Naamá prostrada de encontro a parede olhava com seus olhos sem alma para um cordame que balançava estupidamente tentando alcançar o vento.
Havia uma dezena de dias que não dizia palavra.
Não se banhava.
Era um fantasma vestindo negro que caminhava lento e desesperançado.
Sobraram algumas cabras, pássaros e uma vaca que mal se sustentava apoiada num canto.
Ela mugiu ao perceber que era observada.
Suas costelas gradeadas como um bambuzal subiam e desciam infladas pelo ar salgado que saturava cada centímetro de pele.
Noé olhou novamente para Naamá que permanecia olhando sem ver. Respirando programadamente como uma máquina.
Caminhou para o fundo do enorme barco olhando ao redor, buscando o enferrujado machado que jazia enterrado num enorme pedaço de madeira escura e macia.
Foi fácil tira-lo dali.
Como se a força tivesse voltado para seus ossos e músculos ressequidos, segurou com firmeza o cabo roto e longo.
Caminhou de volta para perto do fantasma de sua mulher que ignorava o mundo ao redor.
Um trovão berrou ao longe, enclausurado na negritude do céu que se agitava entre ventos, raios e a fúria do deus.
Os segundos pareciam não passar enquanto o mundo era cercado por essa negritude brutal, enquanto os olhos desciam lentos do cabo para a lâmina. Da lâmina para suas mãos secas.
Levantou os braços. E, com eles, subiu o machado pesado. Agora tão leve. Tão puro.
Outro berro acertou esquerda e direita de seus ouvidos.
Naamá levantou os olhos com uma aceitação que beirava o desespero. Um pedido. Uma cumplicidade silenciosa e ansiosa.
Dessa vez um raio fez em pedaços parte da frente do grande barco, acompanhado de um ensurdecedor vendaval trovão tormenta que parecia cavalgar um corcel enfurecido.
O machado desceu com violência e rapidez terríveis.
Com um baque surdo partiu ossos, nervos, carne, pele pensamentos.
O animal caiu de joelhos e deixou que a morte seguisse seu curso.
A mulher levantou-se e se aproximou.
Tocou o ombro de Noé e se abaixou para recolher o sangue que corria quente e vivo enquanto a tempestade se afastava silenciosa. Incrédula. Resoluta.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Acordou agarrada a um desejo incontrolável de sentir a areia da praia se movendo sob seus pés enquanto assistia o sol inundar timidamente o canto do quarto, criando um prisma ao se debater contra o meio copo de água sobre o móvel ao lado da cama.
Desligou o telefone celular e separou um conjunto de roupas.
Ligou o computador e comprou as passagens, ignorando a caixa de e-mail que insistia em saltar avisando a urgência de mil trabalhos.
Era por volta das onze da manhã quando desembarcou recebida por um calor maciço que fez seu corpo se arrepiar de prazer.
Apertou de leve a alça da maleta e caminhou em direção ao taxi.
O motorista era um senhor alto, de voz aveludada e pelos embranquecidos pelo tempo.
Perguntou do destino e de onde veio.
Contou dos anos ao lado da mulher e do filho inquieto.
Da noite anterior pelas ruas da cidade.
Do momento em que saiu da cama.
Ela observava e absorvia tudo.
O cheiro do couro dos bancos, do ar soprado através das janelas, da água de colônia impregnada de calor vinda do homem, o movimento brusco das pessoas, prédios, arvores, cães, coisas deixadas para trás enquanto o carro amarelo seguia veloz pela avenida.
Pagou agradecendo e sorrindo.
Olhou para a entrada do hotel e para os dois lados da rua.
Alguns bares, restaurantes, vozes e o mar ao longe murmurando cansado.
Se olhou no grande espelho do quarto.
Os cabelos tinham mania de se espalhar por sobre os ombros, criando a sensação de uma adolescente querendo parecer mais velha.
Desatou o primeiro nó da camisa.
Começou a tirar a roupa leve que havia escolhido.
Fazia cada movimento se observando.
Gravando cada centímetro de sua pele.
Decorando cada sensação.
Encarando o próprio rosto até que estivesse nua diante de si mesma.
Fechou os olhos.
Escolheu o que vestir.
Com qual perfume se embebedar.
Qual sorriso sorrir.

Voltou para a rua, e em seu peito pulsava o desejo incontrolável de um querer animal.
Uma vontade intensa. Pura. Tangível, de devorar a si mesma.