terça-feira, 19 de abril de 2011



ela acordou num emaranhado difuso de sol. sua pele nua rabiscava o quarto com lentidão e sabores sem fim. a seu lado, ele via as partículas de poeira que lentamente navegavam o ar e rodeavam seus corpos em descanso.
os olhos se encontravam a todo momento, se despediam em sorrisos até que se reencontravam na lentidão do tempo.

_tenho vontade de voar as vezes.
_tenho vontade de voar sempre.
_não... prefiro que seja as vezes. como nós. distantes. intensos. verdadeiros.
_estamos aqui voando?
_é como se fosse.
_e é tão bom quanto.
_o que vai fazer quando sair daqui?
_vou pra casa.
_vai me escrever do caminho?
_talvez. alguma mensagem em especial?

_um segredo.
_não sei se tenho segredos interessantes.
_ser interessante não é o importante. só quero um segredo.
_e o que vai fazer com ele?
_anotar no canto de uma página da nossa história.

_gosto de fechar os olhos as vezes e musicar essa história.
ele se levantou e abriu as cortinas.
deixou que a luz esquentasse seu rosto e então se virou de volta para a cama.
era agora uma visão escura. bordas vermelhas e furiosas de seus contornos o tornavam maior e misterioso.
ela tinha olhos lindos que enxergavam a todo tempo com ternura.
ele agora abriu a janela e deixou que o segredo crescesse a ponto de ser um sonho a dois.
voltou para a cama e afastou seus cabelos para depois sentir o perfume de seus ombros.
_já tenho o segredo que quero para nós.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010


Ela olhava para fora e sorria.
Talvez se lembrasse de palavras sussurradas na noite anterior. Juras de amor sem fim, elogios a seus cabelos castanhos e finos, seu rosto de menina com uma pinta negra desafiando os negros olhos, uma sutileza conhecida apenas pelos dois e que a fez se arrepiar.
Sorria quase a rir entre estranhos que, enjaulados em seu próprio mundo, não tinham mais garras nem asas.
Viu um vulto dormindo na janela do veículo ao lado. Lembrou-se de seu sono a dois, seu despertar observado, seu desejo tímido de evaporar num átimo sendo devorado pelo desejo do outro. Cobriu o rosto e quis ser possuída por aqueles olhos que a despiam com fome e paixão, que a tocavam embalados por seu cheiro jovem e medroso.
Baixou o lençol, descobrindo o sorriso honesto. Sua mente girava visitando terras distantes onde queria levá-lo pra sempre.
Ele sorriu de volta.
Queria cantar sobre anjos e paisagens molhadas de sol, mas era só silêncio.
Despertou de seus pensamentos e olhou ao redor. E em cada jaula, cada olhar, cada rosto, a vida parecia ser só aquilo que se via passar todos os dias, da mesma forma. O tedioso ir e vir. O viver apenas para viver.
Cega de amor em seu canto, ela voava.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010


Todos haviam enlouquecido. 
Perseguiam os cães gritando sem sentido, saltavam de pontes sorrindo, entravam em igrejas procurando por amigos do passado.
Com o olhar perdido, sentado no meio da rua eu olhava para as paredes. Aguardava que delas saísse um anjo com seu olhar em fúria e suas mãos em fogo.
Um homem passou por mim rindo e arrastando uma cama. Sobre ela seu filho carregado de piolhos e sujeira pulava e  gritava ordens imprecisas sobre o caminho a seguir.
As árvores cresciam descontroladas, derrubando casas e postes. A noite murmuravam histórias dos tempos em que os homens devoravam o mundo ao redor. Todos temiam esses dias, como se a sanidade fosse um novo princípio do fim.
De meu canto, via tudo passar lento. Ouvia cada parte do tudo berrar como crianças famintas, enquanto o anjo não chegava.
Seu bater de asas se confundia com passos lentos daqueles que fugiam das sombras.
Distantes.
Anteriores ao tempo.

Num dia claro e silencioso surgiu uma mulher em silêncio.
Olhou ao redor. Tocou árvores e abraçou as pessoas.
Virou-se em direção ao céu com olhos verde-sonho que faziam querer chorar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010


Aída gostava de luzes. Espalhou por toda a casa velas e luminárias, lâmpadas brancas e amarelas, quadros e enfeites iluminados.
Na sala, um grande aquário cheio de luzes fluorescia as células dos peixes.
Brilhavam.
Fernando tinha centenas de garrafas, organizadas em prateleiras de madeira escura. Divididas por cores, formatos e odores de antigos conteúdos.
Caminhava entre elas todas as noites. Diminuído em seus sonhos, diminuto como uma ficção.
Sonhava.
Pedro juntava pedaços de antigos carros em seu quintal. Ignorava as rodas. Davam sensação de fuga, e ele queria ficar. Queria que nada mais passasse. Nada mais se afastasse de seus olhos.
Passava pela pintura desgastada os dedos roídos e sentia o vento que ali passou. Fechava os olhos para devorar cada segundo dessa liberdade.
Stela via o mundo em verde. Através das janelas, a senhora do ônibus, o sol do parque, a flor caída, um cão bravio.
Verde. 
E nada fazia tanto sentido quanto verde. Como olhos. Canto do olho. Canto da boca carregando um meio sorriso sem fim.
Leo cultivava um infinito de mudanças a cada dia. O tamanho do prato. A forma do espelho. Os tipos de sons, sabores, lembranças, sentimentos. Todos bem embalados em papel grosso. Amarrados com cordas brancas e finas. A cada reencontro, silêncio. 
Recomeço. 
Uma sensação castanha de tempo voltando.
Não havia sentido em outros universos. Independente do nome que o carregasse. Nenhum que explicasse o vôo de um pássaro, os gritos de uma chuva que cai, a distância entre desejos que não se chocam.
Num dia sem sol, nasceu Ana. 
Gostava de unhas azuis e  sonhos inacabados.

domingo, 22 de agosto de 2010



Muito tempo atrás consegui enxergar através da fumaça de memórias que ardiam na fogueira das lembranças que partiam dele. Vi seus olhos insistindo em girar ao redor, gravando tudo que pudesse ser visto e sentido. Tudo que pudesse denunciar nosso tempo. Vi suas mãos ávidas por minha carne e por meu gosto. Os poros inundados de meu cheiro. Impregnado de mim. 
Saturado. 
Buscando espaço para desesperadamente devorar cada parte do que nunca cheguei a ser. 
Muito tempo atrás sonhei um sonho sem tempo. Deitada no chão senti quando ele chegou a porta. Olhava para o caminho de insetos entre o reboco. Cismando com cada pensamento trazido e levado por aquelas trilhas. Vez ou outra piscava, querendo encontrar os olhos, afogar de lágrima tudo o que estaria prestes a deixar fugir. 
Ele pensou meu nome. Me devoraria devagar. Mais uma vez. E mais uma vez, eu não me soltaria da força de sua respiração ou do trovejar de suas asas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010


A parede me olhava com olhos distantes que sentenciavam aos gritos a necessidade de escrever. Depois de um silêncio literário de meses, procurei em meus cadernos frases perdidas que, conectadas, criariam um monstro textual que precisaria ser alimentado, cresceria, devoraria pensamentos.
Encontrei uma nota em tinta vermelha. Cópia de um escrito da época do colégio.
Ela tinha cabelos castanhos muito lisos. Sardas pequeninas como uma constelação.
'como você consegue ler com todo esse barulho?'
Foi o que nos aproximou.
Era dois anos mais velha. Estava prestes a se formar e voltaria à cidade onde moravam os pais.
Voltou numa tarde de quarta-feira após um passeio pelo campus da universidade.
Ainda hoje sinto um frio na barriga ao sentir seu perfume encarnado na pele de alguma desconhecida que passa por mim. Passam sem me ver. Carregando cada milímetro de seus próprios sonhos. Alheias a meu desejo de abraça-las e sentir em cada pescoço um intenso cheiro de céu.

Numa frase breve, arranquei todo pedaço de história que pudesse ser desfiado.
'me conta de você.'
Esperei semanas. Torturado pelo imediatismo por vezes cruel criado pelos telefones e computadores.
Tirei do envelope uma foto que saiu pelo lado de trás. Por um tempo sem fim observei a nota que se repetia a meus olhos. A letra mantinha o mesmo desenho, o mesmo alinhamento perfeito. Triturava as nervuras do papel, marcando o branco como uma cicatriz recente.
Não imagino por quanto tempo ou por quantas vezes li aquilo, mergulhado em fragmentos de passados, presentes e sentidos antes de virar a fotografia.

me afogo com sede. bebendo da luz que passa lenta pela constelação de seus olhos.

domingo, 9 de maio de 2010



Ela despertou com a música latejando em sua cabeça. Um refrão grudento e desesperado que transmitia uma paixão tão intensa que beirava uma dor destruidora.
Foi ao computador e imprimiu a tradução da letra que leu enquanto a música era executada pela oitava vez seguida, no volume máximo do stéreo.
Suspirava profundamente a cada oitava alcançada pela cantora. Tomou banho e se aprontou para o trabalho ao som da canção. No metrô, lia e relia o papel em suas mãos. Vez ou outra olhava pela janela, tentando tomar pra si todo amor que passava veloz por entre as pessoas que iam e vinham por todos os lados. Respirava fundo para segurar o nó que se formava em sua garganta, vez ou outra secando uma lágrima que teimava em brotar.
Passou do ponto onde desceria, e decidiu seguir até o final da linha. Cantava.
Ela se levantou e sentiu que atraia cada olhar e sentido ali. Nunca, em cada segundo da vida da cada uma das pessoas ali presentes, havia sido sentido tamanho pulsar de amor.
O ar parou naquele instante. Os homens piscavam boquiabertos. As mulheres com os olhos deitados de lágrimas, lamentavam sem fim.
Ela abriu os braços e deixou cair a cabeça para trás num sorriso infinito.
Mil crianças nasceram. Milhares de idosos se tocaram, num adeus saturado de paixão.
Ela sorriu um sorriso sem fim e deu o primeiro passo em direção a eles.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009


Despertei entre escombros, com as mãos e pés doloridos, a boca e olhos ressecados. empoeirados. Sentia em meus ouvidos uma pressão que fazia doer a cabeça em pontadas silenciosas. Sentia apenas silêncio, dor e escuridão. Fiquei ali sentado de olhos fechados esperando me acostumar a falta de luz, e aos poucos comecei a perceber vultos que se moviam ao redor. Alguns andavam agachados, outros corriam, rastejavam, e alguns, como eu, estavam parados olhando em volta. Não me lembro por quanto tempo dormi, nem mesmo como cheguei ali. Minhas roupas estavam extremamente sujas e nada havia nos bolsos, além do pó que impregnava. Era impossível dizer se estávamos numa sala ou num grande alojamento. Sem sons, sem vento. Sem direção.

À medida em que recuperava meus sentidos, percebia mais e mais pessoas. Alguns parecendo tão perdidos quanto eu. Outros imersos em sua própria alma, alheios ao que nos cercava como se estivessem em coma. Os braços pendentes e olhos muito distantes não se moviam. Pareciam bonecos bizarros e mal acabados.

Uma criança veio correndo entre os vultos e parou perto de uma mulher grande e suja. Falou algo que a distância não me deixou ouvir e sumiu correndo entre os errantes. Tentei gritar por ela, mas não consegui emitir nenhum som. Quase explodi minha garganta tentando falar, mas em vão. Caminhei em direção a mulher com dificuldade, mas meu estômago revirava a cada passo e meus olhos começaram a lacrimejar exageradamente, a ponto de me imperdir de ver. Os ouvidos zumbiam como se houvesse uma furadeira trabalhando a plena carga, dilacerando aço e concreto em fragmentos que se enterram fundo na carne, sem deixar esquecer. Caí de joelhos quando minhas pernas falharam e entre a poeira e as lágrimas, vi a menina correr em minha direção. Chegou bem perto, como se estivesse sentindo meu cheiro quando vi que não tinha olhos. Em seu lugar, bolas negras e opacas giravam em todas as direções, como se fossem uma espécie de radar. 'Ainda é cedo pra você andar. Quando nascer um pouco mais, venho te buscar.' Sua voz era um misto de grito e murmurio. Tempestade e calmaria, com uma pele rugosa que parecia resistir a poeira. Ela apontou para o norte com dedos longos e ossudos, de onde subia um enorme sol negro com bordas de um cinza cegante, mas que não aquecia. Não iluminava. Piscou algumas vezes observando o que parecia ser um céu e depois se voltou pra mim tocando meus braços e tornou a me cheirar. Instintivamente, tentei sentir seu cheiro quando percebi que desde que despertei, não havia respirado. Ela correu antes que eu pudesse perguntar algo e pegou a mulher pelas mãos. Levei minha mão ao peito e as lágrimas pararam quando não senti.

terça-feira, 15 de setembro de 2009



oi. boa tarde.
boa tarde.
estou participando de um projeto pra universidade em que foi proposto o tema "desconhecidos". gostaria muito de poder fazer uma foto da senhora com algum filho, ou parente próximo.
foto?
sim. foto.
mas foto pra que?
pra um projeto da escola.
e pode ser com meu marido também?
é claro!
então espera que vou chamar. Antôooooonio!
então. quem é esse moço?
ele é da entidade.
não, senhora. da universidade. é que estou participando de um projeto fotográfico em que foi proposto o tema "desconhecidos". gostaria muito de poder fazer uma foto de vocês. posso?
foto? pra fazer o que?
para um projeto.
o que vai fazer com essas fotos?
algumas delas serão expostas no encerramento do projeto.
foi isso mesmo que ele te falou primeiro?
foi... acho que foi.
e quanto você vai ganhar com elas?
não vou ganhar dinheiro com elas. isso vale ponto para o trabalho.
então seus professores vão ganhar!
acho que não, senhor.
ah. claro que vão. onde você já viu isso? parece bobo. fotógrafo é cheio do dinheiro, que eu to sabendo. quando vai dar pra gente?
nossa... meu dinheiro mal ta dando pra pagar meu curso.
tá mais fodido do que eu então, hein?
mais ou menos isso.
veja bem. veja bem. meu dengo aqui vai valorizar seu trabalho. embelezar essa tal exposição. olha como ela é graçuda.
tenho certeza que vai. mas me desculpem. estava olhando aqui e só agora vi que gastei todo o rolo do filme na parte da manhã, e não tenho mais.
filme?
é.
você é burro? porque nao compra uma daquelas máquinas de tirar foto com telinha?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Dias atrás me vi correndo entre nossos medos.
Descobri, caindo em abismos, que corria a sós.
Nas mãos, ouro e sonhos em troca de teu olhar.
Entre rios e montanhas senti o frio. Me alimentei de meu cansaço.
Bebi as notícias trazidas pelo vento, e os segredos guardados sob as sombras.
Desafiei os gritos das tempestades, rompendo o tempo a caminho de nós.
Te vi ao longe. Vestida de luzes, dançava.
Girando entre os braços, vigiada de perto pelo sabor de seu perfume.

Parado a sua frente, me vi.
Minhas roupas contavam minhas dores e meus pés ainda buscavam abrigo entre as pedras e a terra seca que varreu minha pele e meus cabelos.
Nas mãos, minha espada e meu escudo gasto escrito em letras de bronze, que refletindo seus olhos, diziam sim.

[foto de edu rickes]

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Moro bem a beira do fim do mundo.

Minha casa tem janelas de pedra e vidro que deixam ver a chuva chegar. Meu cão de olhos espertos enxerga longe, correndo entre galhos e sóis.

Moro bem a beira do fim do mundo.

Onde meu flho e meus amigos cantam sobre gatos e telhados. Onde há uma menina e um céu. Magos felizes espalhando acordes honestos e estradas a percorrer.

Moro bem a beira do fim do mundo.

Onde há uma nova esperança, um novo perfume e novos sorrisos. Há saudade e recomeços. Grama para cortar e erros para corrigir.

Moro bem ali. No topo do morro, entre um lago e um grande carvalho. À nós, o sol vem primeiro.

Entre nos está a distância e a força para percorre-la.

Pra nós, todo o amor do mundo.

terça-feira, 18 de agosto de 2009



olha quem tá ali!
quem?
a sandrinha, cara.
que sandrinha?
aquela que tava com a gente na festa de fim de ano.
ué... onde?
ali, encostada na janela.
cara... não é ela.
é sim! claro que me lembraria dela, né?
voce ta doido. aquela é a irmã do chico.
que chico?
lá do bairro. cria pombo.
e quem diabo cria pombo?
o irmão dela.
cara... isso nao foi uma pergunta direta. eu tava raciocinando sobre qualquer vantagem em se criar pombo.
ah sim.
e é lógico que é ela. olha que boca. aposto que os cabelos tem o mesmo perfume daquele dia. nao tem como esquecer, né?
para de falar "né", e deixa de ser teimoso.
teimoso é você. eu dei uns beijos nela. eu é que sei se é ou não é.
então tá bom.
quando esvaziar o ônibus vou lá conversar com ela.
conversar o que?
sei lá. saber como ela tá.
heheh
o que foi? agora também nao tenho mais condiçao de dialogar com uma pessoa?
falei nada.
mas riu aí igual um calango.
e calango ri?
nao sei. mas voce riu.
parei.
é bom mesmo.
ta bom.
...
agora vai lá antes que chegue no ponto final.
eu vou.
então vá.
segura minha bolsa.
ta com medo de ela ouvir sua marmita batendo?
...

oi.
sim?
deixa eu te perguntar, voce sabe os preços dos pombos do seu irmão?

quinta-feira, 28 de agosto de 2008




staccato


era uma vez o copo. nele água. doce. e seus aromas.
suco, talheres, limpo.
agora, um Beta.
vermelho. irritado. faminto sempre.
era uma vez o teatro. atores, atrizes, poetas, maquiadores, diretor e platéia no auge do fim. o último aplauso reverberou por poucos metros, saído de mãos que tocaram um corpo horas antes.
o corpo caminhava rumo a um carro prata. gosta em especial dos carros prata. parecia que nunca se sujavam. eram cada dia mais comuns pelas ruas. comuns como seus passageiros. clientes. incomuns.
era uma vez um caderno com capa branca. tinha entre suas páginas uma fita de náilon marcando a última página escrita. gastos. ganhos. perdas. nomes. também o valor do Corpo.
sentia cada ano vibrando em sua pele. causticada casca coberta de histórias. exatamente assim. extremamente clichê.
era uma vez um Clichê. maquiado suavemente. singular entre os seus. ora vulgívagos, ora sôfregos e solicitados.
falaram do rosto puro e atrativo. precisa não. se pinta não.
não se pintava. não com esmero.
gastou com roupas. pouca roupa em partes. na maior parte das partes, era pouca. Clichê com frio, outrora também apresentado como Corpo.
o caderno como um adágio completava a saída. casa cheua essa noite. sorria o proprietário em conversa animada, alheio ao caderno que passava. compunha. estilizava.
encaminhou-se ao primeiro taxi, ainda cantarolando a melodia final da reprise. chorou. como chorou doze anos atrás.
o cansaço fazia a visão turvar-se. letreiros duplicavam seus dizeres num ir e vir vertiginoso. era tarde. o bastante para desejar o lar que cegava e deixava dormentes todos os sentidos.
era uma vez uma porta. antiga, cheia de cupins e nervuras. cheia de lembranças. guardava do mundo. guardava o mundo.
acendeu a luz da sala. o peixe levantou-se do fundo do copo. investiu contra o reflexo que a claridade trouxe. tinha fome. era vermelho e irritado.

segunda-feira, 5 de maio de 2008



- hmmm...
- que isso?!
- tava sentindo seu perfume. uma delícia.
- e precisa chegar tão perto? dá licença?
- é que não resisti. me perdoa?
- tudo bem, mas me dá licença.
- qual é o seu nome?
- existem outras formas de descobrir isso sem precisar dar uma de tarado.
- é o que estou fazendo nesse momento.
- tarde demais.
- agora to sendo educado. até cara de labrador sofrido eu to fazendo.
- ...
- vai falar não? voce ja é bem grandinha pra ter tão pouca educação.
- seu cretino!
- ta vendo? agora já passou a me ofender.
- não acredito nisso. voce começou com toda essa palhaçada e agora eu sou a errada? dá um tempo.
- típico das mulheres isso de tentar distorcer os fatos para que no final, tudo quanto é bobagem que façam ou digam tenha sido motivada por alguma coisa que tenhamos feito - ou não.
e eu não disse que voce tava errada. disse que era ofensiva e mal educada.
- não to acreditando nisso... meu nome é Gabriela. satisfeito? pode me deixar em paz agora?
- não.
- ahh... então vá passear.
- isso foi uma indireta?
- voce ta me irritando, sabia?
- mas eu não to fazendo nada demais! só estou sendo simpático e tentando sobreviver a seus ataques. isso me pareceu uma indireta, sim. ta aqui sozinha, puxa papo comigo e começa a falar sobre passear.
- ...
- me ignorar não vai mudar o que voce fez.
- saco! eu não te fiz nada! nem sei porque to insitindo em conversar ainda. dá um tempo!
- nossa... que grossa.
- eu não sou grossa! nunca tratei ninguem assim, mas voce ta me tirando do sério!
- tudo bem. eu te desculpo. qual é seu nome mesmo?



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008


ao terminar de ler Garcia Marquez, tive um surto de nostalgia misto de um formigamento nas partes.
a saia branca e surrada, que marcava as curvas quando ela acabava de se levantar ainda povoa meus sonhos, fazendo fechar meus olhos e sentir os aromas da infância impregnados de folhagens, lenha queimada, roupa lavada, animais, e ela.
nunca foi um primor de beleza ou de educação, mas tinha dois dons explícitos.
o de cozinhar e o de provocar.
o primeiro era caracterizado por seu famoso feijão tropeiro. pessoas vinham de cidades vizinhas às sextas e sabados para deliciarem-se. devo confessar que muito da fama de seu tropeiro era devido às pernas que iam e vinham levando e trazendo as refeições. o segundo dom estava completamente ligado a essas pernas.
propostas recheadas de cifrões eram feitas diáriamente, sempre provocando um sorriso provocador e uma negativa acompanhada da frase que se tornou cultura popular 'é muita carne pra tu conseguir moer'.
eu mal havia descoberto os primeiros pelos em meu corpo e já maquinava formas de conseguir moer tanta carne. sim. fui prematuro no que diz respeito às coisas desejosas do corpo. anotava em meu caderno de caligrafia os nomes daquelas com quem ja havia visto estrelas, constelações e galaxias inteiras. tudo anotado em letras rotas e inteligíveis aos olhos de meus pais e da professora.
ahh... a professora.
moça magra, olhos castanho-esverdeados, longos cabelos negros e cacheados, que teimavam em cobrir durante todo o tempo o que ela tinha de melhor, oculto em suas camisas brancamente impecáveis.
'oi! voce viu aquele safado? toda semana é a mesma história. o pior é que nem posso engrossar e acabar com isso.'
'faz bem. eles só vem aqui pra tentar conseguir dessas coisas com voce.'
'porque voce diz que faço bem?'
'ora... porque acho que ele não te merece.'
'que isso, garoto? fazendo pouco caso de mim? acha que não sou boa o suficiente pra ele?'
'não foi o que eu quis dizer.'
'e o que quis dizer?'
'ele não saberia o que fazer com tanta mulher.'
ela riu muito, ficou me olhando e perguntou se eu sabia do que tava falando.
foi minha vez de sorrir, e dizer que se precisasse de alguns ensinamentos pro dia em que decidir aceitar alguma proposta, ela saberia onde me achar. ela riu ainda mais.
levantou-se e foi até o balcão. trouxe uma garrafa com uma cachaça verde, cheia de pedaços de uma folha verde-escura e várias nervuras de raiz.
'bebe até a metade. depois voce vai me levar em casa. se conseguir achar o caminho, deixo voce me ensinar.'
sentada de frente pra mim, vigiou cada gota ardente que descia por minha garganta.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

direto ao ponto.

quem descobriu o brasil?
nao sei.
como nao sabe?
ué... nao sei.
mas voce nao viu isso hoje na escola?
vi, mas ninguem falou que eu tinha que lembrar.
voce ta de brincadeira
eu nao!! to conversando com voce!
quem descobriu o brasil?
ja falei que nao sei!
pega seu caderno.
pra que?
nao interessa. pega.
entao fala pra que.
vou precisar repetir?
ta bom... ta bom. toma.
onde ta a materia de hoje?
sobre o brasil?
sim.
tem nao.
como nao tem?
fiquei com preguiça de escrever.
...
porque ta me olhando assim? ta com raiva?
sua ultima chance. quem descobriu o brasil?
pedro alvares cabral.
porque nao respondeu antes???
porque voce nao tava com cara de mau.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

dor.

ele subiu as escadas lentamente, apoiado ao corrimão gelado. sentia-se como se carregasse uma tonelada presa a cada tornozelo. abriu a porta da frente e sentou-se no último degrau para fumar antes de se deitar.

tinha esse hábito há anos. ainda hoje abria a porta para seu cão sair e ficar junto dele. ele havia morrido há 7 meses, mas a velha mania mantinha-se ali. presente e estática.
gostava de observar as luzes dos carros que passavam trepidando sobre o calçamento da rua estreita e escura. as lampadas dos antigos postes de madeira não iluminavam mais do que poucos metros ao redor de cada poste, criando poças amarelas que vistas de longe pareciam o corredor de um hospital de filmes de terror. puxou com voracidade o ultimo trago no cigarro e jogou a guimba sobre a grama ao lado.

levantou-se, trancou a porta e voltou para a rua, seguindo até um banco de madeira rústico que havia em frente de um prédio inacabado de 3 andares. retirou do bolso o aparelho de telefone e sentou-se, fazendo estalar as tábuas ressecadas e enegrecidas sustentadas por dois troncos de eucalipto, rachados e perfurados por cupins. pegou o isqueiro com corpo de plastico transparente e ficou brincando com o liquido, tentando nivelar quando viu um rapaz subindo a rua, vindo em sua direção.

vestia uma camisa branca, jeans surrado e um tenis encardido com cadarços enormes que escapavam aos lados da bainha da calça.
aproximou-se e pediu fogo para acender um cigarro.

_obrigado. posso me assentar?
_a vontade.
_voce ainda sente muita falta dele?
_o que?
_voce ainda sente muita falta dele?
_de quem? do que voce ta falando?
_Cisco.
_como voce sabe dele?
_sente muita falta?
_quem é voce? como sabe dele?
_desculpe, Paulo. pode me chamar de Raz.
_isso é alguma brincadeira? quem é voce?
_eu sei que todos os dias abre a porta e espera que ele saia atropelando tudo para se sentar a seu lado enquanto fuma. falando nisso, devia parar com o cigarro. considere como um conselho valioso. sei que senta-se na beirada da cama e pensa nela. amarga um arrependimento por nao te-la buscado aquele dia.
_...
_a grande maioria das pessoas trocaria as conquistas de toda uma vida pela chance de voltar atras e mudar uma vírgula em sua história.
_o que te faz pensar que quero mudar algo?
_tudo sei. mais cedo ou mais tarde, vai perceber isso. não foi em vão que voce chamou por mim.
_voce......??
_voce ainda ouve os gritos?
Paulo olhou para o lado. queria poder ouvir os vizinhos brigando, os jovens chutando lixeiras no caminho de volta pra casa, mas não havia som. era difícil até mesmo ouvir sua respiração. um chiado que vinha do fundo e gritava com dor ao chegar em suas cordas vocais. o grito morria antes mesmo de passar por seus dentes. só existia o frio e o silêncio.
"os gritos... eles nunca foram embora...acho que nunca irão. talvez se eu não tivesse sido tão covarde..."
_acho que nunca foram embora.
_sabe que nunca irão?
_não consigo dormir desde que Cisco se foi... sonho com o menino sendo devorado. não consigo fazer nada. só fico parado escondido enquanto ele é comido vivo... olhando pra mim, chamando pelo pai e por mim. acordo chorando, gritando por perdão, pedindo para que essa vida chegue logo ao fim. mas o dia sempre vem. quente. barulhento. cheio de movimentaçao em volta de meu mundo que gira em anti-horario.
Raz era jovem. tinha o rosto magro, com barba malfeita e que crescia em pontos separados. os olhos lembravam os olhos de um cão traiçoeiro, sorrindo entre os dentes amarelos de nicotina. seu hálito lembrava poeira muito seca, que faz tossir, engasgar e lacrimejar. ele se lavantou, olhou para o céu e pareceu contar algumas estrelas antes de olhar novamente para Paulo. colocou a camisa para dentro da calça, coçou a cabeça e piscou.
_estarei em sua casa te esperando. demore o tempo que achar necessário. se achar que deve voltar atrás, nunca mais entre ali. vá para longe, tente esquecer sua dor e seu medo. mas saiba que nos encontraremos novamente, e nesse dia, não me verá em trajes que alimentem sua tranquilidade.

[ foto de Marta Rickes]

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

coisas. e a infância.


acordei bem cedo, com o vizinho a acelerar seu velho automóvel velho ao lado da janela de meu quarto. coloquei a cabeça pra fora "bom dia, senhor saulo!" gritei pra vencer o ronco esfumaçado.
ele levantou a mão em cumprimento e acelerou ainda mais, feliz da vida com seu carburado milnovecentosealgumacoisa.
minha mulher estava tomando o cafe da manha quando passei pela cozinha para pegar uma camisa limpa na area de tanque. "bom dia, amor' beijo. "leva o bebê ao medico pra mim hoje? tenho uma reunião de ultima hora".
tá bom. levo.
mensagem pro chefe. vou atrasar.
"to indo. ja ta tudo pronto. te amo." ela foi.
ouvi choro no outro quarto. mamadeira na mão e bico na boca do guri.
"ta na hora, amigão. vamos? fralda limpa? graças a deus."
"prrrrr"
"heheh... é isso ae."
coloquei o guri na cadeirinha para criancinhas do carro e passei nele o cinto de segurança de quatro pontos, não sem ouvir uma reclamação inteligível de quem nao quer ficar ali sentado.
plebe rude pra começar bem o dia. ele batia palmas meio descoordenadas, mas batia.
transito foda.
calor de quem nao tem ar condicionado no carro.
menino estressando. dei pra ele um daqueles jornaizinhos que a galera entrega nos sinais com propaganda de tudo o que existe.
rasgou tudo em minutos e tentou comer o ultimo pedaço. "nao faz isso, cara!" tomei dele e fui xingado numa lingua há muito esquecida.
entreguei as chaves de casa e tomei de volta. vai que ele joga pela janela.
"o que eu vou te dar?"
abri o porta luvas e achei o vidrinho do laboratório. dentro dele alguma coisa balançante e distrativa.
entreguei pro moleque que ficou satisfeito e quietinho. seguimos viagem. consulta rápida e rasteira. "como está esperto o rapazinho!"
nem me fale.
voltamos pro carro e fui xingado de novo quando fechei o cinto de segurança de quatro pontos. já de cara entreguei pra ele o santo vidrinho distrativo, mas que tinha deixado de ser balançante.
"onde voce colocou o treco que tava aí dentro?"
"prrrr"
"eita bosta... chegando em casa eu te tiro daí e procuro."
procurei.
nada do artefato balançante, chacoalhante, ou o que quer que seja.
deixei isso de lado, coloquei o vidrinho de volta no porta luvas e entreguei o estressado para a babá.
"da tchau pro papai, dá?"
balancei a mão e fui trabalhar.
"boa noite, amor. obrigado por ter levado o bebe. salvou minha pele".
a gente tá aí pra isso mesmo.
"amor, voce viu meus dentes de leite? mamãe me entregou mas nao faço idéia de onde deixei".
nada vi.
"vidrinho branco com tampinha verde...?"
nada sei.
"ah, nao..."
acho que ta no carro. vou olhar pra voce.
peguei o vidrinho e enfiei bem fundo no saco de lixo mais fedorento que encontrei.
vi nao, amor. posso jurar que tinha visto no carro, mas nao ta la. cheguei a vasculhar o lixo de hoje, mas tá lá tambem nao. tem valor sentimental, né?