sexta-feira, 30 de julho de 2010
A parede me olhava com olhos distantes que sentenciavam aos gritos a necessidade de escrever. Depois de um silêncio literário de meses, procurei em meus cadernos frases perdidas que, conectadas, criariam um monstro textual que precisaria ser alimentado, cresceria, devoraria pensamentos.
Encontrei uma nota em tinta vermelha. Cópia de um escrito da época do colégio.
Ela tinha cabelos castanhos muito lisos. Sardas pequeninas como uma constelação.
'como você consegue ler com todo esse barulho?'
Foi o que nos aproximou.
Era dois anos mais velha. Estava prestes a se formar e voltaria à cidade onde moravam os pais.
Voltou numa tarde de quarta-feira após um passeio pelo campus da universidade.
Ainda hoje sinto um frio na barriga ao sentir seu perfume encarnado na pele de alguma desconhecida que passa por mim. Passam sem me ver. Carregando cada milímetro de seus próprios sonhos. Alheias a meu desejo de abraça-las e sentir em cada pescoço um intenso cheiro de céu.
Numa frase breve, arranquei todo pedaço de história que pudesse ser desfiado.
'me conta de você.'
Esperei semanas. Torturado pelo imediatismo por vezes cruel criado pelos telefones e computadores.
Tirei do envelope uma foto que saiu pelo lado de trás. Por um tempo sem fim observei a nota que se repetia a meus olhos. A letra mantinha o mesmo desenho, o mesmo alinhamento perfeito. Triturava as nervuras do papel, marcando o branco como uma cicatriz recente.
Não imagino por quanto tempo ou por quantas vezes li aquilo, mergulhado em fragmentos de passados, presentes e sentidos antes de virar a fotografia.
me afogo com sede. bebendo da luz que passa lenta pela constelação de seus olhos.
domingo, 9 de maio de 2010
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Despertei entre escombros, com as mãos e pés doloridos, a boca e olhos ressecados. empoeirados. Sentia em meus ouvidos uma pressão que fazia doer a cabeça em pontadas silenciosas. Sentia apenas silêncio, dor e escuridão. Fiquei ali sentado de olhos fechados esperando me acostumar a falta de luz, e aos poucos comecei a perceber vultos que se moviam ao redor. Alguns andavam agachados, outros corriam, rastejavam, e alguns, como eu, estavam parados olhando em volta. Não me lembro por quanto tempo dormi, nem mesmo como cheguei ali. Minhas roupas estavam extremamente sujas e nada havia nos bolsos, além do pó que impregnava. Era impossível dizer se estávamos numa sala ou num grande alojamento. Sem sons, sem vento. Sem direção.
À medida em que recuperava meus sentidos, percebia mais e mais pessoas. Alguns parecendo tão perdidos quanto eu. Outros imersos em sua própria alma, alheios ao que nos cercava como se estivessem em coma. Os braços pendentes e olhos muito distantes não se moviam. Pareciam bonecos bizarros e mal acabados.
Uma criança veio correndo entre os vultos e parou perto de uma mulher grande e suja. Falou algo que a distância não me deixou ouvir e sumiu correndo entre os errantes. Tentei gritar por ela, mas não consegui emitir nenhum som. Quase explodi minha garganta tentando falar, mas em vão. Caminhei em direção a mulher com dificuldade, mas meu estômago revirava a cada passo e meus olhos começaram a lacrimejar exageradamente, a ponto de me imperdir de ver. Os ouvidos zumbiam como se houvesse uma furadeira trabalhando a plena carga, dilacerando aço e concreto em fragmentos que se enterram fundo na carne, sem deixar esquecer. Caí de joelhos quando minhas pernas falharam e entre a poeira e as lágrimas, vi a menina correr em minha direção. Chegou bem perto, como se estivesse sentindo meu cheiro quando vi que não tinha olhos. Em seu lugar, bolas negras e opacas giravam em todas as direções, como se fossem uma espécie de radar. 'Ainda é cedo pra você andar. Quando nascer um pouco mais, venho te buscar.' Sua voz era um misto de grito e murmurio. Tempestade e calmaria, com uma pele rugosa que parecia resistir a poeira. Ela apontou para o norte com dedos longos e ossudos, de onde subia um enorme sol negro com bordas de um cinza cegante, mas que não aquecia. Não iluminava. Piscou algumas vezes observando o que parecia ser um céu e depois se voltou pra mim tocando meus braços e tornou a me cheirar. Instintivamente, tentei sentir seu cheiro quando percebi que desde que despertei, não havia respirado. Ela correu antes que eu pudesse perguntar algo e pegou a mulher pelas mãos. Levei minha mão ao peito e as lágrimas pararam quando não senti.
terça-feira, 15 de setembro de 2009

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009
Moro bem a beira do fim do mundo.
Minha casa tem janelas de pedra e vidro que deixam ver a chuva chegar. Meu cão de olhos espertos enxerga longe, correndo entre galhos e sóis.
Moro bem a beira do fim do mundo.
Onde meu flho e meus amigos cantam sobre gatos e telhados. Onde há uma menina e um céu. Magos felizes espalhando acordes honestos e estradas a percorrer.
Moro bem a beira do fim do mundo.
Onde há uma nova esperança, um novo perfume e novos sorrisos. Há saudade e recomeços. Grama para cortar e erros para corrigir.
Moro bem ali. No topo do morro, entre um lago e um grande carvalho. À nós, o sol vem primeiro.
Entre nos está a distância e a força para percorre-la.
Pra nós, todo o amor do mundo.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
quinta-feira, 28 de agosto de 2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

- hmmm...
- que isso?!
- tava sentindo seu perfume. uma delícia.
- e precisa chegar tão perto? dá licença?
- é que não resisti. me perdoa?
- tudo bem, mas me dá licença.
- qual é o seu nome?
- existem outras formas de descobrir isso sem precisar dar uma de tarado.
- é o que estou fazendo nesse momento.
- tarde demais.
- agora to sendo educado. até cara de labrador sofrido eu to fazendo.
- ...
- vai falar não? voce ja é bem grandinha pra ter tão pouca educação.
- seu cretino!
- ta vendo? agora já passou a me ofender.
- não acredito nisso. voce começou com toda essa palhaçada e agora eu sou a errada? dá um tempo.
- típico das mulheres isso de tentar distorcer os fatos para que no final, tudo quanto é bobagem que façam ou digam tenha sido motivada por alguma coisa que tenhamos feito - ou não.
e eu não disse que voce tava errada. disse que era ofensiva e mal educada.
- não to acreditando nisso... meu nome é Gabriela. satisfeito? pode me deixar em paz agora?
- não.
- ahh... então vá passear.
- isso foi uma indireta?
- voce ta me irritando, sabia?
- mas eu não to fazendo nada demais! só estou sendo simpático e tentando sobreviver a seus ataques. isso me pareceu uma indireta, sim. ta aqui sozinha, puxa papo comigo e começa a falar sobre passear.
- ...
- me ignorar não vai mudar o que voce fez.
- saco! eu não te fiz nada! nem sei porque to insitindo em conversar ainda. dá um tempo!
- nossa... que grossa.
- eu não sou grossa! nunca tratei ninguem assim, mas voce ta me tirando do sério!
- tudo bem. eu te desculpo. qual é seu nome mesmo?
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

ahh... a professora.
moça magra, olhos castanho-esverdeados, longos cabelos negros e cacheados, que teimavam em cobrir durante todo o tempo o que ela tinha de melhor, oculto em suas camisas brancamente impecáveis.
levantou-se e foi até o balcão. trouxe uma garrafa com uma cachaça verde, cheia de pedaços de uma folha verde-escura e várias nervuras de raiz.
'bebe até a metade. depois voce vai me levar em casa. se conseguir achar o caminho, deixo voce me ensinar.'
sentada de frente pra mim, vigiou cada gota ardente que descia por minha garganta.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
direto ao ponto.quem descobriu o brasil?
nao sei.
como nao sabe?
ué... nao sei.
mas voce nao viu isso hoje na escola?
vi, mas ninguem falou que eu tinha que lembrar.
voce ta de brincadeira
eu nao!! to conversando com voce!
quem descobriu o brasil?
ja falei que nao sei!
pega seu caderno.
pra que?
nao interessa. pega.
entao fala pra que.
vou precisar repetir?
ta bom... ta bom. toma.
onde ta a materia de hoje?
sobre o brasil?
sim.
tem nao.
como nao tem?
fiquei com preguiça de escrever.
...
porque ta me olhando assim? ta com raiva?
sua ultima chance. quem descobriu o brasil?
pedro alvares cabral.
porque nao respondeu antes???
porque voce nao tava com cara de mau.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
dor.
ele subiu as escadas lentamente, apoiado ao corrimão gelado. sentia-se como se carregasse uma tonelada presa a cada tornozelo. abriu a porta da frente e sentou-se no último degrau para fumar antes de se deitar.
tinha esse hábito há anos. ainda hoje abria a porta para seu cão sair e ficar junto dele. ele havia morrido há 7 meses, mas a velha mania mantinha-se ali. presente e estática.
gostava de observar as luzes dos carros que passavam trepidando sobre o calçamento da rua estreita e escura. as lampadas dos antigos postes de madeira não iluminavam mais do que poucos metros ao redor de cada poste, criando poças amarelas que vistas de longe pareciam o corredor de um hospital de filmes de terror. puxou com voracidade o ultimo trago no cigarro e jogou a guimba sobre a grama ao lado.
levantou-se, trancou a porta e voltou para a rua, seguindo até um banco de madeira rústico que havia em frente de um prédio inacabado de 3 andares. retirou do bolso o aparelho de telefone e sentou-se, fazendo estalar as tábuas ressecadas e enegrecidas sustentadas por dois troncos de eucalipto, rachados e perfurados por cupins. pegou o isqueiro com corpo de plastico transparente e ficou brincando com o liquido, tentando nivelar quando viu um rapaz subindo a rua, vindo em sua direção.
vestia uma camisa branca, jeans surrado e um tenis encardido com cadarços enormes que escapavam aos lados da bainha da calça.
aproximou-se e pediu fogo para acender um cigarro.
_a vontade.
_voce ainda sente muita falta dele?
_o que?
_voce ainda sente muita falta dele?
_de quem? do que voce ta falando?
_Cisco.
_como voce sabe dele?
_sente muita falta?
_quem é voce? como sabe dele?
_desculpe, Paulo. pode me chamar de Raz.
_isso é alguma brincadeira? quem é voce?
_eu sei que todos os dias abre a porta e espera que ele saia atropelando tudo para se sentar a seu lado enquanto fuma. falando nisso, devia parar com o cigarro. considere como um conselho valioso. sei que senta-se na beirada da cama e pensa nela. amarga um arrependimento por nao te-la buscado aquele dia.
_...
_a grande maioria das pessoas trocaria as conquistas de toda uma vida pela chance de voltar atras e mudar uma vírgula em sua história.
_o que te faz pensar que quero mudar algo?
_tudo sei. mais cedo ou mais tarde, vai perceber isso. não foi em vão que voce chamou por mim.
_voce......??
_voce ainda ouve os gritos?
Paulo olhou para o lado. queria poder ouvir os vizinhos brigando, os jovens chutando lixeiras no caminho de volta pra casa, mas não havia som. era difícil até mesmo ouvir sua respiração. um chiado que vinha do fundo e gritava com dor ao chegar em suas cordas vocais. o grito morria antes mesmo de passar por seus dentes. só existia o frio e o silêncio.
"os gritos... eles nunca foram embora...acho que nunca irão. talvez se eu não tivesse sido tão covarde..."
_acho que nunca foram embora.
_sabe que nunca irão?
_não consigo dormir desde que Cisco se foi... sonho com o menino sendo devorado. não consigo fazer nada. só fico parado escondido enquanto ele é comido vivo... olhando pra mim, chamando pelo pai e por mim. acordo chorando, gritando por perdão, pedindo para que essa vida chegue logo ao fim. mas o dia sempre vem. quente. barulhento. cheio de movimentaçao em volta de meu mundo que gira em anti-horario.
Raz era jovem. tinha o rosto magro, com barba malfeita e que crescia em pontos separados. os olhos lembravam os olhos de um cão traiçoeiro, sorrindo entre os dentes amarelos de nicotina. seu hálito lembrava poeira muito seca, que faz tossir, engasgar e lacrimejar. ele se lavantou, olhou para o céu e pareceu contar algumas estrelas antes de olhar novamente para Paulo. colocou a camisa para dentro da calça, coçou a cabeça e piscou.
_estarei em sua casa te esperando. demore o tempo que achar necessário. se achar que deve voltar atrás, nunca mais entre ali. vá para longe, tente esquecer sua dor e seu medo. mas saiba que nos encontraremos novamente, e nesse dia, não me verá em trajes que alimentem sua tranquilidade.
[ foto de Marta Rickes]
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
sexta-feira, 19 de outubro de 2007

os dois homens se aproximaram da mulher. em suas mãos brilhava a arma que já havia feito deitar tantos corpos. ela estava pronta para berrar e banhar o solo com o sangue de mais um desconhecido.
quinta-feira, 23 de agosto de 2007

...dizem que os pecados dos pais passam para os filhos...
a moça de camisa azul olhava para as arvores passando velozes pela janela do ônibus.
pensava no marido voltando de outro lugar. estaria também observando as arvores que passam velozes? tão velozes quanto os dias bons de suas vidas. tão velozes quanto suas noites acordados.
seu medo de ficar sozinha vivia chocando-se com o medo de envelhecer em desgosto. sem poder ter filhos, sem ter um companheiro de verdade.
ligou o rádio, fechou os olhos e começou a cantar.
ele lia sobre engenharia genética. as aplicações da hibridação de Southern, quando tomou um empurrão do lado direito.
_desculpe.
_tudo bem. acontece.
_sobre o que ta lendo?
_genética. fim de curso.
_muito legal. onde faz o curso?
_na federal.
_eu terminei no ano passado o curso de letras.
_legal.
_se estiver incomodando, me fala.
_não... tudo bem.
_qual é o seu nome?
_luiz.
_nome bonito. forte. prazer, alex.
ele voltou a abrir a revista maldizendo a estratégia usada pelo cara para se aproximar.
maldizendo o perfume adocicado que ficou em sua camisa no momento da trombada. a lembrança dos olhos devoradores e da mão pesada em seu ombro enquanto a voz mansa pedia desculpas.
pediu licença e se afastou. sentou-se nos degraus da porta do onibus, e minutos depois precisou se levantar para ver alex passando e se despedindo com um sorriso triste.
descendo do onibus, olhou para o céu. lembrou-se de muitos anos antes, quando conseguia ver um oceano de estrelas. seus formatos, suas constelações.
deitava-se na calçada da casa de seus pais e ao lado de seu irmão ficava tentando contar as maiores, mas sem apontar, porque diziam que apontar e contar estrelas provocava o nascimento de verrugas. eles morriam de medo.
começou a caminhar, sentindo as pedras do chão denunciando suas formas sob a sola fina de seu sapato. vira os homens colocando cada uma delas, um trabalho de perfeição e suor. eram pessoas humildes e felizes. faziam o que gostavam de fazer, e com um talento que beirava a perfeição.
parou novamente. respirando fundo em meio ao frio, tentava criar coragem para se dirigir ao ponto mais alto da catedral.
[foto de leonardo costa braga]
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
_tudo certinho?
quinta-feira, 5 de julho de 2007
sempre fui parte de um mundo onde o que fazemos importa mais aos outros do que a nós mesmos enquanto sonhamos sorrimos cantamos choramos caímos ou subimos pelas paredes as palavras nos faltam para dizar o quanto importa a opiniao alheia que na verdade jamais está realmente alheia ao que fazemos ou nao jamais esta alheia ao que possamos fazer ou querer esse mundo do qual faço parte nos separa de forma brutal eu que não quero ser parte dele voce que quer ser parte de mim mas está preso aos desejos alheios de que tudo e todos sejam submissos de um modelo falido de vida e vivência somos neutros quando somos um somos o mesmo grito o mesmo gozo e o mesmo salivar mas nos separa a força como expomos o desejo de peito aberto desafiando o tudo eu sou a lâmina voce a carne sou a dor voce o impacto tão longe tão perto seu olhar me faz puta lançada de encontro ao muro sem piedade ou pagamento gostando de cada latejar e cada doer ainda assim te importa o quanto vou te fazer diferente num mundo que não é o meu tampouco chegou um dia a ser nosso
sexta-feira, 22 de junho de 2007
_seja educada e responda a pergunta.
_foda-se. me solta!
_ou até mesmo o que fiz a seu colega. creio que ele nao tenha gostado tanto do que injetei em seu braço musculoso.
