terça-feira, 13 de novembro de 2012
Acordou assustado pela manhã.
Ao levantar da cama, bateu a cabeça numa coisa.
Era uma coisa antiga, que não via desde os tempos em que dependia do bom humor dos pais para conseguir dinheiro suficiente para sair num fim de semana.
De repente, ela estava ali, pendurada sobre sua cama inexplicavelmente a balançar, movida pela força motriz de sua cabeçada.
Saiu intrigado e fervendo a memória em busca de um motivo para aquilo estar ali.
Ao entrar no banheiro, havia uma coisa diferente.
Também no corredor para a cozinha, na cozinha, sala e garagem.
Uma brincadeira de meu irmão, pensou.
Não havia nada de diferente com o carro, mas seguiu para o trabalho ainda triturando pensamentos em busca de uma lógica.
Trabalhou como trabalharia num dia comum.
Comentou no almoço sobre as coisas que reapareciam. Riu. Riram.
Voltou para casa amaldiçoando o excesso de carros. O mau cheiro de combustível. A má educação de todas as pessoas.
Parou na porta de casa para que o portão se abrisse.
Abriu o porta malas para pegar sua pasta, e inacreditavelmente, deu de cara com dezenas de coisas ali, soterrando tudo.
Desistiu de pegar a pasta e abriu a porta de casa, que estava meio presa por alguma coisa do outro lado.
Era um amontoado de coisas que o obrigaram a empurrar forte para que a porta abrisse, derrubando tudo numa barulheira caótica.
Olhava perplexo para tudo aquilo e se recusava a acreditar que estava acontecendo. Centenas de coisas suas estavam surgindo sem qualquer explicação ou motivo.
Ou havia um motivo?
Pensou por alguns segundos.
Não.
Era algo insano. Incabível de se pensar a respeito.
Tudo que havia possuído na vida, e que havia deixado de fazer parte dela estava de volta, como um filme antigo em que tudo surge de repente num recorte de película.
As coisas iam aumentando, ocupando cômodos, espaços, se amontoando sobre as outras como uma avalanche ameaçadora que se aproximava esmagando tudo que estava abaixo.
Encostou-se na parede espantado e sem reação.
Estava nervoso.
Suava muito quando estava assim, e suas mãos pregavam, incomodando.
Sentiu seus dedos tocarem algo.
Uma coisa pequena em seu bolso direito.
Tirou a mão fechada dali, e abriu lentamente para ver uma coisa brilhante que o fez sentir um frio subir por sua coluna e arrepiar os cabelos da nuca.
Todas as coisas estavam ali de volta.
A maioria carregava sua inutilidade esmagadora como uma horda desesperada, mas algumas coisas que não deviam ter passado em brancos tempos, passaram.
E hoje não havia tempo sequer para chorar por elas.
domingo, 14 de outubro de 2012
'Queria ter te conhecido em outro tempo. Em outro lugar, talvez.'
Ela havia começado a escrever, mas parou com a caneta suspensa, gotejando reticências.
Não havia muito mais do que aquilo que a frase gritava.
Era o desejo em seu estado mais animal.
Um resumo de seu desejo mais intenso.
Olhou pela janela, e o movimento das ruas não limpavam de seus olhos as lembranças dos últimos dias.
O corredor escuro. O carro quente e o beijo com gosto de cerveja.
Queria ter chegado até o fim, sentido a pele nua sobre a sua se arrepiando e espalhando gotas de suor, o dente cravado em sua carne entre sussurros sem sentido, as mãos que buscavam desesperadas um lugar onde deixar suas digitais, para que o corpo as fizesse querer a todo momento.
Se fosse em outro tempo, o teria roubado para si. Desafiaria mil tempestades para que pudesse andar a seu lado pela eternidade do quanto vivessem.
Era uma noite fria.
Estava sozinha mais uma vez, absorvendo uma solidão a dois, onde duas almas estranhas passam o tempo todo voando em direção aos próprios sonhos.
'queria ter te conhecido em outro tempo. em outro lugar, talvez.'
Ligou a tv e sentiu a vida se derreter diante de si.
Lenta.
Em saltos luminosos e psicodélicos dos fragmentos da realidade enlatada que chegavam eletricamente aos seus olhos.
Ela havia começado a escrever, mas parou com a caneta suspensa, gotejando reticências.
Não havia muito mais do que aquilo que a frase gritava.
Era o desejo em seu estado mais animal.
Um resumo de seu desejo mais intenso.
Olhou pela janela, e o movimento das ruas não limpavam de seus olhos as lembranças dos últimos dias.
O corredor escuro. O carro quente e o beijo com gosto de cerveja.
Queria ter chegado até o fim, sentido a pele nua sobre a sua se arrepiando e espalhando gotas de suor, o dente cravado em sua carne entre sussurros sem sentido, as mãos que buscavam desesperadas um lugar onde deixar suas digitais, para que o corpo as fizesse querer a todo momento.
Se fosse em outro tempo, o teria roubado para si. Desafiaria mil tempestades para que pudesse andar a seu lado pela eternidade do quanto vivessem.
Era uma noite fria.
Estava sozinha mais uma vez, absorvendo uma solidão a dois, onde duas almas estranhas passam o tempo todo voando em direção aos próprios sonhos.
'queria ter te conhecido em outro tempo. em outro lugar, talvez.'
Ligou a tv e sentiu a vida se derreter diante de si.
Lenta.
Em saltos luminosos e psicodélicos dos fragmentos da realidade enlatada que chegavam eletricamente aos seus olhos.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
O último dia
O impacto aconteceu enquanto ele ainda dormia.
Nao havia acreditado em mais uma notícia sobre o fim de tudo, no entanto sentiu a garganta se apertar e correu para a rua e entre tantas pessoas para assistir no céu um misto de luz, sombra e cinzas que se espalhavam ao leste.
Os ventos iam e vinham entre rajadas violentas que arrancavam fiações dos postes, alimentando a escuridão em que todos se encontravam, e seguiam iluminados pelos clarões no céu, lanternas e faróis de alguns automóveis.
Olhou para seu aparelho celular. Não havia sinal.
Correu para o carro e deu a partida no motor, seguindo em direção a casa onde ela morava. Pessoas fugiam, rezavam, arrombavam lojas e casas pelo caminho. Alguns tentavam roubar seu carro para fugir. Mas fugir para onde? A órbita da lua havia mudado. Seus fragmentos atingiriam a terra em poucas horas e era questão de tempo até que o vazio e o silêncio se instalassem.
Precisou deixar o carro a alguns quilômetros de distancia e prosseguiu correndo.
Reconheceu sua silhueta entre as outras pessoas na rua e caminhou para perto.
Ela estava com os cabelos soltos e os pés descalços.
Sorriu quando o viu chegando.
'não tinha sinal para te ligar', disse entre o abraço, bem baixo, bem perto do ouvido, bem a beira do fim de tudo.
Nao havia acreditado em mais uma notícia sobre o fim de tudo, no entanto sentiu a garganta se apertar e correu para a rua e entre tantas pessoas para assistir no céu um misto de luz, sombra e cinzas que se espalhavam ao leste.
Os ventos iam e vinham entre rajadas violentas que arrancavam fiações dos postes, alimentando a escuridão em que todos se encontravam, e seguiam iluminados pelos clarões no céu, lanternas e faróis de alguns automóveis.
Olhou para seu aparelho celular. Não havia sinal.
Correu para o carro e deu a partida no motor, seguindo em direção a casa onde ela morava. Pessoas fugiam, rezavam, arrombavam lojas e casas pelo caminho. Alguns tentavam roubar seu carro para fugir. Mas fugir para onde? A órbita da lua havia mudado. Seus fragmentos atingiriam a terra em poucas horas e era questão de tempo até que o vazio e o silêncio se instalassem.
Precisou deixar o carro a alguns quilômetros de distancia e prosseguiu correndo.
Reconheceu sua silhueta entre as outras pessoas na rua e caminhou para perto.
Ela estava com os cabelos soltos e os pés descalços.
Sorriu quando o viu chegando.
'não tinha sinal para te ligar', disse entre o abraço, bem baixo, bem perto do ouvido, bem a beira do fim de tudo.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Insetos em volta da lampada
Ele esteve a centimetros de seus olhos. Margeando a pele que fazia seus dedos se fecharem num toque desesperado e mudo. Envolto no perfume de seus cabelos em debandada, respirava para sempre. Queria chegar mais perto. Tocar de leve seus braços, e sem dizer palavra, tomar para si o beijo que teimava em não nascer.
O sangue em suas veias vibrava como um galho frágil combatendo o vento. Gelava tudo o que tocava, fazia pensar de novo em sua pele. Que transpirava o desejo de que fosse tocada.
Mas não houve tempo para que a verdade chegasse aos olhos.
Não deveria, ele sabia.
Mas queria desde o primeiro instante. Olhou para o proprio ombro, onde havia pousado um inseto irritante. Olhou de novo em sua direção.
Ela se virou.
Levou consigo o perfume e a pele. Os cabelos e seu sorriso.
Sua boca, e mil promessas de um sonho de olhos fechados.
O sangue em suas veias vibrava como um galho frágil combatendo o vento. Gelava tudo o que tocava, fazia pensar de novo em sua pele. Que transpirava o desejo de que fosse tocada.
Mas não houve tempo para que a verdade chegasse aos olhos.
Não deveria, ele sabia.
Mas queria desde o primeiro instante. Olhou para o proprio ombro, onde havia pousado um inseto irritante. Olhou de novo em sua direção.
Ela se virou.
Levou consigo o perfume e a pele. Os cabelos e seu sorriso.
Sua boca, e mil promessas de um sonho de olhos fechados.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Haviamos cavalgado durante horas sem parar. Os cavalos suados transformavam o ar gelado ao nosso redor em pequenas nuvens de vapor. A todo momento algum olhar desesperado buscava nossos perseguidores. O medo estava cavalgando a nosso lado, gargalhando de nosso silêncio cúmplice.
Se agarrando a nossa carne como um animal possuído e faminto.
Eles continuavam a vir. Sem descanso. Sem pausa. Era como se nosso desespero deixasse uma trilha brilhante que podia ser seguida através da mais impenetrável das noites.
Sons estranhos escapavam das arvores ao redor. Lamúrios dolorosos. Passos. Animais que fugiam correndo e voando. Toquei instintivamente a arma em minha cintura. Havia feito isso mil vezes nas ultimas horas.
Duas balas. Repeti mais de mil vezes.
Duas balas.
Éramos três.
Um que sangrava aos jatos de um talho nas costelas. Era um espectro a beira da escuridão montado num cavalo de olhos muito abertos, que lutava para se manter em pé. Fugindo. Exigindo o impossível de seus músculos e ossos.
Outro era um homem vigoroso e duro. Carregava consigo um facão enorme e um rifle sem munição que parecia funcionar como um amuleto ao qual se agarrar em busca de conforto.
Perdera o olho direito cerca de sete horas atrás, e de seus gritos restou apenas o vazio de uma órbita.
Eu queria parar. Precisava descansar. Não sentia mais minhas pernas, e meus dedos da mão esquerda estavam negros e queimavam. Mas eles continuavam a vir. Implacavelmente. Cruéis como um pesadelo.
Duas balas.
Descendo um caminho de cascalho meio congelado o espectro caiu de sua montaria fazendo cair também o outro homem.
Os cavalos não se levantaram.
Haviam desistido de lutar, olhando para o nada enquanto esperavam que tudo se apagasse.
Parei cerca de cinco metros a frente desejando com toda força da alma seguir em frente até que também meu cavalo caísse. Até que não houvesse mais força em meu corpo e me entregasse a escuridão que vinha veloz.
Fechei os olhos com força e desmontei me amaldiçoando.
Meu cavalo tremia e continuava envolto em sua nuvem. O soltei para que seguisse caminho, mas ele continuou ali com os olhos vidrados. Toquei seu focinho. Agradeci em silêncio e dei meia volta.
O primeiro homem estava quase morto. Vapores saíam descontrolados e descompassados de sua boca. Seu pulmão parecia ser a única coisa de seu corpo devastado que lutava para manter-se funcionando.
O segundo sangrava pela boca e nariz, segurando o cabo do facão desembainhado.
Olhei nos olhos e parei a seu lado. Pensei em levar a cintura minha mão em busca de minha arma, mas ela ja estava ali.
Duas balas.
Repeti em meio a uma névoa de vapor.
Duas balas.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Sonhei que havia morrido.
O mundo, ou o que restou dele para mim era visto como pelas lentes de uma fisheye.
Parte desfocado por todos os cantos, parte estourado de luz ou pela falta dela.
Muitas vozes.
Alguma música.
Eu havia morrido. E carros passavam despejando seus sons pela janela.
Lembrei - no sonho - que já havia sonhado com isso antes, mas não dessa forma.
Me percebia numa espécie de escritório.
Havia uma moça numa mesa.
Um senhor ao telefone próximo a uma porta.
Papéis.
Desconhecidos.
Indiferentes.
Mecânicos.
Vazando por um estreito campo de visão, meu mundo era um borrão desesperador de inércia.
Em qual HD ele está? Ouvi alguém perguntar.
Voz de mulher. Aparentemente jovem.
Sentou-se bem na minha frente, colocou fones de ouvidos, mão no queixo, cotovelo na mesa e olhos numa tela.
Eu corria num terreno gramado. Tentava pegar alguns patos aos tropeços. Caí. Olhei para trás e sorri de volta para meu pai que me encorajava a levantar.
Lutava para tirar sons de uma flauta. Meus amigos de infância debochavam dos sons que poluíam a roda de conversa.
Chegava em minha rua exibindo um LP da Legião Urbana. O primeiro contato que tivemos com o rock. E que salvou nossas almas adolescentes.
Sofria absurdamente por garotas inalcançáveis.
Aprendia música.
Conhecia e ancorava novos amigos.
Aprendia inverdades.
Roubava poesia para impressionar as meninas bonitas.
Bebia pela rua voltando da escola.
Abraçava meu cachorro fiel.
Pescava com meu pai.
Trabalhava.
Crescia.
Errava.
Perdia.
Sonhava.
Escolhia caminhos certos e errados.
Voltava.
Partia.
Ensinava.
Comemorava.
Numa maternidade, colocava um fone no ouvido de meu filho tocando Milton para que a primeira música de sua vida fosse algo feito com alma.
Sofria.
Voltava a caminhar.
De repente, escuridão.
Talvez fosse o sonho dando lugar a uma noite que me dizia estar vivo.
Em qual HD eu estava?
O mundo, ou o que restou dele para mim era visto como pelas lentes de uma fisheye.
Parte desfocado por todos os cantos, parte estourado de luz ou pela falta dela.
Muitas vozes.
Alguma música.
Eu havia morrido. E carros passavam despejando seus sons pela janela.
Lembrei - no sonho - que já havia sonhado com isso antes, mas não dessa forma.
Me percebia numa espécie de escritório.
Havia uma moça numa mesa.
Um senhor ao telefone próximo a uma porta.
Papéis.
Desconhecidos.
Indiferentes.
Mecânicos.
Vazando por um estreito campo de visão, meu mundo era um borrão desesperador de inércia.
Em qual HD ele está? Ouvi alguém perguntar.
Voz de mulher. Aparentemente jovem.
Sentou-se bem na minha frente, colocou fones de ouvidos, mão no queixo, cotovelo na mesa e olhos numa tela.
Eu corria num terreno gramado. Tentava pegar alguns patos aos tropeços. Caí. Olhei para trás e sorri de volta para meu pai que me encorajava a levantar.
Lutava para tirar sons de uma flauta. Meus amigos de infância debochavam dos sons que poluíam a roda de conversa.
Chegava em minha rua exibindo um LP da Legião Urbana. O primeiro contato que tivemos com o rock. E que salvou nossas almas adolescentes.
Sofria absurdamente por garotas inalcançáveis.
Aprendia música.
Conhecia e ancorava novos amigos.
Aprendia inverdades.
Roubava poesia para impressionar as meninas bonitas.
Bebia pela rua voltando da escola.
Abraçava meu cachorro fiel.
Pescava com meu pai.
Trabalhava.
Crescia.
Errava.
Perdia.
Sonhava.
Escolhia caminhos certos e errados.
Voltava.
Partia.
Ensinava.
Comemorava.
Numa maternidade, colocava um fone no ouvido de meu filho tocando Milton para que a primeira música de sua vida fosse algo feito com alma.
Sofria.
Voltava a caminhar.
De repente, escuridão.
Talvez fosse o sonho dando lugar a uma noite que me dizia estar vivo.
Em qual HD eu estava?
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Gota a gota, a chuva formava uma harmonia inconstante, trespassada pelos pneus dos carros que cortavam a rua escura.
Sentada em silêncio ela esperava. Juntando em pedaços o tempo que passava.
Amarrando o enredo de um caos particular, onde dançava de braços abertos.
Olhando para o céu que girava mil estrelas sem fim.
Que fazia sorrir por estar tão perto de fugir aos olhos, esperando e desejando o toque.
O impacto incontrolado de um perfume desconhecido, carregado de fragrâncias que a fariam divagar em segundos toda liberdade que os sonhos permitiam.
Voaria.
E do alto veria seus olhos a espera de um ponto de fuga.
Um instável movimento do mundo que faria toda órbita na qual navegava mudar de direção.
Voaria em círculos.
Gritando para que as ondas se acalmassem. Que o tremor passasse e sua presença fosse o bastante para acalmar o peito em pedaços.
Pedaços que se desfizeram em gotas ao vê-lo chegar.
Escorreram por seu corpo ao encontro da chuva e preencheram tudo ao redor, como se fosse a própria noite feita de seus mais desesperados desejos.
Ele sorriu com os olhos.
Vinha devagar, como se devorasse com a alma cada parte daquele momento.
Crescia. Trazendo consigo tudo que seria capaz para fazê-la desprender-se desse mundo e fazer com que seus corpos fossem apenas um.
Não havia vazio para onde escapar do momento.
Tudo ao redor era noite.
Negra entre milhões de estrelas.
Palpável.
Visceral.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
74
Ela despertou com as mãos trêmulas, sentindo o coração bater tão forte que latejava a cabeça. Ficou ali um tempo deitada entre seus três travasseiros preferidos, com os quais se cercava todas as noites.
Sorriu olhando para o nada.
Ela estava novamente sentada no banco enquanto aguardava sua senha ser chamada para atendimento.
O número 74 surgiu no letreiro digital e ela se encaminhou para o guichê 12. O atendente pegou sua senha e sem delongas prosseguiu com todo o procedimento.
Por um tempo inacreditável o toque dos dedos no momento da entrega da senha permanecia em suas mãos, subindo por seus braços e ombro. A cada piscar de olhos invadia mais e mais cada centímetro de pele. Arrepiando o corpo, pressionando suas costelas, como uma presença invisível controlada por sua vontade. Doeram-lhe os seios e a nuca, enquanto a sensação continuava a dominar seu corpo.
Ouviu seu nome ser chamado.
Repetido.
Era o atendente perguntando sobre um endereço para entrega.
O odiou por um segundo.
Amou desesperadamente cada uma das palavras que informavam algo que nem mesmo importava mais.
Quis toca-lo novamente, mas ouviu um agradecimento de despedida que não deixava margem para qualquer tentativa.
'Não'.
Levantou-se e caminhou com dificuldade até a porta.
Não conseguiu atravessar a rua. Parou ali bem na entrada, atrapalhando o tráfego daqueles que iam e vinham. Um segurança se aproximou. Uma moça perguntou se estava tudo bem.
Ela apenas olhava para dentro. No guichê 12 trabalhavam alheias a seu ardor as mãos que lhe fizeram voar.
O atendente percebeu a movimentação e se levantou para olhar.
Era a moça que havia atendido.
Ela o viu se aproximar vestido de preto e azul. Carregando suas mãos em sua direção. Levando para perto aqueles olhos que da indiferença anterior mostravam agora outra faceta de uma alma.
'O que houve'? Ele perguntou.
Ela não sabia se poderia responder. Sua boca estava seca e tremia. Suas pernas sustentavam pequenos espasmos que subiam cada vez mais fortes intercalados por uma respiração profunda. Deu um passo a frente e deixou sua bolsa no chão.
Tocou o braço do atendente e fechou os olhos.
Naquele momento o mundo era um sol com mil fagulhas. Ofuscante. Ensurdecedor. Inacreditável.
Sorriu olhando para o nada.
Ela estava novamente sentada no banco enquanto aguardava sua senha ser chamada para atendimento.
O número 74 surgiu no letreiro digital e ela se encaminhou para o guichê 12. O atendente pegou sua senha e sem delongas prosseguiu com todo o procedimento.
Por um tempo inacreditável o toque dos dedos no momento da entrega da senha permanecia em suas mãos, subindo por seus braços e ombro. A cada piscar de olhos invadia mais e mais cada centímetro de pele. Arrepiando o corpo, pressionando suas costelas, como uma presença invisível controlada por sua vontade. Doeram-lhe os seios e a nuca, enquanto a sensação continuava a dominar seu corpo.
Ouviu seu nome ser chamado.
Repetido.
Era o atendente perguntando sobre um endereço para entrega.
O odiou por um segundo.
Amou desesperadamente cada uma das palavras que informavam algo que nem mesmo importava mais.
Quis toca-lo novamente, mas ouviu um agradecimento de despedida que não deixava margem para qualquer tentativa.
'Não'.
Levantou-se e caminhou com dificuldade até a porta.
Não conseguiu atravessar a rua. Parou ali bem na entrada, atrapalhando o tráfego daqueles que iam e vinham. Um segurança se aproximou. Uma moça perguntou se estava tudo bem.
Ela apenas olhava para dentro. No guichê 12 trabalhavam alheias a seu ardor as mãos que lhe fizeram voar.
O atendente percebeu a movimentação e se levantou para olhar.
Era a moça que havia atendido.
Ela o viu se aproximar vestido de preto e azul. Carregando suas mãos em sua direção. Levando para perto aqueles olhos que da indiferença anterior mostravam agora outra faceta de uma alma.
'O que houve'? Ele perguntou.
Ela não sabia se poderia responder. Sua boca estava seca e tremia. Suas pernas sustentavam pequenos espasmos que subiam cada vez mais fortes intercalados por uma respiração profunda. Deu um passo a frente e deixou sua bolsa no chão.
Tocou o braço do atendente e fechou os olhos.
Naquele momento o mundo era um sol com mil fagulhas. Ofuscante. Ensurdecedor. Inacreditável.
terça-feira, 22 de maio de 2012
Café
Quando ela surgiu, eu havia acabado de pedir dois cafés.
Um cremoso, com um toque de chocolate meio amargo.
O meu, puro. Muito forte.
Me olhou com surpresa, dando a certeza de uma palavra perdida entre os lábios. Uma palavra travada pelo anseio de contar cada célula de seus sonhos.
Voltei para a mesa com aquela visão impregnada em meus olhos até que olhei para aquela que me esperava.
Não havia mais coração em meu peito, nem alma aprisionada em minha carne.
Tudo voava ao redor, me olhando do alto, querendo se partir em tres pedaços.
Queria voltar ao balcão e olhar de perto aqueles olhos que me perseguiam em mil sonhos. Beijar seu sorriso vermelho de olhos fechados.
Ao longe ela nos olhava sem ver, com a mesma intensidade que eu ali vivia sem insistir.
Perdido num dia nublado em que corria sem fim ao encontro de portas que sempre se fechavam, desejei mudar o tempo.
Pedir perdão e me levantar.
Deixar para tras passado e presente.
Desafiar o medo que estrangulava com dedos de pedra.
E se aquele beijo vermelho não me trouxesse a paz que eu esperava?
Por outro lado, e se aquele olhar de lago fosse a coisa mais próxima do paraíso onde alguma vez me encontraria?
Olhei novamente em sua direção. Em seu lugar, um homem pedia um expresso enquanto contava moedas na palma das mãos.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Poesia
Ele havia acordado inúmeras vezes durante a madrugada. Assaltado por uma ansiedade devoradora, despertava sobressaltado a olhar para a janela negra de tanta noite.
As cinco da manhã já se encontrava de olhos muito abertos, acompanhando os vincos do teto que mudavam de posição conforme a luz escorria para dentro do quarto, brotada do amanhecer lento.
Na tarde anterior, uma amiga de longa data sugeriu entre sorrisos: voce deveria vender poesia aos necessitados de coração.
Sentou-se numa praça do centro da cidade sob a sombra de um antigo flamboyant portando papéis perfumados com aromas de erva-doce e canela, duas canetas de escrita fina, com corpo acabado em madeira escura apoiados numa mesa desmontável outrora usada para apoiar livros e refrescos na varanda de casa.
Em seu peito, um crachá pendurado por uma corda branca que sustentava o dizer POESIA.
Está vendendo poemas? Perguntou a primeira moça.
Faz tempo está amando? Sorriu o velho.
Faz tempo. Escreve algo pra mim?
Pra você ou para aquele que voce ama?
Para os dois.
E ele escreveu. Sobre mãos que se tocam. Olhares que se procuram. Peles que se atraem.
O preço era o valor da poesia. Somente quem a tivesse na alma naquele momento poderia definir.
Ela pagou. Sorriu. E se foi sem dizer palavra.
Outros pararam para ver.
Alguns se aproximaram.
Alguns pediram conselhos.
Não haviam conselhos. Apenas poesia.
Quero uma poesia para alguém que nunca mais vi.
Se nunca mais viu, pretende entregar?
Não.Vou guardar pra mim e ler sempre que me doer a saudade.
E ele escreveu. Sobre mistérios que dedicavam aos sonhos, sobre tantas léguas que levam e nunca mais trazem de volta. Sobre o céu que vê, o sol que seca, a memória que sussurra lembranças dos tempos que dois eram o respirar de um.
Os papéis se acabaram.
Tem uma papelaria logo ali. Alguem falou.
A poesia tem o momento certo para acabar. Sorriu o poeta para as pessoas.
Colocou no bolso da frente as canetas de ponta fina com acabamento em madeira escura e dobrou a mesa dobrável.
Despediu-se com um aceno da mão enrugada e caminhou de volta para casa com o coração em pedaços.
As cinco da manhã já se encontrava de olhos muito abertos, acompanhando os vincos do teto que mudavam de posição conforme a luz escorria para dentro do quarto, brotada do amanhecer lento.
Na tarde anterior, uma amiga de longa data sugeriu entre sorrisos: voce deveria vender poesia aos necessitados de coração.
Sentou-se numa praça do centro da cidade sob a sombra de um antigo flamboyant portando papéis perfumados com aromas de erva-doce e canela, duas canetas de escrita fina, com corpo acabado em madeira escura apoiados numa mesa desmontável outrora usada para apoiar livros e refrescos na varanda de casa.
Em seu peito, um crachá pendurado por uma corda branca que sustentava o dizer POESIA.
Está vendendo poemas? Perguntou a primeira moça.
Faz tempo está amando? Sorriu o velho.
Faz tempo. Escreve algo pra mim?
Pra você ou para aquele que voce ama?
Para os dois.
E ele escreveu. Sobre mãos que se tocam. Olhares que se procuram. Peles que se atraem.
O preço era o valor da poesia. Somente quem a tivesse na alma naquele momento poderia definir.
Ela pagou. Sorriu. E se foi sem dizer palavra.
Outros pararam para ver.
Alguns se aproximaram.
Alguns pediram conselhos.
Não haviam conselhos. Apenas poesia.
Quero uma poesia para alguém que nunca mais vi.
Se nunca mais viu, pretende entregar?
Não.Vou guardar pra mim e ler sempre que me doer a saudade.
E ele escreveu. Sobre mistérios que dedicavam aos sonhos, sobre tantas léguas que levam e nunca mais trazem de volta. Sobre o céu que vê, o sol que seca, a memória que sussurra lembranças dos tempos que dois eram o respirar de um.
Os papéis se acabaram.
Tem uma papelaria logo ali. Alguem falou.
A poesia tem o momento certo para acabar. Sorriu o poeta para as pessoas.
Colocou no bolso da frente as canetas de ponta fina com acabamento em madeira escura e dobrou a mesa dobrável.
Despediu-se com um aceno da mão enrugada e caminhou de volta para casa com o coração em pedaços.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Há um vício que desenvolvi por você.
Um imutável desejo de ligar e ouvir sua voz.
Ligar e dizer que liguei porque te quero pra mim.
Há um desejo que nunca passou longe demais.
Um desejo de sorrir o seu sorriso ao me ver chegar.
Explorar cada fragmento de arrepio que se esconde entre seus cabelos.
Cada pedaço de perfume que me faz querer te ter.
É um fechar de olhos no meio da chuva.
É como abrir os braços para se misturar ao vento.
Há uma lembrança que espero nunca perder.
Guardada entre os dedos e enrolada para que nunca possa cair.
Nela somos dois se olhando e querendo um mesmo beijo.
Somos um que se encontra sorrindo de seus próprios desejos.
Há um sonho que mil vezes se repete.
Nele te tenho ao meu lado sorrindo.
Seu sorriso se desfaz a meio mundo de distância.
Te perco entre mil rostos. Sei qual deles é o seu, mas não consigo mais caminhar em sua direção.
Há um vício que desenvolvi por você.
Um imutável desejo de te querer.
E continuo querendo apesar do tempo e da verdade.
Um imutável desejo de ligar e ouvir sua voz.
Ligar e dizer que liguei porque te quero pra mim.
Há um desejo que nunca passou longe demais.
Um desejo de sorrir o seu sorriso ao me ver chegar.
Explorar cada fragmento de arrepio que se esconde entre seus cabelos.
Cada pedaço de perfume que me faz querer te ter.
É um fechar de olhos no meio da chuva.
É como abrir os braços para se misturar ao vento.
Há uma lembrança que espero nunca perder.
Guardada entre os dedos e enrolada para que nunca possa cair.
Nela somos dois se olhando e querendo um mesmo beijo.
Somos um que se encontra sorrindo de seus próprios desejos.
Há um sonho que mil vezes se repete.
Nele te tenho ao meu lado sorrindo.
Seu sorriso se desfaz a meio mundo de distância.
Te perco entre mil rostos. Sei qual deles é o seu, mas não consigo mais caminhar em sua direção.
Há um vício que desenvolvi por você.
Um imutável desejo de te querer.
E continuo querendo apesar do tempo e da verdade.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Xurek
''Era uma vez dois irmãos. Mas eles eram irmãos que eram anões.''
Piquinininhos?
É. Piquinininhos.
''Um dia um dos irmãos foi escalar uma montanha muito alta. Muito muito alta.
Ele andou muitas horas no meio do mato e das pedras. O pé começou a doer, ele ficou com muita muita sede e decidiu procurar um lugar para beber água.
Olhou por todos os lados e não encontrou nada.
Como ele estava muito cansado, sentou numa pedra.
De repente começou a ouvir um barulho baixinho de água caindo.
Ele se levantou de um pulo e ouviu melhor. Ouviu, olhou, pensou e começou a seguir a direção do som.
Então chegou numa cachoeira gigantona, com muita água pra beber e tomar banho. Ele estava com tanta sede que foi tirando a roupa e mergulhou na cachoeira.''
Ele só tava de cueca?
Tava. Só de cueca.
''enquanto nadava, ele ouviu um ronco esquisito.
O que será isso? Ele perguntou e saiu da água para olhar. Então encontrou atras das arvores um dragão dormindo.''
Um dragão de verdade?
É. Grandão.
Cospe fogo?
Cospe, e é bravo.
Voa também?
Voa.
''aí ele viu que do lado do dragão tinha uma cesta cheia de comida. Como o anão tinha muita fome, ele pensou em comer um pouco.''
A comida era só do dragão?
Era.
Mas dragão não come muito?
Come. Mas esse comia pouco porque tava de dieta e tava guardando pra jantar.
Dragão janta???
Claro que janta! E almoça também.
''Então foi andando devagarinho, devagarinho, devagarinho, até chegar perto do dragão.
Enquanto isso, o irmão do anão começou a ficar preocupado e subiu a montanha atrás dele. Só que anão tem a perna curtinha. Então demorava, demorava, demorava.
Quando o anão ia puxando a cesta de comida, o dragão acordou.
Fez cara de bravo e soltou fumaça pelo nariz.
O que você tá querendo? Perguntou para o anão.''
Mas dragão nem fala.
Fala sim.
Não fala! O dragão do Xurek não fala.
Mas o dragão do Xurek é de mentirinha.
Não é. Ele casou com o burro.
O burro também é de mentirinha.
Você tá falando mentira.
Tô não.
Tá sim! Eu tenho o dvd do Xurek e você não tem o dvd do anão!
...
sexta-feira, 9 de março de 2012
inacabado #28
Ela estava decidida a não deixar que dessa vez ele se perdesse entre a multidão.
Ignorou qualquer resquício de fome e começou a esperar.
No horário de costume, lá estava ele se desintegrando entre os outros como um fio de fumaça que se movimenta para dizer que está bem perto do fim.
Num último átimo, ela chamou seu nome.
Ele se virou ainda sorrindo da piada dos amigos e a enxergou linda e ofegante. Seu rosto afogado numa negritude de cabelos desmedidos pelo vento.
Voltou alguns passos e a abraçou forte. Dizendo seu nome completo, como prometeu que o faria.
vamos sair daqui? Ela pediu.
O segurou pela mão e abriu caminho entre os caminhantes.
se fosse num sonho - pensou - eu queria poder voar daqui. chegar ao vazio de qualquer lugar só pra conseguir ouvir sua voz e suas histórias em meio a um silêncio escandaloso.
Mas se sentaram sob uma grande árvore à vista de todos, e de ninguém.
me conta uma história - pediu de novo.
Ele não sabia contar histórias. Gostava de escrevê-las. Olhar para a janela buscando respostas no horizonte ou nos carros que passavam quando lhe faltava o ar. Então lhe sorriu e perguntou o que gostaria de ouvir.
quero te ouvir. Ela disse.
E ele falou. Sobre noites que caem pesadas. As engrenagens que manipulam os improváveis caminhos da vida. Os sons que escapam de mil instrumentos. Sobre as peles que se tocam e os olhos que se veem. Falou do tempo que passa lento andando ao lado da distância e dos aromas dotados de saudade.
De olhos fechados, ela absorvia cada entonação. Sorria para si. Chorava para si. Se abraçava para aplacar todo sentimento, então voltava a respirar.
gostaria de poder dançar com você. Disse.
eu não sei dançar.
não faz mal.
Então se levantou e o pegou pelas mãos.
Dançaram ali, a vista de todos e de ninguém.
Ele devorava cada segundo num viajar nômade entre seus ombros e pescoço. Tocando a pele branca e macia com os labios fechados num ir e vir lento. Sentindo o perfume e os poros que se arrepiavam.
Se aproximou de seus ouvidos. Respirou ali, para que ela soubesse que a estava trazendo lento para dentro de si.
tem algo que você me deve. e quero receber agora.
Ela fechou os olhos.
Sorriu e sentiu sua nuca ser invadida por dedos que se perdiam entre os fios de seus cabelos.
Ignorou qualquer resquício de fome e começou a esperar.
No horário de costume, lá estava ele se desintegrando entre os outros como um fio de fumaça que se movimenta para dizer que está bem perto do fim.
Num último átimo, ela chamou seu nome.
Ele se virou ainda sorrindo da piada dos amigos e a enxergou linda e ofegante. Seu rosto afogado numa negritude de cabelos desmedidos pelo vento.
Voltou alguns passos e a abraçou forte. Dizendo seu nome completo, como prometeu que o faria.
vamos sair daqui? Ela pediu.
O segurou pela mão e abriu caminho entre os caminhantes.
se fosse num sonho - pensou - eu queria poder voar daqui. chegar ao vazio de qualquer lugar só pra conseguir ouvir sua voz e suas histórias em meio a um silêncio escandaloso.
Mas se sentaram sob uma grande árvore à vista de todos, e de ninguém.
me conta uma história - pediu de novo.
Ele não sabia contar histórias. Gostava de escrevê-las. Olhar para a janela buscando respostas no horizonte ou nos carros que passavam quando lhe faltava o ar. Então lhe sorriu e perguntou o que gostaria de ouvir.
quero te ouvir. Ela disse.
E ele falou. Sobre noites que caem pesadas. As engrenagens que manipulam os improváveis caminhos da vida. Os sons que escapam de mil instrumentos. Sobre as peles que se tocam e os olhos que se veem. Falou do tempo que passa lento andando ao lado da distância e dos aromas dotados de saudade.
De olhos fechados, ela absorvia cada entonação. Sorria para si. Chorava para si. Se abraçava para aplacar todo sentimento, então voltava a respirar.
gostaria de poder dançar com você. Disse.
eu não sei dançar.
não faz mal.
Então se levantou e o pegou pelas mãos.
Dançaram ali, a vista de todos e de ninguém.
Ele devorava cada segundo num viajar nômade entre seus ombros e pescoço. Tocando a pele branca e macia com os labios fechados num ir e vir lento. Sentindo o perfume e os poros que se arrepiavam.
Se aproximou de seus ouvidos. Respirou ali, para que ela soubesse que a estava trazendo lento para dentro de si.
tem algo que você me deve. e quero receber agora.
Ela fechou os olhos.
Sorriu e sentiu sua nuca ser invadida por dedos que se perdiam entre os fios de seus cabelos.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
inacabado #14
Ele era bruto como um torrão de pedra que escapa de uma encosta tostada pelo sol.
De poucas e lascinantes palavras. Era um bruto de ação, disso não havia quem duvidasse. A vida trafegava melhor desde que suas mãos de ferro tocaram a garganta flácida do governo. Não era querido, mas respeitado por tamanha competência e vontade ferrenha. Mas houve aquela manhã, onde com um abrir definitivo de olhos o bruto derramou o caos sobre a vida, em baldadas afogantes.
Sentou-se em sua cadeira de governante e mandou chamar rádio televisão internet telégrafo e fofoqueiros.
Falarei - Falou o bruto.
A sala apinhada de gente borbulhava de excitação. Falaria o bruto. Caso raro. Muito raro.
Ele já estava sentado ali, a frente de todos com os olhos baixos, perdido nas linhas secas de Graciliano. Um acessor se aproximou informando que todos os veículos estavam ali. Era hora hde falar.
Tudo bem - ele respondeu fechando lentamente aquelas páginas secas e olhou para frente. Um oceano de olhos lacrimosos e ansiosos por qualquer falha. As falhas vendem mais do que os acertos, sabia ele.
Bom dia - falou olhando para cada rosto ali.
A voz era sempre baixa, calma, decidida.
Olhou para baixo, para o local onde seu paletó creme se misturava a sua camisa branca sem gravata.
Nunca usara uma gravata, exceto quando jovem ao ser obrigado pelo pai, sob ameaças de não participar do maior evento da cidade. Mas, ao conseguir passar pelos portões afrouxou o nó. Cinco minutos depois ela estava dobrada e guardada no bolso esquerdo da calça.
Tenho uma informação para que divulguem. A partir de hoje qualquer tipo de maquiagem está terminantemente proibida. Cirurgias plásticas estéticas estão proibidas.
Como assim? - bradou a repórter enfeitada da terceira fila - voce tem algo contra mulheres ficarem bonitas?
Mulheres não ficam bonitas. Elas são ou não são. É uma simples questão de aceitação. - o bruto olhava com descaso ao redor. Parou os olhos sobre um magro jovem ansioso.
Pergunte, jovem. - falou.
O jovem se levantou. Quis saber da indústria cosmética e seus cifronários prejuízos. Foi informado de que naquele momento todas recebiam informações e verba para que mudassem sua linha de produção. Todos deveriam produzir medicamentos, vacina, alimento, educação.
Absurdo! Berravam alguns. Gargalhadas despejavam outros.
Enlouquecera o bruto - Teimava em afirmar a sociedade.
Teimavam mesmo sabendo que fora um ato de extrema sabedoria.
Saúde e educação no lugar de pós e tinturas? Seria perfeito se não fosse algo do que se discordar.
O povo foi para a avenida. Ficou pelado em protesto. Queimou onibus. Chutou cachorros. Mulheres se tingiram de carvão. Homens passaram a concordar que carvão é belo. As mulheres emburraram. Queriam blush.
É humana a necessidade de se ter a quem reclamar as frustrações.
Muitos viam outros muitos reclamando. Entravam na causa apenas pela oportunidade de ter contra quem guerrear.
O bruto decidiu não mais se pentear. Acordava pior do que havia dormido na noite anterior.
Transformou-se em alvo de atentados. Os jornais faziam charges descabeladas de sua pessoa.
Ele não se importava. Ao décimo quarto mês do plano estavam começando a se encher os estoques de vacinas. O alimento nas prateleiras era vendido a preço de banana. Outros países eram ajudados, pois havia abundancia.
Universidades gratuitas começavam a receber os alunos.
A Era da Verdade. Foi o tema de vestibulares por todo o país.
Existe verdade mais cortante do que um rosto de verdade? Perguntou certa mocinha num videolog. Virou hit.
Conte para seu filho - disse o bruto para seu acessor - que o mundo é um lugar mais honesto sendo monocromático.
Mas o mundo não tem só uma cor, senhor.
Sim. Tem. Apenas a cor única de nossa pele.
Na manhã seguinte o bruto foi encontrado em sua cama.
Sua carta de despedida encerrava o plano, e dizia a próprio punho;
'enfeitem-se. Quando a fome voltar à sua porta, ou a porta de seu amigo, saberás que abrir mão de ilusões para trabalhar por uma realidade é duro, mas nos torna um povo maior.'
De poucas e lascinantes palavras. Era um bruto de ação, disso não havia quem duvidasse. A vida trafegava melhor desde que suas mãos de ferro tocaram a garganta flácida do governo. Não era querido, mas respeitado por tamanha competência e vontade ferrenha. Mas houve aquela manhã, onde com um abrir definitivo de olhos o bruto derramou o caos sobre a vida, em baldadas afogantes.
Sentou-se em sua cadeira de governante e mandou chamar rádio televisão internet telégrafo e fofoqueiros.
Falarei - Falou o bruto.
A sala apinhada de gente borbulhava de excitação. Falaria o bruto. Caso raro. Muito raro.
Ele já estava sentado ali, a frente de todos com os olhos baixos, perdido nas linhas secas de Graciliano. Um acessor se aproximou informando que todos os veículos estavam ali. Era hora hde falar.
Tudo bem - ele respondeu fechando lentamente aquelas páginas secas e olhou para frente. Um oceano de olhos lacrimosos e ansiosos por qualquer falha. As falhas vendem mais do que os acertos, sabia ele.
Bom dia - falou olhando para cada rosto ali.
A voz era sempre baixa, calma, decidida.
Olhou para baixo, para o local onde seu paletó creme se misturava a sua camisa branca sem gravata.
Nunca usara uma gravata, exceto quando jovem ao ser obrigado pelo pai, sob ameaças de não participar do maior evento da cidade. Mas, ao conseguir passar pelos portões afrouxou o nó. Cinco minutos depois ela estava dobrada e guardada no bolso esquerdo da calça.
Tenho uma informação para que divulguem. A partir de hoje qualquer tipo de maquiagem está terminantemente proibida. Cirurgias plásticas estéticas estão proibidas.
Como assim? - bradou a repórter enfeitada da terceira fila - voce tem algo contra mulheres ficarem bonitas?
Mulheres não ficam bonitas. Elas são ou não são. É uma simples questão de aceitação. - o bruto olhava com descaso ao redor. Parou os olhos sobre um magro jovem ansioso.
Pergunte, jovem. - falou.
O jovem se levantou. Quis saber da indústria cosmética e seus cifronários prejuízos. Foi informado de que naquele momento todas recebiam informações e verba para que mudassem sua linha de produção. Todos deveriam produzir medicamentos, vacina, alimento, educação.
Absurdo! Berravam alguns. Gargalhadas despejavam outros.
Enlouquecera o bruto - Teimava em afirmar a sociedade.
Teimavam mesmo sabendo que fora um ato de extrema sabedoria.
Saúde e educação no lugar de pós e tinturas? Seria perfeito se não fosse algo do que se discordar.
O povo foi para a avenida. Ficou pelado em protesto. Queimou onibus. Chutou cachorros. Mulheres se tingiram de carvão. Homens passaram a concordar que carvão é belo. As mulheres emburraram. Queriam blush.
É humana a necessidade de se ter a quem reclamar as frustrações.
Muitos viam outros muitos reclamando. Entravam na causa apenas pela oportunidade de ter contra quem guerrear.
O bruto decidiu não mais se pentear. Acordava pior do que havia dormido na noite anterior.
Transformou-se em alvo de atentados. Os jornais faziam charges descabeladas de sua pessoa.
Ele não se importava. Ao décimo quarto mês do plano estavam começando a se encher os estoques de vacinas. O alimento nas prateleiras era vendido a preço de banana. Outros países eram ajudados, pois havia abundancia.
Universidades gratuitas começavam a receber os alunos.
A Era da Verdade. Foi o tema de vestibulares por todo o país.
Existe verdade mais cortante do que um rosto de verdade? Perguntou certa mocinha num videolog. Virou hit.
Conte para seu filho - disse o bruto para seu acessor - que o mundo é um lugar mais honesto sendo monocromático.
Mas o mundo não tem só uma cor, senhor.
Sim. Tem. Apenas a cor única de nossa pele.
Na manhã seguinte o bruto foi encontrado em sua cama.
Sua carta de despedida encerrava o plano, e dizia a próprio punho;
'enfeitem-se. Quando a fome voltar à sua porta, ou a porta de seu amigo, saberás que abrir mão de ilusões para trabalhar por uma realidade é duro, mas nos torna um povo maior.'
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