quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
amanhã, quando acordarmos, você ainda estará usando os olhos lindos que trouxe hoje para me ver chegar?
vai me abraçar como se dissesse que hoje é o melhor dia para se viver?
vivo sonhando com seu beijo. quero tocar lento sua boca, e te ouvir falar bobagens sem sentido, do tipo que me farão rir durante dias.
quero saber se amanhã, quando acordarmos, eu posso te levar comigo.
te acompanhar correndo louca entre os carros enquanto sorri olhando para trás.
levando consigo a certeza de que nunca vou te deixar correr sem destino.
amanhã, quando o sol nascer, vou segurar a sua mão e te apresentar ao mundo, deixando entrar pelas janelas todas as histórias que o vento possa contar.
para cada uma delas, vamos escolher um sonho que possamos plantar.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
esse é o começo de tudo.
e o fim de um começo.
bem assim. bastante controverso e chocante.
foi assim, excessivamente indiferente que decidi seguir em frente e bater a porta da casa dela.
abriu a porta olhando, querendo perguntar - o que foi?
não perguntou. parou e olhou no olho.
falei eu vim.
ela sabia. tava ali vendo.
encostou na porta e cruzou os braços finos e brancos.
calada.
calada, mas ainda assim me perguntando e daí? não devia ter vindo. não tenho nada para você.
as vezes tem, pensei. mas só pensei, pois não perguntou de verdade.
talvez tivesse se perguntado se ficaria ali parado ou me aproximaria para beijar.
mas não beijaria. iria parar bem perto do rosto, sentindo o creme, perfume, sabonete, halito, cabelos, pulso.
tudo misturado de encontro a mim.
quis contar.
mas e se me enxotasse como se faz com um menino chato?
pensei não sou menino.
as vezes chato.
mas só quando quero.
falei também não. fiquei ali sismando sozinho e só pra mim.
cego de tanto não saber.
esfregando as mãos de nervoso.
olhando pra elas uma vez. olhando pra ela na outra.
vi um meio sorriso na cara.
de mim ou para mim?
- vim te ver.
- só isso?
- é.
- o que tem aí na mão?
- nossa aliança.
- quero não.
- mas eu comprei.
- gastou o salário todo?
- gastei.
- olha pra mim.
- ...
- devolve.
tenha dó, quis falar.
mas engoli. fechei a mão e escondi a aliança.
mentira que gastei o salário todo. andei pensando.
mentira pra fazer ela chorar pensando com dó de mim.
mentira.
ela não vai chorar.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
ela se levantou da cama e pousou os pés em seus chinelos. ficou ali parada, pensando em nada. olhando para os sonhos que não teve. pensou se devia seguir em frente ou voltar pra cama.
apertou os olhos. esticou e abriu os dedos dos pés.
o relógio despertou novamente.
desligou e se levantou abrindo as janelas.
diante do espelho, escovou os dentes olhando para a torneira que deixou aberta.
pensou em molhar o rosto, mas continuou escovando os dentes.
se olhou no espelho e esticou uma mecha dos cabelos cacheados.
não cresceram desde ontem de manhã, pensou.
no rádio Lennon cantava qualquer coisa sobre a paz. isso a fez pensar no condomínio onde mora. seu vizinho de cima era forte candidato a merecer todo tipo e carga e descarga de pensamentos anti-paz que houvessem. mas porque pensava nisso? precisava se vestir. a calça do dia anterior desvalorizava suas pernas - já pensei isso antes, pensou. e a camisa esquentava muito. já pensei nisso antes também, pensou.
de cima da tv, o gato olhava, se lambia e miava com preguiça. não vou trabalhar hoje, disse a ele que respondeu com mais uma lambida na própria costela. descalçou os sapatos e foi até a cozinha.
ao seu lado, ele ia e vinha querendo comida.
serviu.
viu a chuva cair lenta lá fora. tamborilando contra o batente da janela. criando manchas nos vidros.
voltou a seu quarto deixando para trás partes do perfume que havia passado na noite anterior, antes de se deitar.
digitou uma mensagem no celular. enviou.
deitou-se novamente.
fechou os olhos e sentiu a gostosa sensação do corpo agradecendo.
abriu os olhos.
havia se esquecido de tirar a roupa.
quando acordar eu tiro. pensou sorrindo.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
— O Amado Ribeiro está lá embaixo!
— Lá embaixo?
— C o m o c o m i s s á r i o .
— Arubinha, olha. Você vai dizer a esse moleque...
— Está com fotógrafo e tudo!
— Diz a ele, ouviu? Que se ele... Porque ele não me conhece, esse cachorro!
— O famoso Cunha!
— Você?
— Eu.
De repente a luz se apagou.
Ela sentiu um calor se aproximar de seu rosto, se afastou assustada, mas a aproximação era carinhosa, intensa, perfumada.
Uma boca se agarrou a sua boca. Antes que pudesse se afastar mais, sentiu uma mão segurar seus cabelos pela nuca. Foi beijada. Beijou. Só pensava na confusão de sentimentos e sensações que aqueles instantes de segundos traziam.
Sentiu seu queixo ser tocado antes do beijo acabar, tão rápido como começou. Então a pessoa se afastou, como se nunca tivesse existido.
Afundou na poltrona e sentiu o coração bater descompassado e retumbante.
A luz voltou poucos minutos depois.
No palco, os atores sorriam, olhando na direção do balcão da técnica.
Olhou a seu redor.
Do lado direito, uma moça que comentava com o amigo-namorado-marido sobre a cara das pessoas no retornar das luzes.
Do lado esquerdo, um senhor tirava do bolso o telefone celular.
Na poltrona da frente, um rapaz com cabelos cacheados que não mostravam se sorria.
Repassou em sua cabeça o momento.
Não houveram palavras.
Um roubo silencioso, que fazia sua mente vaguear entre a libido e a revolta.
Quis se levantar e fugir.
Quis ser roubada mais uma vez.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
- alô?
- oi. ta podendo falar?
- ei. to sim. como você tá?
- tô legal. não é nada demais. só precisava te ouvir um pouco.
- o que fez de bom hoje?
- o de sempre. trabalhei muito, estudei, li. e você?
- o mesmo. exceto pelo estudar.
- você sabe que não liguei para falar do trabalho, não sabe?
- sei sim.
- mas ao mesmo tempo fica aquela vontade de não falar nada. aquela vontade de só te sentir por perto. saber que estamos juntos de alguma forma, mesmo que apenas através do telefone.
- olha...
- não se preocupa. eu não vou mais tentar te ter. me contentei com o fato de apenas ter te conhecido.
- isso já te faz feliz?
- não. você sabe que não.
- então porque diz se contentar com apenas isso?
- hoje ouvi no rádio uma música muito bonita. eu não me importei com o que dizia a letra, porque sabia que ela havia sido escrita para alguem que estava sendo amado. li um poema sobre o início do amor, e não me importei de não ter sido eu quem o escreveu, porque sabia que havia alma em cada uma daquelas letras. vi um casal sorrindo no banco de trás de um taxi ao vir trabalhar. também não me importei que não fôssemos nós a sorrir ali. tivemos algumas horas de felicidade honesta e plena. isso vou carregar pra sempre, e me lembrar de cada instante toda vez que me sentir sozinho.
- você vai me fazer chorar.
- quero aproveitar também para de certa forma, me despedir.
- porque?
- vou me obrigar a ser forte e não mais te procurar. cada sorriso seu me alimenta, me dá um fôlego novo para seguir em frente, e preciso deixar morrer a parte de mim que me deixei entregar. do contrário, nunca vou conseguir me abrir de novo para ninguém.
- ...
- não vou sumir. estarei sempre aqui para você. vou apenas deixar de dizer que te quero. talvez assim eu um dia realmente deixe de te querer.
- ...
- vou desligar. é tarde e precisamos trabalhar cedo amanhã.
- tá bom. boa noite.
- boa noite. beijo.
- ei...
- sim?
- posso te pedir uma coisa?
- pode sim.
- me liga amanhã de novo?
- ...
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
- papai, porque o homem aranha não joga fogo?
- ele gosta mais de jogar teia.
- a teia prende o bandido?
- prende. Aí o homem aranha bate nele e depois leva pra polícia.
- e o transformers, joga fogo?
- também não. Só da tiro.
- ele é gigantão?
- é. Gigantãozão.
- amanhã você compra um pra mim?
- amanhã eu compro.
- mas eu não quero piquinininho.
- ta bom.
- papai.
- hum?
- a lua cai em cima da gente?
- não. Ela ta amarrada.
- e se a nave pousar em cima dela? Vai cair!
- cai não. O moço amarrou fortão.
...
- e se pousar um tantão de nave?
- aí a gente tem que sair correndo.
- não é que o moço não almoçou tudo?
- não almoçou. aí ficou fraquinho.
- deixa eu jogar?
- não. Tá na hora de dormir.
- só pouquinho?
- nem pouquinho.
...
- papai.
- oi.
- amanhã a gente vai na casa do Bernardo de novo?
- uhum.
...
- Papai.
- hum.
- porque você não quer conversar comigo?
- tô conversando, sim.
- ta não. Você falou "uhum".
...
domingo, 9 de outubro de 2011
Ela então olhou para a janela.
Fechou os olhos com força e começou a ler tudo novamente.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
#16
O ventilador girava no sentido de exaustão, fazendo a fumaça do cigarro criar movimentos ondulantes antes de fugir pela janela.
Na mesa ao lado o rádio despejava agudamente um samba antigo que cantava o ter sem poder tocar.
Ela deitou de lado, apagando o cigarro no copo sobre a cadeira.
Continuou ali, olhando para o vidro embaçado e fumegante.
Imaginou que ele entraria em casa naquele momento, com sua mochila enorme a tilintar.
Começaria a se despir desde a sala, deixando peças de roupa pelo chão, sobre os móveis.
Fechou os olhos.
Ele se aproximou da cama cheirando a suor e força. Afastou seus cabelos da nuca e deu um beijo respirado para depois sussurrar qualquer segredo em seu ouvido.
Foi para o banheiro e agora ela ouvia a água cair pesada.
Teve vontade de chegar até a porta e ficar assistindo enquanto com os braços apoiados na parede, ele deixava que seus cabelos, costas, pescoço, nus, se molhassem.
Quis ficar ali parada sorrindo e se torturando ao segurar o desejo.
Quis pedir que ele voltasse consigo para a cama. Que fizesse carinho em seus cabelos. Que cantasse qualquer coisa antiga, que falasse do tempo, da distância tão curta e ao mesmo tempo tão cortante.
Abriu os olhos.
Chorava.
No copo sobre a cadeira restavam pequenas gotas que insistiam em não alcançar o fundo.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Ele se olhou no espelho e organizou com as mãos os cabelos que insistiam em acompanhar o descaso do vento.
Fechou os olhos e respirou fundo.
Abriu a torneira e limpou o rosto longamente, de cabeça baixa assistindo as gotas explodirem contra a porcelana azul da pia.
No espelho impecavelmente limpo, seus olhos refletiam vermelhos e cansados. Enjoados dessa visão que se repetia tanto. Dessa sensação imutável que se desenrolava a tanto tempo.
Sua mente varreu uma época em que caminhava entre as pessoas e podia perceber seus sentimentos, seus perfumes, seu ardor. Um tempo que passou tão lentamente quanto o tempo é capaz de passar.
Ela disse algo da cama. Disse para si mesma, contorcida em febre e insanidade. Os olhos vidrados fitavam a janela escura, que deixava entrar a noite silenciosa. Trazia consigo o frio do lago inerte que ficava a poucos metros de distância. Um frio que não era suficiente para acalmar a fúria que devorava sua carne.
Ele se sentou a beira da cama observando. Havia se trocado, e agora vestia uma camisa azul e calça preta. Os pés brancos e descalços se destacavam na penumbra do quarto.
Pediu que se acalmasse.
Que o perdoasse.
Então tocou a pele de suas costas arqueadas e sentiu os poros dilatados, os pêlos arrepiados berrando na ponta de seus dedos.
Quis dizer para si mesmo que dessa vez seria diferente. Podia ser diferente.
Mas sentia uma dor lascinante invadindo seu corpo. Ela estava quente. Ele tinha fome.
Mordeu brutalmente a artéria de sua coxa. Urrando como um animal preso, desesperado.
Ela não emitiu um som sequer.
Vergou seu corpo e se agarrou aos lençóis com tanta força que os nós de seus dedos deslocaram-se.
Quando terminou, ela estava parada olhando para seu rosto. Não havia medo nem surpresa. Era apenas a imagem triste da piedade.
Nem todas agiam assim.
Na última semana era a terceira a ser levada para sua casa. A primeira a demonstrar a piedade que tantas vezes o fez chorar.
terça-feira, 19 de abril de 2011
ela acordou num emaranhado difuso de sol. sua pele nua rabiscava o quarto com lentidão e sabores sem fim. a seu lado, ele via as partículas de poeira que lentamente navegavam o ar e rodeavam seus corpos em descanso.
os olhos se encontravam a todo momento, se despediam em sorrisos até que se reencontravam na lentidão do tempo.
_tenho vontade de voar as vezes.
_tenho vontade de voar sempre.
_não... prefiro que seja as vezes. como nós. distantes. intensos. verdadeiros.
_estamos aqui voando?
_é como se fosse.
_e é tão bom quanto.
_o que vai fazer quando sair daqui?
_vou pra casa.
_vai me escrever do caminho?
_talvez. alguma mensagem em especial?
_um segredo.
_não sei se tenho segredos interessantes.
_ser interessante não é o importante. só quero um segredo.
_e o que vai fazer com ele?
_anotar no canto de uma página da nossa história.
_gosto de fechar os olhos as vezes e musicar essa história.
ele se levantou e abriu as cortinas.
deixou que a luz esquentasse seu rosto e então se virou de volta para a cama.
era agora uma visão escura. bordas vermelhas e furiosas de seus contornos o tornavam maior e misterioso.
ela tinha olhos lindos que enxergavam a todo tempo com ternura.
ele agora abriu a janela e deixou que o segredo crescesse a ponto de ser um sonho a dois.
voltou para a cama e afastou seus cabelos para depois sentir o perfume de seus ombros.
_já tenho o segredo que quero para nós.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
sexta-feira, 30 de julho de 2010
A parede me olhava com olhos distantes que sentenciavam aos gritos a necessidade de escrever. Depois de um silêncio literário de meses, procurei em meus cadernos frases perdidas que, conectadas, criariam um monstro textual que precisaria ser alimentado, cresceria, devoraria pensamentos.
Encontrei uma nota em tinta vermelha. Cópia de um escrito da época do colégio.
Ela tinha cabelos castanhos muito lisos. Sardas pequeninas como uma constelação.
'como você consegue ler com todo esse barulho?'
Foi o que nos aproximou.
Era dois anos mais velha. Estava prestes a se formar e voltaria à cidade onde moravam os pais.
Voltou numa tarde de quarta-feira após um passeio pelo campus da universidade.
Ainda hoje sinto um frio na barriga ao sentir seu perfume encarnado na pele de alguma desconhecida que passa por mim. Passam sem me ver. Carregando cada milímetro de seus próprios sonhos. Alheias a meu desejo de abraça-las e sentir em cada pescoço um intenso cheiro de céu.
Numa frase breve, arranquei todo pedaço de história que pudesse ser desfiado.
'me conta de você.'
Esperei semanas. Torturado pelo imediatismo por vezes cruel criado pelos telefones e computadores.
Tirei do envelope uma foto que saiu pelo lado de trás. Por um tempo sem fim observei a nota que se repetia a meus olhos. A letra mantinha o mesmo desenho, o mesmo alinhamento perfeito. Triturava as nervuras do papel, marcando o branco como uma cicatriz recente.
Não imagino por quanto tempo ou por quantas vezes li aquilo, mergulhado em fragmentos de passados, presentes e sentidos antes de virar a fotografia.
me afogo com sede. bebendo da luz que passa lenta pela constelação de seus olhos.
domingo, 9 de maio de 2010
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Despertei entre escombros, com as mãos e pés doloridos, a boca e olhos ressecados. empoeirados. Sentia em meus ouvidos uma pressão que fazia doer a cabeça em pontadas silenciosas. Sentia apenas silêncio, dor e escuridão. Fiquei ali sentado de olhos fechados esperando me acostumar a falta de luz, e aos poucos comecei a perceber vultos que se moviam ao redor. Alguns andavam agachados, outros corriam, rastejavam, e alguns, como eu, estavam parados olhando em volta. Não me lembro por quanto tempo dormi, nem mesmo como cheguei ali. Minhas roupas estavam extremamente sujas e nada havia nos bolsos, além do pó que impregnava. Era impossível dizer se estávamos numa sala ou num grande alojamento. Sem sons, sem vento. Sem direção.
À medida em que recuperava meus sentidos, percebia mais e mais pessoas. Alguns parecendo tão perdidos quanto eu. Outros imersos em sua própria alma, alheios ao que nos cercava como se estivessem em coma. Os braços pendentes e olhos muito distantes não se moviam. Pareciam bonecos bizarros e mal acabados.
Uma criança veio correndo entre os vultos e parou perto de uma mulher grande e suja. Falou algo que a distância não me deixou ouvir e sumiu correndo entre os errantes. Tentei gritar por ela, mas não consegui emitir nenhum som. Quase explodi minha garganta tentando falar, mas em vão. Caminhei em direção a mulher com dificuldade, mas meu estômago revirava a cada passo e meus olhos começaram a lacrimejar exageradamente, a ponto de me imperdir de ver. Os ouvidos zumbiam como se houvesse uma furadeira trabalhando a plena carga, dilacerando aço e concreto em fragmentos que se enterram fundo na carne, sem deixar esquecer. Caí de joelhos quando minhas pernas falharam e entre a poeira e as lágrimas, vi a menina correr em minha direção. Chegou bem perto, como se estivesse sentindo meu cheiro quando vi que não tinha olhos. Em seu lugar, bolas negras e opacas giravam em todas as direções, como se fossem uma espécie de radar. 'Ainda é cedo pra você andar. Quando nascer um pouco mais, venho te buscar.' Sua voz era um misto de grito e murmurio. Tempestade e calmaria, com uma pele rugosa que parecia resistir a poeira. Ela apontou para o norte com dedos longos e ossudos, de onde subia um enorme sol negro com bordas de um cinza cegante, mas que não aquecia. Não iluminava. Piscou algumas vezes observando o que parecia ser um céu e depois se voltou pra mim tocando meus braços e tornou a me cheirar. Instintivamente, tentei sentir seu cheiro quando percebi que desde que despertei, não havia respirado. Ela correu antes que eu pudesse perguntar algo e pegou a mulher pelas mãos. Levei minha mão ao peito e as lágrimas pararam quando não senti.



