Começou pelos pratos que estavam empilhados a direita da mesa escura.
A madeira gasta denunciava uma idade avançada, marcada por inúmeros pratos, talheres, panelas e caixas ali colocados durante anos e anos.
Sentado no chão de terra batida seu filho brincava enterrando um marimbondo com areia, só para que em seguida pudesse salvá-lo.
E recomeçar.
O sol soava leve naquela tarde. Amansado por nuvens suaves e um vento frio que fazia balançar o sino de vento feito com pedaços de bambu.
Olhou para o instrumento roto, e se lembrou de que precisava consertar uma das hastes soltas.
Voltou a cantarolar a canção cantada no almoço. Era sua favorita, e contava a história de alguém que se vai para nunca mais voltar. Se arrepende, mas ainda assim não volta.
As pessoas sorriam, cantavam, comiam e gargalhavam genuinamente.
Aquele era um instante de quietude, onde ninguém se importava com o mundo girando veloz do lado de fora.
Não havia medo, dor, solidão ou falta de paz.
Eram um.
Que trazia um presente.
Que trazia o alimento.
A canção.
A mão.
O abraço.
Um que desejava aquele momento para sempre.
Que agradecia em silêncio.
Cantando mil canções de amor.
Sorvendo a aguardente preparada com esmero e mestrandade e calor e paixão.
Ainda cantava baixinho, com o menino acompanhando as partes mais fáceis.
Vez em quando olhava para trás.
Ele olhava de volta.
Indócil e sujo.
Feliz.
Não havia mais silêncio no mundo.
Era tudo vida e recomeço.
O cheiro do café.
O zumbido de uma mosca.
Sorriu pequeno e pensou que gostava de como o som da água que saía pela torneira confundia-se com o murmurar do riacho que passava ao lado de sua casa.
A vida voltava aos trilhos lentamente.
O verde voltava aos quatro cantos de seu quintal.
Os amigos não haviam abandonado seus dias.
Os sonhos não mais deixavam suas noites.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
domingo, 28 de setembro de 2014
O Vazio
Subiram as escadas lentamente, contando cada degrau como se fosse um cego tateando a escuridão e reconhecendo cada nota negra que impregnava o ar invisível ao redor.
Em seus braços um saco de papel com algumas poucas frutas e um pão de casca fina.
Não gostava dos pães se desmanchando sobre a mesa.
Escolhia sem pressa os mais claros e macios, visualizando a manteiga que se espalhava e temperava a massa acompanhada por um café forte e quente.
O saco de papel fazia um som abafado quando roçava contra sua camisa, estalando quando se encontrava com a costura de seu bolso.
47.
O número de degraus já estava memorizado, mas ainda assim contava a cada vez.
Repetia em voz alta para que a pessoa ouvisse.
47.
Dessa vez era uma moça que acompanhava, trazendo consigo seus 16 anos.
Tinha um dos sorrisos mais bonitos e genuínos que vira em toda a vida.
Cabelos muito lisos e pequeninos. Olhos grandes e claros, vizinhos de rugas sorridentes.
Ela deixara de sorrir dois dias atrás, e desde que a percebeu seguindo-o, vinha cabisbaixa e segurando as próprias mãos nervosamente, apertando os dedos muito finos.
Não disse nada.
Ela não disse nada. Não o olhou nos olhos.
Nenhum deles jamais olhou até que entrassem no apartamento.
Nenhum deles jamais disse qualquer coisa.
A primeira fora uma senhora muito triste a quem se apegou discretamente, e mesmo sem o dizer, recebeu o mesmo afeto em retorno, o que não o isentou da dose de pavor ao vê-la subindo lentamente as escadas em sua companhia. Cabisbaixa. Silenciosa. Infeliz.
O menino que chorava muito veio muitos dias depois. Da mesma forma.
E outro mais.
E outros mais.
Já não tinha medo daqueles que o acompanhavam.
Ainda menos daqueles que passaram a habitar sua casa.
Percebeu em cada um a busca por companhia. A continuidade do carinho que tinha por cada um enquanto pacientes.
Abriu a porta e entrou sem acender a luz.
Ainda era claro e mil pontos de luz inundavam os cantos da sala.
Havia silencio. Poeira. Uma canção que entrava pela brecha na janela.
Ela cantava sobre o absurdo da solidão. Sobre a inconsequência do tempo.
Sentados a mesa sorriam e se levantavam seus pacientes perdidos.
A moça do sorriso mais lindo do mundo não sorria.
Não chorava.
Não tinha coragem de cruzar a porta.
Apertava seus dedos finos e brancos.
Queria voar.
Todos queriam, disseram. E então a abraçaram enquanto o homem sozinho seguia para seu quarto, deixando o saco de papel sobre a mesa vazia.
Em seus braços um saco de papel com algumas poucas frutas e um pão de casca fina.
Não gostava dos pães se desmanchando sobre a mesa.
Escolhia sem pressa os mais claros e macios, visualizando a manteiga que se espalhava e temperava a massa acompanhada por um café forte e quente.
O saco de papel fazia um som abafado quando roçava contra sua camisa, estalando quando se encontrava com a costura de seu bolso.
47.
O número de degraus já estava memorizado, mas ainda assim contava a cada vez.
Repetia em voz alta para que a pessoa ouvisse.
47.
Dessa vez era uma moça que acompanhava, trazendo consigo seus 16 anos.
Tinha um dos sorrisos mais bonitos e genuínos que vira em toda a vida.
Cabelos muito lisos e pequeninos. Olhos grandes e claros, vizinhos de rugas sorridentes.
Ela deixara de sorrir dois dias atrás, e desde que a percebeu seguindo-o, vinha cabisbaixa e segurando as próprias mãos nervosamente, apertando os dedos muito finos.
Não disse nada.
Ela não disse nada. Não o olhou nos olhos.
Nenhum deles jamais olhou até que entrassem no apartamento.
Nenhum deles jamais disse qualquer coisa.
A primeira fora uma senhora muito triste a quem se apegou discretamente, e mesmo sem o dizer, recebeu o mesmo afeto em retorno, o que não o isentou da dose de pavor ao vê-la subindo lentamente as escadas em sua companhia. Cabisbaixa. Silenciosa. Infeliz.
O menino que chorava muito veio muitos dias depois. Da mesma forma.
E outro mais.
E outros mais.
Já não tinha medo daqueles que o acompanhavam.
Ainda menos daqueles que passaram a habitar sua casa.
Percebeu em cada um a busca por companhia. A continuidade do carinho que tinha por cada um enquanto pacientes.
Abriu a porta e entrou sem acender a luz.
Ainda era claro e mil pontos de luz inundavam os cantos da sala.
Havia silencio. Poeira. Uma canção que entrava pela brecha na janela.
Ela cantava sobre o absurdo da solidão. Sobre a inconsequência do tempo.
Sentados a mesa sorriam e se levantavam seus pacientes perdidos.
A moça do sorriso mais lindo do mundo não sorria.
Não chorava.
Não tinha coragem de cruzar a porta.
Apertava seus dedos finos e brancos.
Queria voar.
Todos queriam, disseram. E então a abraçaram enquanto o homem sozinho seguia para seu quarto, deixando o saco de papel sobre a mesa vazia.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Quando fechou os olhos com um sorriso pequeno brotando em
sua boca, o fez em meio a uma multidão de perfumes que escapavam de seus
cabelos, envolvendo os dois corpos quentes, provocando arrepios pela pele que percebia
entre os ombros nus um roçar suave da barba por fazer, da boca quente que se
abria e mordia de leve os caminhos para seus sonhos.
Sentiu uma mão forte subir por suas costas, seu pescoço, sua
nuca.
Suas pernas tremiam e o coração parecia querer crescer
tanto, os envolver, ser um manto rubro de proteção de onde nunca mais sairiam.
Se deixou beijar.
Perdeu-se no caminho de volta a realidade, abraçada a um
perfume que lhe tirava do chão, contando histórias incontadas, segredos
imutáveis, lembranças ternas.
Fora de si a noite começava a tomar o mundo entre as mãos,
fazendo dormir as árvores e animais incansáveis. Calando as crianças e os
carros velozes. Acalmando os homens e acariciando a paixão das mulheres.
Levantou-se num átimo e abotoou sua roupa.
Refez o penteado e respirou fundo antes de sair pela porta
carregada pelos passos mais pesados que uma mulher já deu em toda a história impossível
de duas almas, deixando para trás um coração em silencio.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
A chuva
Ao entardecer do centésimo vigésimo oitavo dia Noé sentiu doer a fome.
Uma fome tão terrível e triste que escurecia a visão, fazendo doer as articulações que berravam com o esforço para manter o corpo em movimento.
Podia sentir seu corpo se devorando lentamente. Desesperadamente nos últimos dias.
Ébrio pelo ar nauseabundo que, quase tangível, acertava seu rosto a cada movimento, caminhou para a borda do barco.
Olhou para o horizonte molhado e inalcançável e sentiu um desejo absurdo de vomitar.
Seu corpo se contorceu em dor, mas não havia o que colocar para fora.
Seus lábios ressecados sangraram com o esforço da boca. Os olhos lacrimejaram preciosas lágrimas que marcaram caminho por seu rosto.
Com uma expressão de desamparo, olhou ao redor.
Pouco restara para cuidar.
Naamá prostrada de encontro a parede olhava com seus olhos sem alma para um cordame que balançava estupidamente tentando alcançar o vento.
Havia uma dezena de dias que não dizia palavra.
Não se banhava.
Era um fantasma vestindo negro que caminhava lento e desesperançado.
Sobraram algumas cabras, pássaros e uma vaca que mal se sustentava apoiada num canto.
Ela mugiu ao perceber que era observada.
Suas costelas gradeadas como um bambuzal subiam e desciam infladas pelo ar salgado que saturava cada centímetro de pele.
Noé olhou novamente para Naamá que permanecia olhando sem ver. Respirando programadamente como uma máquina.
Caminhou para o fundo do enorme barco olhando ao redor, buscando o enferrujado machado que jazia enterrado num enorme pedaço de madeira escura e macia.
Foi fácil tira-lo dali.
Como se a força tivesse voltado para seus ossos e músculos ressequidos, segurou com firmeza o cabo roto e longo.
Caminhou de volta para perto do fantasma de sua mulher que ignorava o mundo ao redor.
Um trovão berrou ao longe, enclausurado na negritude do céu que se agitava entre ventos, raios e a fúria do deus.
Os segundos pareciam não passar enquanto o mundo era cercado por essa negritude brutal, enquanto os olhos desciam lentos do cabo para a lâmina. Da lâmina para suas mãos secas.
Levantou os braços. E, com eles, subiu o machado pesado. Agora tão leve. Tão puro.
Outro berro acertou esquerda e direita de seus ouvidos.
Naamá levantou os olhos com uma aceitação que beirava o desespero. Um pedido. Uma cumplicidade silenciosa e ansiosa.
Dessa vez um raio fez em pedaços parte da frente do grande barco, acompanhado de um ensurdecedor vendaval trovão tormenta que parecia cavalgar um corcel enfurecido.
O machado desceu com violência e rapidez terríveis.
Com um baque surdo partiu ossos, nervos, carne, pele pensamentos.
O animal caiu de joelhos e deixou que a morte seguisse seu curso.
A mulher levantou-se e se aproximou.
Tocou o ombro de Noé e se abaixou para recolher o sangue que corria quente e vivo enquanto a tempestade se afastava silenciosa. Incrédula. Resoluta.
Uma fome tão terrível e triste que escurecia a visão, fazendo doer as articulações que berravam com o esforço para manter o corpo em movimento.
Podia sentir seu corpo se devorando lentamente. Desesperadamente nos últimos dias.
Ébrio pelo ar nauseabundo que, quase tangível, acertava seu rosto a cada movimento, caminhou para a borda do barco.
Olhou para o horizonte molhado e inalcançável e sentiu um desejo absurdo de vomitar.
Seu corpo se contorceu em dor, mas não havia o que colocar para fora.
Seus lábios ressecados sangraram com o esforço da boca. Os olhos lacrimejaram preciosas lágrimas que marcaram caminho por seu rosto.
Com uma expressão de desamparo, olhou ao redor.
Pouco restara para cuidar.
Naamá prostrada de encontro a parede olhava com seus olhos sem alma para um cordame que balançava estupidamente tentando alcançar o vento.
Havia uma dezena de dias que não dizia palavra.
Não se banhava.
Era um fantasma vestindo negro que caminhava lento e desesperançado.
Sobraram algumas cabras, pássaros e uma vaca que mal se sustentava apoiada num canto.
Ela mugiu ao perceber que era observada.
Suas costelas gradeadas como um bambuzal subiam e desciam infladas pelo ar salgado que saturava cada centímetro de pele.
Noé olhou novamente para Naamá que permanecia olhando sem ver. Respirando programadamente como uma máquina.
Caminhou para o fundo do enorme barco olhando ao redor, buscando o enferrujado machado que jazia enterrado num enorme pedaço de madeira escura e macia.
Foi fácil tira-lo dali.
Como se a força tivesse voltado para seus ossos e músculos ressequidos, segurou com firmeza o cabo roto e longo.
Caminhou de volta para perto do fantasma de sua mulher que ignorava o mundo ao redor.
Um trovão berrou ao longe, enclausurado na negritude do céu que se agitava entre ventos, raios e a fúria do deus.
Os segundos pareciam não passar enquanto o mundo era cercado por essa negritude brutal, enquanto os olhos desciam lentos do cabo para a lâmina. Da lâmina para suas mãos secas.
Levantou os braços. E, com eles, subiu o machado pesado. Agora tão leve. Tão puro.
Outro berro acertou esquerda e direita de seus ouvidos.
Naamá levantou os olhos com uma aceitação que beirava o desespero. Um pedido. Uma cumplicidade silenciosa e ansiosa.
Dessa vez um raio fez em pedaços parte da frente do grande barco, acompanhado de um ensurdecedor vendaval trovão tormenta que parecia cavalgar um corcel enfurecido.
O machado desceu com violência e rapidez terríveis.
Com um baque surdo partiu ossos, nervos, carne, pele pensamentos.
O animal caiu de joelhos e deixou que a morte seguisse seu curso.
A mulher levantou-se e se aproximou.
Tocou o ombro de Noé e se abaixou para recolher o sangue que corria quente e vivo enquanto a tempestade se afastava silenciosa. Incrédula. Resoluta.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Acordou agarrada a um desejo incontrolável de sentir a areia da praia se movendo sob
seus pés enquanto assistia o sol inundar timidamente o canto do quarto, criando um
prisma ao se debater contra o meio copo de água sobre o móvel ao lado da cama.
Desligou o telefone celular e separou um conjunto de roupas.
Ligou o computador e comprou as passagens, ignorando a caixa
de e-mail que insistia em saltar avisando a urgência de mil trabalhos.
Era por volta das onze da manhã quando desembarcou recebida
por um calor maciço que fez seu corpo se arrepiar de prazer.
Apertou de leve a alça da maleta e caminhou em direção ao
taxi.
O motorista era um senhor alto, de voz aveludada e pelos
embranquecidos pelo tempo.
Perguntou do destino e de onde veio.
Contou dos anos ao lado da mulher e do filho inquieto.
Da noite anterior pelas ruas da cidade.
Do momento em que saiu da cama.
Ela observava e absorvia tudo.
O cheiro do couro dos bancos, do ar soprado através das
janelas, da água de colônia impregnada de calor vinda do homem, o movimento
brusco das pessoas, prédios, arvores, cães, coisas deixadas para trás enquanto
o carro amarelo seguia veloz pela avenida.
Pagou agradecendo e sorrindo.
Olhou para a entrada do hotel e para os dois lados da rua.
Alguns bares, restaurantes, vozes e o mar ao longe murmurando
cansado.
Se olhou no grande espelho do quarto.
Os cabelos tinham mania de se espalhar por sobre os ombros,
criando a sensação de uma adolescente querendo parecer mais velha.
Desatou o primeiro nó da camisa.
Começou a tirar a roupa leve que havia escolhido.
Fazia cada movimento se observando.
Gravando cada centímetro de sua pele.
Gravando cada centímetro de sua pele.
Decorando cada sensação.
Encarando o próprio rosto até que estivesse nua diante de
si mesma.
Fechou os olhos.
Escolheu o que vestir.
Com qual perfume se embebedar.
Qual sorriso sorrir.
Voltou para a rua, e em seu peito pulsava o desejo
incontrolável de um querer animal.
Uma vontade intensa. Pura. Tangível, de devorar a si mesma.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
alimento seu corpo.
sua alma.
seu coração.
mato a fome de sua carne.
despedaço a distância em nome do fim da saudade.
alimento seu corpo com meus olhos.
suas mãos com meu peito nu.
alimento seu corpo.
aqueço sua alma infinda.
mato o tempo que me espalha pelo espaço
atirando sua voz de encontro a mim.
mato sua fome.
mordo sua pele devorando seus olhos fechados.
alimento meu corpo
com o gosto de sua boca.
alimento seus pés com o caminho de encontro a mim.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Me vi refletido na vitrine de uma loja de aparelhos
celulares mal iluminada pelos postes da avenida.
Tênis velhos, camisa e calça sem estampas ou marcas da moda.
Um penteado anacrônico, mas que caía bem ao conjunto -
diziam.
Embriagado por uma sessão de cinema que me arrancou a fala e
o fôlego, me enxergava parado ali.
Pensando em minha vida, meu caminho de volta pra casa, o desfecho do filme cruel.
Pensando em minha vida, meu caminho de volta pra casa, o desfecho do filme cruel.
Não conseguia me afastar de mim mesmo. Tão próximo de uma realidade
palpável e quente, que qualquer som pelas ruas era um trovoar imenso e desconcertante.
A barba mal feita denunciava noites curtas e manhãs
apressadas de uma alma entregue ao trabalho, sem trégua e sem tempo.
Toquei meus cabelos e senti no pulso o perfume daquela manhã
navegando por meus poros e persistindo bravamente depois de horas de luta.
Ele havia elogiado esse perfume.
Perguntou qual era.
Sorri desconfiado e respondi olhando no olho.
Ele sorriu de volta, falando bem de minha escolha.
Se afastou com o papel na mão e um sorriso se perdendo no canto da boca, a caminho de seu escritório. Para longe de mim.
Ele sorriu de volta, falando bem de minha escolha.
Se afastou com o papel na mão e um sorriso se perdendo no canto da boca, a caminho de seu escritório. Para longe de mim.
O reflexo sorriu olhando para mim.
Estava começando mais uma vez.
A sensação de desespero.
A vontade de que a noite seja breve.
A esperança de que dessa vez seja tudo diferente.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Sem nome
Era uma música daquelas que faziam sorrir. Com a cabeça encostada na janela do ônibus.
Vendo as luzes fugindo velozes e saturadas de vozes que falavam tanto sem dizer qualquer coisa.
Era uma música dedicada a uma moça que partiu a tanto tempo que os tempos mudaram.
Uma moça que sonhava com uma casa de madeira e sons.
A um rapaz que caminhava pelo pátio da escola.
Caminhava pelos corredores de uma empresa com o sonhos aos pedaços. Separados. Dedicados a alcançar qualquer lugar que os fizesse se sentir novamente juntos.
Era uma música que escapou pelos falantes da loja. Acertou uma dezena almas. Causou mil mistos de medo e prazer sem dizer mais do que deveria.
Todos diziam ser sua a canção, para usar como quisessem, para dançar de olhos fechados, para voltar um sem número de vezes até que a fita se embolasse e o momento fosse absorvido pelo desespero de ouvir novamente.
Era uma canção daquelas que faziam sorrir.
E, sorrindo, fazia o tempo parar.
Era uma canção sobre o impossível do que não pudemos viver.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Comprou quatro latas de cerveja, algum meio quilo de alcatra, cebolas e um pedaço de queijo.
Sorriu para a moça do caixa e disse que era dia de comemorar.
Meu time joga hoje, falou.
Ela sorriu de volta e disse um boa sorte agradável de se ouvir para quem carregava quatro latas de cerveja. E disse que o time seria campeão.
Devia ter convidado essa moça para ver o jogo comigo, pensou.
Ela não iria. Eu acho.
Nunca me viu. Tenho cara de bom moço, no entanto. Mas ela não iria.
Da próxima vez pergunto se ela gosta de cinema.
Uma comédia, talvez. Não sei para qual time ela torce. Maioria das moças gosta de comédias.
Acho que ela iria.
Continuava a caminho de casa, cumprimentando as pessoas pelo caminho.
Vestia a camisa de seu time. Orgulhoso. Esperançoso.
Disfarçava bem o coração louco que tamborilava no peito, querendo pular e gritar um grito preso de paixão.
O cachorro latiu feliz da vida ao ouvir o portão sendo aberto, e correu para a porta esperando.
Cheirou o pacote com a carne e torceu para que fosse um presente que chegava.
Se era, estava demorando a ser entregue.
Sentou-se.
Deitou-se.
Olhava pelo canto do olho o dono que andava, cortava, chorava cebolônicamente e bebericava cerveja.
Na tevê um restinho de programação antecipava o jogo.
O rádio ligado antecipava a partida contando histórias passadas e falando de esperanças futuras.
Na cabeça do dono, a moça do caixa.
E uma forma de, no escuro do cinema, tentar roubar um beijo.
Deixaria para o final? Talvez no momento de se despedir.
Ela estava meio despenteada. Era quase final de expediente, então pode ser que estivesse cansada.
Nem era bonita.
Mas tinha um sorriso honesto.
E disse que seu time seria campeão.
sábado, 3 de agosto de 2013
00:27
- você devia dizer tudo isso pra ela.
- não consigo. Fica aquele medo de que ela se afaste.
- então é difícil. Se ela não souber que você existe, não vai ter qualquer chance de que te queira.
- ela sabe que existo. Convivemos no trabalho, em algumas saídas do pessoal da empresa, mas nunca nos falamos como amigos.
Passo por ela pelo corredor e sinto o perfume que a segue lento. Fico imaginando se vem dos cabelos ou da pele. Adoro aquela pele. A cor, a textura... De olhos fechados ela está parada na minha frente, de pé, me olhando em silêncio enquanto devoro cada pedaço de seu corpo com os olhos, as curvas do pescoço, os pêlos fininhos da nuca, os dedos pequenos, os seios lindos com sardas claras.
- já viu?
- não. Mas gosto de imaginar.
- e são mais bonitos que os meus na sua imaginação?
- me deixa continuar. Ela está com um vestido azul leve, contrastando com os cabelos longos. E o sorriso? Adoro aquele sorriso. Me deito pensando, acordo ainda sonhando.
"É lindo seu sorriso". Disse pra ela outro dia depois de uma reunião. Agradeceu sorrindo bonito e foi embora carregando seu perfume de fruta boa pra colher. Esperei que olhasse para trás antes de virar o corredor. Não olhou. Sofri, mas sofri pequeno, pois ela havia sorrido para mim.
- você é muito bobo. Se tivesse alguém no mundo que me quisesse muito, eu gostaria de saber.
- aposto que tem.
- tem nada. Se tem, nem sabe com o que trabalho.
- se eu dissesse que é você com que vivo sonhando?
- para de bobagem.
- é sério. E seu eu dissesse que é você minha moça do sorriso lindo? Largaria tudo por nós?
- eu sofreria. Sofreria muito. Por mais que eu goste, não é você quem eu amo.
- e ele sabe desse seu amor?
- se soubesse, fugiria de mim pra sempre.
- não consigo. Fica aquele medo de que ela se afaste.
- então é difícil. Se ela não souber que você existe, não vai ter qualquer chance de que te queira.
- ela sabe que existo. Convivemos no trabalho, em algumas saídas do pessoal da empresa, mas nunca nos falamos como amigos.
Passo por ela pelo corredor e sinto o perfume que a segue lento. Fico imaginando se vem dos cabelos ou da pele. Adoro aquela pele. A cor, a textura... De olhos fechados ela está parada na minha frente, de pé, me olhando em silêncio enquanto devoro cada pedaço de seu corpo com os olhos, as curvas do pescoço, os pêlos fininhos da nuca, os dedos pequenos, os seios lindos com sardas claras.
- já viu?
- não. Mas gosto de imaginar.
- e são mais bonitos que os meus na sua imaginação?
- me deixa continuar. Ela está com um vestido azul leve, contrastando com os cabelos longos. E o sorriso? Adoro aquele sorriso. Me deito pensando, acordo ainda sonhando.
"É lindo seu sorriso". Disse pra ela outro dia depois de uma reunião. Agradeceu sorrindo bonito e foi embora carregando seu perfume de fruta boa pra colher. Esperei que olhasse para trás antes de virar o corredor. Não olhou. Sofri, mas sofri pequeno, pois ela havia sorrido para mim.
- você é muito bobo. Se tivesse alguém no mundo que me quisesse muito, eu gostaria de saber.
- aposto que tem.
- tem nada. Se tem, nem sabe com o que trabalho.
- se eu dissesse que é você com que vivo sonhando?
- para de bobagem.
- é sério. E seu eu dissesse que é você minha moça do sorriso lindo? Largaria tudo por nós?
- eu sofreria. Sofreria muito. Por mais que eu goste, não é você quem eu amo.
- e ele sabe desse seu amor?
- se soubesse, fugiria de mim pra sempre.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Anúncio
Procura-se uma moça que goste de cachorros.
Que saiba fazer pudim de leite condensado.
Uma moça que goste de viajar.
Que goste de comer.
Que saiba cozinhar.
Procura-se uma moça que sorria lindo.
Uma moça que goste de cantar, mesmo que não tenha uma voz bonita.
Uma moça que tenha a pele perfumada e os cabelos macios.
Que prefira o frio.
Que prefira o calor.
Talvez os ventos do outono.
Talvez a chuva lenta de um domingo.
Uma moça que goste de música.
Que não seja fanática por futebol, religião ou política.
Procura-se uma moça que já tenha se encontrado pelas curvas do mundo.
Que se conheça e não se perca entre os terremotos.
Procura-se uma moça.
Que me deixe a ponto de morrer de saudade,
Mas que sempre volte em meu último suspiro.
Que não fuja quando o céu escureça e os rios sequem.
Que goste de cuidar de seu corpo.
Que saiba como plantar uma flor.
Procura-se uma moça que goste de ler.
Que saiba fazer poesia.
Que não consiga abrir um vidro de conserva.
Procura-se uma moça que goste de sonhos.
Que me reconheça em cada metade do que um dia seremos.
Que nos ensine a ser metade do que é.
Que saiba fazer pudim de leite condensado.
Uma moça que goste de viajar.
Que goste de comer.
Que saiba cozinhar.
Procura-se uma moça que sorria lindo.
Uma moça que goste de cantar, mesmo que não tenha uma voz bonita.
Uma moça que tenha a pele perfumada e os cabelos macios.
Que prefira o frio.
Que prefira o calor.
Talvez os ventos do outono.
Talvez a chuva lenta de um domingo.
Uma moça que goste de música.
Que não seja fanática por futebol, religião ou política.
Procura-se uma moça que já tenha se encontrado pelas curvas do mundo.
Que se conheça e não se perca entre os terremotos.
Procura-se uma moça.
Que me deixe a ponto de morrer de saudade,
Mas que sempre volte em meu último suspiro.
Que não fuja quando o céu escureça e os rios sequem.
Que goste de cuidar de seu corpo.
Que saiba como plantar uma flor.
Procura-se uma moça que goste de ler.
Que saiba fazer poesia.
Que não consiga abrir um vidro de conserva.
Procura-se uma moça que goste de sonhos.
Que me reconheça em cada metade do que um dia seremos.
Que nos ensine a ser metade do que é.
terça-feira, 25 de junho de 2013
Saudade
O voo atrasou cerca de duas horas.
Sentado no saguão, buscava por interessâcias na internet, folheava a revista que encontrou no banco ao lado, olhava as pessoas que iam e vinham.
Viu casais que andavam juntos. Casais que viviam separados.
Crianças correndo, idosos sorrindo e funcionários caminhando desanimados, carregando, informando e sorrindo sem sorrir.
Atrasado.
Continuava dizendo o letreiro no alto.
As pessoas continuavam surgindo sem trégua. Saturando de informações os olhos e ouvidos que impacientes percorriam todo o espaço ao redor.
Cores, vozes, cheiros, perfumes, sentimentos, sensações, esperanças, desesperos e descaso.
Tudo mascarado do cotidiano que persistia em não sair do lugar.
Uma senhora perguntou se estava no embarque correto.
A atendente magra e de lentes de contato verdes sorriu uma informação precisa.
A senhora se foi sem dizer palavra.
Percebeu que ele olhava. Sorriu, como se fosse ele o responsável pela dúvida sanada.
Ele sorriu de volta e deitou seus olhos no relógio de pulso.
Quando foi chamado para embarque, sentiu um frio na barriga, e se levantou.
Pousaram enquanto o sol dourava os prédios na linha do fim da terra, e um taxi o deixou em frente a estátua do parque, onde haviam se beijado num tempo distante. Tão distante que havia se tornado parte de seus sonhos repetidos.
'Estou chegando', disse o telefone numa mensagem branca.
Desde muito sentia falta daquelas pessoas que nunca viu, indo e vindo com suas histórias incompletas, seus sorrisos incontidos e suas almas livres.
Era bom estar de volta.
Perdeu-se por mil anos quando a viu esperando que acabassem todos os carros do mundo para que pudesse atravessar a rua.
Os carros nunca acabaram, mas pararam o tempo e ela veio.
Sorriu pequeno quando se aproximou, e deixou que seu perfume invadisse seus olhos, seus dedos, seus desejos de que o tempo continuasse parado a mercê daquele momento.
Não falaram.
Não sorriram.
Ele afastou seus cabelos e tocou seu rosto claro. Colocou seus dedos entre os cabelos de sua nuca e a puxou para si com carinho.
Se abraçaram para sempre.
E, a cada expirar em silêncio, respiravam o perfume que os unia e mudava todos os caminhos do mundo.
Sentado no saguão, buscava por interessâcias na internet, folheava a revista que encontrou no banco ao lado, olhava as pessoas que iam e vinham.
Viu casais que andavam juntos. Casais que viviam separados.
Crianças correndo, idosos sorrindo e funcionários caminhando desanimados, carregando, informando e sorrindo sem sorrir.
Atrasado.
Continuava dizendo o letreiro no alto.
As pessoas continuavam surgindo sem trégua. Saturando de informações os olhos e ouvidos que impacientes percorriam todo o espaço ao redor.
Cores, vozes, cheiros, perfumes, sentimentos, sensações, esperanças, desesperos e descaso.
Tudo mascarado do cotidiano que persistia em não sair do lugar.
Uma senhora perguntou se estava no embarque correto.
A atendente magra e de lentes de contato verdes sorriu uma informação precisa.
A senhora se foi sem dizer palavra.
Percebeu que ele olhava. Sorriu, como se fosse ele o responsável pela dúvida sanada.
Ele sorriu de volta e deitou seus olhos no relógio de pulso.
Quando foi chamado para embarque, sentiu um frio na barriga, e se levantou.
Pousaram enquanto o sol dourava os prédios na linha do fim da terra, e um taxi o deixou em frente a estátua do parque, onde haviam se beijado num tempo distante. Tão distante que havia se tornado parte de seus sonhos repetidos.
'Estou chegando', disse o telefone numa mensagem branca.
Desde muito sentia falta daquelas pessoas que nunca viu, indo e vindo com suas histórias incompletas, seus sorrisos incontidos e suas almas livres.
Era bom estar de volta.
Perdeu-se por mil anos quando a viu esperando que acabassem todos os carros do mundo para que pudesse atravessar a rua.
Os carros nunca acabaram, mas pararam o tempo e ela veio.
Sorriu pequeno quando se aproximou, e deixou que seu perfume invadisse seus olhos, seus dedos, seus desejos de que o tempo continuasse parado a mercê daquele momento.
Não falaram.
Não sorriram.
Ele afastou seus cabelos e tocou seu rosto claro. Colocou seus dedos entre os cabelos de sua nuca e a puxou para si com carinho.
Se abraçaram para sempre.
E, a cada expirar em silêncio, respiravam o perfume que os unia e mudava todos os caminhos do mundo.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Azul
Ela fechou os olhos e respirou fundo.
Levantou os braços e imaginou cada curva.
As pernas arqueadas girando pesadas.
Todo o corpo enrijecido num só movimento.
Imaginou o público olhando para o alto, absorvendo todo aquele momento.
Os sorrisos.
Os gritos silenciosos que num coro gritavam mil vozes.
As mãos em sua direção como regentes de seu ato.
Deu mais um passo e baixou os braços.
Abriu os olhos, e seus dedos brancos e úmidos indicavam o caminho.
Pouco a pouco o som do público invadia sua mente como uma corrente que crescia gradativamente.
Ocupava o tempo e o ar.
Misturava-se ao cheiro multicolor que lhe chegava.
Respirou fundo.
O som aumentava.
Levantou novamente os braços e flexionou as pernas.
Saltou.
Girou.
Lembrou de si mesma enquanto criança numa cadeira de balanço, sentindo o vento e o sol em seu rosto.
Atrás de si, seu irmão empurrava forte para que voasse cada vez mais alto.
Caía.
Lembrou de si mesma beijando pela primeira vez. Mil frios na barriga. O medo de não saber como agir.
A angústia de esperar pela próxima vez. Do gosto do beijo e o perfume roubado da outra pele, e que ficara aprisionado em suas mãos.
Tocou a água.
Era agora uma imagem de si mesma de frente para o espelho.
Chorando. Desfazendo um curativo que não deixava vestígio do que não podia mais ser visto.
Chegou ao fundo, e com um impulso ligeiro se entregou novamente ao ar.
O som voltou, preenchendo de cores, som e luzes cada molécula ao redor.
Sorriu um meio sorriso molhado e passou a mão pelo rosto.
Tudo era branco e verde, cinza e vermelho.
Sorriu um sorriso por completo.
Aquilo era bom o bastante.
Levantou os braços e imaginou cada curva.
As pernas arqueadas girando pesadas.
Todo o corpo enrijecido num só movimento.
Imaginou o público olhando para o alto, absorvendo todo aquele momento.
Os sorrisos.
Os gritos silenciosos que num coro gritavam mil vozes.
As mãos em sua direção como regentes de seu ato.
Deu mais um passo e baixou os braços.
Abriu os olhos, e seus dedos brancos e úmidos indicavam o caminho.
Pouco a pouco o som do público invadia sua mente como uma corrente que crescia gradativamente.
Ocupava o tempo e o ar.
Misturava-se ao cheiro multicolor que lhe chegava.
Respirou fundo.
O som aumentava.
Levantou novamente os braços e flexionou as pernas.
Saltou.
Girou.
Lembrou de si mesma enquanto criança numa cadeira de balanço, sentindo o vento e o sol em seu rosto.
Atrás de si, seu irmão empurrava forte para que voasse cada vez mais alto.
Caía.
Lembrou de si mesma beijando pela primeira vez. Mil frios na barriga. O medo de não saber como agir.
A angústia de esperar pela próxima vez. Do gosto do beijo e o perfume roubado da outra pele, e que ficara aprisionado em suas mãos.
Tocou a água.
Era agora uma imagem de si mesma de frente para o espelho.
Chorando. Desfazendo um curativo que não deixava vestígio do que não podia mais ser visto.
Chegou ao fundo, e com um impulso ligeiro se entregou novamente ao ar.
O som voltou, preenchendo de cores, som e luzes cada molécula ao redor.
Sorriu um meio sorriso molhado e passou a mão pelo rosto.
Tudo era branco e verde, cinza e vermelho.
Sorriu um sorriso por completo.
Aquilo era bom o bastante.
quinta-feira, 14 de março de 2013
Lentamente
Eu não estava preparado.
Esperava e sabia o quão próximo estava o fim.
Mas não aceitava ainda.
Desde criança carrego comigo a necessidade absurda de absorver conhecimento.
Me recostar calado pelas esquinas e observar o mundo girando ao meu redor.
Só observar e absorver.
Li mil e um livros. Mil e dois, talvez.
Li mil e um livros. Mil e dois, talvez.
Dois mil?
Não me lembro mais.
Não me lembro mais.
Mas cada fio de cabelo, cada centímetro de pele, cada célula inquieta carrega consigo fragmentos desse conhecimento.
Eu não sofria mazela alguma que a idade trazia consigo.
Bons dentes. Bons ossos.
Uma memória confusa, mas cheia de meias inverdades.
Não podia mais dirigir meu Ford, mas nutria a esperança de um dia acordar virado do avesso, não me preocupando com os outros e guiar novamente por alguma estrada reta e longa.
Não podia comer o que bem entendesse, mas me faz falta comer doces num saco de pão, fingindo estar comendo o pão.
Não tinha mais jeito com as mulheres, mas me transportava para centenas de galáxias durante o momento de olhos fechados sentindo um perfume.
Imaginando um corpo sendo tocado. Uma boca sorrindo durante um beijo.
Gostaria de me lembrar da história de cada pele que beijei.Imaginando um corpo sendo tocado. Uma boca sorrindo durante um beijo.
As mentiras que contei. As mentiras que ouvi.
As verdades que nunca esqueci.
Eu ainda não estava preparado.
Penso como algo muito próximo do absurdo o fato de o mundo perder quem ainda pode somar.
Gênios da música, pacificadores, poetas e tantos outros que, se houver um plano superior que controle o ir e vir dos viventes, penso que é um plano falho e cruel.
Gênios da música, pacificadores, poetas e tantos outros que, se houver um plano superior que controle o ir e vir dos viventes, penso que é um plano falho e cruel.
Não figuro entre músicos, poetas, pacificadores e outrem. Sou um amante de meu próprio mundo.
Desejoso de minhas próprias vontades e sempre dedicado a meus próprios planos.
Juro que não estava pronto.
Tinha coisas deixadas para dizer na última hora.
Olhares para a última hora.
Algum drama, talvez.
Sempre gostei de me imaginar rindo daqueles que ficariam para trás para cuidar da bagunça que eu havia de deixar.
Não vejo sentido em simplesmente não mais poder sentir o medo de não mais sentir.
sexta-feira, 1 de março de 2013
00:27
Vagava uma noite silenciosa ao redor.
Sem gatos, cães ou pessoas invadindo a janela do quarto quando o telefone vibrou e iluminou meio mundo bem ao lado da cama.
Era uma mensagem dizendo Sinto sua falta.
Simples assim. Sem rodeios ou floreios. Sentia falta e deixava para mim o destino desse sentimento.
Me deitei e fechei os olhos que formavam imagens sem sentido se movimentando e se desfazendo com o fim da lembrança da luz.
Eu também tinha saudades.
Queria responder dizendo para que se encontrasse comigo no lugar de sempre.
'Estamos indo tão bem', falei dias atrás.
Pelo visto, não era o suficiente para ele.
Não o era também para mim.
Queria me levantar e pintar minha boca de vermelho.
Colocar o vestido que ele gosta e afogar meus poros do perfume que o faz fechar os olhos.
Me afogar em suas mãos que me arrepiam.
Me afogar de sua carne e de seus sussurros.
Gosto dos seus cabelos, ele disse.
De sua boca, seu sorriso e sua teimosia.
Era alguém que fazia valer mais cada dia vivido. Que merecia a verdade de cada sorrir.
Virei para o lado e fechei os olhos querendo chorar, mas se havia alguma lágrima, ela estava escondida longe demais.
Estamos indo tão bem.
Repeti para o silêncio que me ouvia de olhos fechados.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Machado de guerra
Um índio sentou-se na encosta de uma grande montanha para ver o sol que seguia longe.
Logo depois, saudou as estrelas que desafiavam a claridade do céu para que pudessem brilhar.
Com elas, veio o vento norte que trazia notícias de mil mundos, o canto de mil povos, a lembrança de mil passados.
Despedaçada entre as árvores, subia a lua lenta e pesada, que vivia pela metade em dias incompletos.
Saudada pelos lobos, aves, estrelas e pelo manto negro que caía do céu.
Uma união de elementos que cantava uma canção de esperança e memória.
Dizem que cantavam para o índio sentado na encosta da montanha. Contavam histórias dos tempos em que ele sorria ao lado de sua própria estrela. Dos tempos em que cavalgava em busca do mais belo corcel, e, cheio de orgulho, o apresentava para sua amada.
Dizem que a cada vez que fechava os olhos, três lágrimas mergulhavam fundo na terra, encontrando a água que corria furiosa. Iam embora para sempre tentando levar consigo toda a dor, mas voltavam com a chuva que inundava o planeta.
O sol voltava a derreter o horizonte num vermelhor desesperado, para trazer consigo o calor que libertava os membros enrijecidos do homem que carregava consigo toda a dor do mundo.
Levantou-se e olhou para o vale aos seus pés.
Queria voar
Queria voltar ao passado.
Queria mais uma única chance de sentir seu gosto. Olhar seus olhos. Morrer afogado na intensidade linda de seu cheiro.
E ao morrer, se sentir vazio de qualquer temor.
Logo depois, saudou as estrelas que desafiavam a claridade do céu para que pudessem brilhar.
Com elas, veio o vento norte que trazia notícias de mil mundos, o canto de mil povos, a lembrança de mil passados.
Despedaçada entre as árvores, subia a lua lenta e pesada, que vivia pela metade em dias incompletos.
Saudada pelos lobos, aves, estrelas e pelo manto negro que caía do céu.
Uma união de elementos que cantava uma canção de esperança e memória.
Dizem que cantavam para o índio sentado na encosta da montanha. Contavam histórias dos tempos em que ele sorria ao lado de sua própria estrela. Dos tempos em que cavalgava em busca do mais belo corcel, e, cheio de orgulho, o apresentava para sua amada.
Dizem que a cada vez que fechava os olhos, três lágrimas mergulhavam fundo na terra, encontrando a água que corria furiosa. Iam embora para sempre tentando levar consigo toda a dor, mas voltavam com a chuva que inundava o planeta.
O sol voltava a derreter o horizonte num vermelhor desesperado, para trazer consigo o calor que libertava os membros enrijecidos do homem que carregava consigo toda a dor do mundo.
Levantou-se e olhou para o vale aos seus pés.
Queria voar
Queria voltar ao passado.
Queria mais uma única chance de sentir seu gosto. Olhar seus olhos. Morrer afogado na intensidade linda de seu cheiro.
E ao morrer, se sentir vazio de qualquer temor.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Acordou assustado pela manhã.
Ao levantar da cama, bateu a cabeça numa coisa.
Era uma coisa antiga, que não via desde os tempos em que dependia do bom humor dos pais para conseguir dinheiro suficiente para sair num fim de semana.
De repente, ela estava ali, pendurada sobre sua cama inexplicavelmente a balançar, movida pela força motriz de sua cabeçada.
Saiu intrigado e fervendo a memória em busca de um motivo para aquilo estar ali.
Ao entrar no banheiro, havia uma coisa diferente.
Também no corredor para a cozinha, na cozinha, sala e garagem.
Uma brincadeira de meu irmão, pensou.
Não havia nada de diferente com o carro, mas seguiu para o trabalho ainda triturando pensamentos em busca de uma lógica.
Trabalhou como trabalharia num dia comum.
Comentou no almoço sobre as coisas que reapareciam. Riu. Riram.
Voltou para casa amaldiçoando o excesso de carros. O mau cheiro de combustível. A má educação de todas as pessoas.
Parou na porta de casa para que o portão se abrisse.
Abriu o porta malas para pegar sua pasta, e inacreditavelmente, deu de cara com dezenas de coisas ali, soterrando tudo.
Desistiu de pegar a pasta e abriu a porta de casa, que estava meio presa por alguma coisa do outro lado.
Era um amontoado de coisas que o obrigaram a empurrar forte para que a porta abrisse, derrubando tudo numa barulheira caótica.
Olhava perplexo para tudo aquilo e se recusava a acreditar que estava acontecendo. Centenas de coisas suas estavam surgindo sem qualquer explicação ou motivo.
Ou havia um motivo?
Pensou por alguns segundos.
Não.
Era algo insano. Incabível de se pensar a respeito.
Tudo que havia possuído na vida, e que havia deixado de fazer parte dela estava de volta, como um filme antigo em que tudo surge de repente num recorte de película.
As coisas iam aumentando, ocupando cômodos, espaços, se amontoando sobre as outras como uma avalanche ameaçadora que se aproximava esmagando tudo que estava abaixo.
Encostou-se na parede espantado e sem reação.
Estava nervoso.
Suava muito quando estava assim, e suas mãos pregavam, incomodando.
Sentiu seus dedos tocarem algo.
Uma coisa pequena em seu bolso direito.
Tirou a mão fechada dali, e abriu lentamente para ver uma coisa brilhante que o fez sentir um frio subir por sua coluna e arrepiar os cabelos da nuca.
Todas as coisas estavam ali de volta.
A maioria carregava sua inutilidade esmagadora como uma horda desesperada, mas algumas coisas que não deviam ter passado em brancos tempos, passaram.
E hoje não havia tempo sequer para chorar por elas.
domingo, 14 de outubro de 2012
'Queria ter te conhecido em outro tempo. Em outro lugar, talvez.'
Ela havia começado a escrever, mas parou com a caneta suspensa, gotejando reticências.
Não havia muito mais do que aquilo que a frase gritava.
Era o desejo em seu estado mais animal.
Um resumo de seu desejo mais intenso.
Olhou pela janela, e o movimento das ruas não limpavam de seus olhos as lembranças dos últimos dias.
O corredor escuro. O carro quente e o beijo com gosto de cerveja.
Queria ter chegado até o fim, sentido a pele nua sobre a sua se arrepiando e espalhando gotas de suor, o dente cravado em sua carne entre sussurros sem sentido, as mãos que buscavam desesperadas um lugar onde deixar suas digitais, para que o corpo as fizesse querer a todo momento.
Se fosse em outro tempo, o teria roubado para si. Desafiaria mil tempestades para que pudesse andar a seu lado pela eternidade do quanto vivessem.
Era uma noite fria.
Estava sozinha mais uma vez, absorvendo uma solidão a dois, onde duas almas estranhas passam o tempo todo voando em direção aos próprios sonhos.
'queria ter te conhecido em outro tempo. em outro lugar, talvez.'
Ligou a tv e sentiu a vida se derreter diante de si.
Lenta.
Em saltos luminosos e psicodélicos dos fragmentos da realidade enlatada que chegavam eletricamente aos seus olhos.
Ela havia começado a escrever, mas parou com a caneta suspensa, gotejando reticências.
Não havia muito mais do que aquilo que a frase gritava.
Era o desejo em seu estado mais animal.
Um resumo de seu desejo mais intenso.
Olhou pela janela, e o movimento das ruas não limpavam de seus olhos as lembranças dos últimos dias.
O corredor escuro. O carro quente e o beijo com gosto de cerveja.
Queria ter chegado até o fim, sentido a pele nua sobre a sua se arrepiando e espalhando gotas de suor, o dente cravado em sua carne entre sussurros sem sentido, as mãos que buscavam desesperadas um lugar onde deixar suas digitais, para que o corpo as fizesse querer a todo momento.
Se fosse em outro tempo, o teria roubado para si. Desafiaria mil tempestades para que pudesse andar a seu lado pela eternidade do quanto vivessem.
Era uma noite fria.
Estava sozinha mais uma vez, absorvendo uma solidão a dois, onde duas almas estranhas passam o tempo todo voando em direção aos próprios sonhos.
'queria ter te conhecido em outro tempo. em outro lugar, talvez.'
Ligou a tv e sentiu a vida se derreter diante de si.
Lenta.
Em saltos luminosos e psicodélicos dos fragmentos da realidade enlatada que chegavam eletricamente aos seus olhos.
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