quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Um

Se ajoelhou entre as folhas que, ainda mortas, estalavam sob o peso de sua dor.
Se houvesse espaço na imensidão a sua volta, tentaria correr. Mas estava cercado por lembranças que lamentavam medonhas, como presenças que, sem rumo, procuravam ficar perto de um corpo a pulsar.
Do céu vingador não veio anjo nem chuva.
Só um cinza esmagador que se movia, dando passagem ao vento frio de dedos estranhos e impiedosos a vasculhar.
Remexer a dor lasciva que berrava surda por dentro. Gritava tanto que o peito se rasgava num choro sem som.
Um gemido e memórias fugiam dali a caminho do cinza céu.
Não havia espaço.
Ficava tudo ali, amargando os olhos negros sem fim. Sem espaço. Não havia ponto de fuga.
Tentou dizer pra si que o sono leva o rasgar da dor. Tentou com força, a ponto de arder o sangue nas veias.
Doeu muito fundo pensar em não mais sofrer por amor.
Chorou devagar, como quem espera que o corpo seque e consiga descansar nos braços da piedade.

Deitou.

Mas não havia espaço.



"Malvadeza 
Judiar assim 
Tenha dó do meu coração 
Que desatinou, roeu, que deu pena 
Amargou essa solidão 
Desabou a chorar por ti, o Serena 
Pronto pro teu perdão."

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011



amanhã, quando acordarmos, você ainda estará usando os olhos lindos que trouxe hoje para me ver chegar?
vai me abraçar como se dissesse que hoje é o melhor dia para se viver?
vivo sonhando com seu beijo. quero tocar lento sua boca, e te ouvir falar bobagens sem sentido, do tipo que me farão rir durante dias.
quero saber se amanhã, quando acordarmos, eu posso te levar comigo.
te acompanhar correndo louca entre os carros enquanto sorri olhando para trás.
levando consigo a certeza de que nunca vou te deixar correr sem destino.
amanhã, quando o sol nascer, vou segurar a sua mão e te apresentar ao mundo, deixando entrar pelas janelas todas as histórias que o vento possa contar.
para cada uma delas, vamos escolher um sonho que possamos plantar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011


a cortina pesada filtrava as luzes que berravam la fora, chamando para a noite.
uma de suas mãos percorriam de leve a cintura.
a outra, ia e vinha pela linha da coluna. emaranhando os cabelos.
transferindo pensamentos.
de olhos fechados, girando devagar, percebiam os móveis no cômodo.
mesa baixa, sofá.
janela.
luzes berrando.
pensou em como podia ser possível um segundo conter tantas lembranças.
ou mesmo gravar tantas memórias.
como uma nota tocada pode conter dor. paz. fúria. paixão.
vivam em segundos. e, cada um deles, carregado de lembranças, memórias, acordes.
as luzes berravam.
foram até a porta.
ébrios do vinho. do escuro. do toque.
de mãos dadas, em silêncio desceram os degraus e iluminaram seus olhos com o mundo veloz que, guiado pela noite, chamava.
seguiram até uma esquina movimentada.
ela sorriu.
vestida como se fosse dormir, fez uma reverência.
ali, entre o mundo, a noite, as luzes que berram, os acordes em fúria e as almas ébrias, dançaram.
se olharam pela milésima terceira vez.
sorriram.
ele sorriu.
então suas mãos voltaram a lhe transferir pensamentos.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011



esse é o começo de tudo.
e o fim de um começo.
bem assim. bastante controverso e chocante.
foi assim, excessivamente indiferente que decidi seguir em frente e bater a porta da casa dela.
abriu a porta olhando, querendo perguntar - o que foi?
não perguntou. parou e olhou no olho.
falei eu vim.
ela sabia. tava ali vendo.
encostou na porta e cruzou os braços finos e brancos.
calada.
calada, mas ainda assim me perguntando e daí? não devia ter vindo. não tenho nada para você.
as vezes tem, pensei. mas só pensei, pois não perguntou de verdade.
talvez tivesse se perguntado se ficaria ali parado ou me aproximaria para beijar.
mas não beijaria. iria parar bem perto do rosto, sentindo o creme, perfume, sabonete, halito, cabelos, pulso.
tudo misturado de encontro a mim.
quis contar.
mas e se me enxotasse como se faz com um menino chato?
pensei não sou menino.
as vezes chato.
mas só quando quero.
falei também não. fiquei ali sismando sozinho e só pra mim.
cego de tanto não saber.
esfregando as mãos de nervoso.
olhando pra elas uma vez. olhando pra ela na outra.
vi um meio sorriso na cara.
de mim ou para mim?
- vim te ver.
- só isso?
- é.
- o que tem aí na mão?
- nossa aliança.
- quero não.
- mas eu comprei.
- gastou o salário todo?
- gastei.
- olha pra mim.
- ...
- devolve.
tenha dó, quis falar.
mas engoli. fechei a mão e escondi a aliança.
mentira que gastei o salário todo. andei pensando.
mentira pra fazer ela chorar pensando com dó de mim.
mentira.
ela não vai chorar.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011



ela se levantou da cama e pousou os pés em seus chinelos. ficou ali parada, pensando em nada. olhando para os sonhos que não teve. pensou se devia seguir em frente ou voltar pra cama.

apertou os olhos. esticou e abriu os dedos dos pés.
o relógio despertou novamente.
desligou e se levantou abrindo as janelas.
diante do espelho, escovou os dentes olhando para a torneira que deixou aberta.
pensou em molhar o rosto, mas continuou escovando os dentes.
se olhou no espelho e esticou uma mecha dos cabelos cacheados.
não cresceram desde ontem de manhã, pensou.
no rádio Lennon cantava qualquer coisa sobre a paz. isso a fez pensar no condomínio onde mora. seu vizinho de cima era forte candidato a merecer todo tipo e carga e descarga de pensamentos anti-paz que houvessem. mas porque pensava nisso? precisava se vestir. a calça do dia anterior desvalorizava suas pernas - já pensei isso antes, pensou. e a camisa esquentava muito. já pensei nisso antes também, pensou.
de cima da tv, o gato olhava, se lambia e miava com preguiça. não vou trabalhar hoje, disse a ele que respondeu com mais uma lambida na própria costela. descalçou os sapatos e foi até a cozinha.
ao seu lado, ele ia e vinha querendo comida.
serviu.
viu a chuva cair lenta lá fora. tamborilando contra o batente da janela. criando manchas nos vidros.
voltou a seu quarto deixando para trás partes do perfume que havia passado na noite anterior, antes de se deitar.
digitou uma mensagem no celular. enviou.
deitou-se novamente.
fechou os olhos e sentiu a gostosa sensação do corpo agradecendo.
abriu os olhos.
havia se esquecido de tirar a roupa.
quando acordar eu tiro. pensou sorrindo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011




— O Amado Ribeiro está lá embaixo!
— Lá embaixo?
—  C o m   o   c o m i s s á r i o .
— Arubinha, olha. Você vai dizer a esse moleque...
— Está com fotógrafo e tudo!
— Diz a ele, ouviu? Que se ele... Porque ele não me conhece, esse cachorro!
— O famoso Cunha!
— Você?
— Eu.

De repente a luz se apagou.
Ela sentiu um calor se aproximar de seu rosto, se afastou assustada, mas a aproximação era carinhosa, intensa, perfumada.
Uma boca se agarrou a sua boca. Antes que pudesse se afastar mais, sentiu uma mão segurar seus cabelos pela nuca. Foi beijada. Beijou. Só pensava na confusão de sentimentos e sensações que aqueles instantes de segundos traziam.
Sentiu seu queixo ser tocado antes do beijo acabar, tão rápido como começou. Então a pessoa se afastou, como se nunca tivesse existido.
Afundou na poltrona e sentiu o coração bater descompassado e retumbante.
A luz voltou poucos minutos depois.
No palco, os atores sorriam, olhando na direção do balcão da técnica.
Olhou a seu redor.
Do lado direito, uma moça que comentava com o amigo-namorado-marido sobre a cara das pessoas no retornar das luzes.
Do lado esquerdo, um senhor tirava do bolso o telefone celular.
Na poltrona da frente, um rapaz com cabelos cacheados que não mostravam se sorria.
Repassou em sua cabeça o momento.
Não houveram palavras.
Um roubo silencioso, que fazia sua mente vaguear entre a libido e a revolta.
Quis se levantar e fugir.
Quis ser roubada mais uma vez.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011




- alô?
- oi. ta podendo falar?
- ei. to sim. como você tá?
- tô legal. não é nada demais. só precisava te ouvir um pouco.
- o que fez de bom hoje?
- o de sempre. trabalhei muito, estudei, li. e você?
- o mesmo. exceto pelo estudar.
- você sabe que não liguei para falar do trabalho, não sabe?
- sei sim.
- mas ao mesmo tempo fica aquela vontade de não falar nada. aquela vontade de só te sentir por perto. saber que estamos juntos de alguma forma, mesmo que apenas através do telefone.
- olha...
- não se preocupa. eu não vou mais tentar te ter. me contentei com o fato de apenas ter te conhecido.
- isso já te faz feliz?
- não. você sabe que não.
- então porque diz se contentar com apenas isso?
- hoje ouvi no rádio uma música muito bonita. eu não me importei com o que dizia a letra, porque sabia que ela havia sido escrita para alguem que estava sendo amado. li um poema sobre o início do amor, e não me importei de não ter sido eu quem o escreveu, porque sabia que havia alma em cada uma daquelas letras. vi um casal sorrindo no banco de trás de um taxi ao vir trabalhar. também não me importei que não fôssemos nós a sorrir ali. tivemos algumas horas de felicidade honesta e plena. isso vou carregar pra sempre, e me lembrar de cada instante toda vez que me sentir sozinho.
- você vai me fazer chorar.
- quero aproveitar também para de certa forma, me despedir.
- porque?
- vou me obrigar a ser forte e não mais te procurar. cada sorriso seu me alimenta, me dá um fôlego novo para seguir em frente, e preciso deixar morrer a parte de mim que me deixei entregar. do contrário, nunca vou conseguir me abrir de novo para ninguém.
- ...
- não vou sumir. estarei sempre aqui para você. vou apenas deixar de dizer que te quero. talvez assim eu um dia realmente deixe de te querer.
- ...
- vou desligar. é tarde e precisamos trabalhar cedo amanhã.
- tá bom. boa noite.
- boa noite. beijo.
- ei...
- sim?
- posso te pedir uma coisa?
- pode sim.
- me liga amanhã de novo?
- ...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011



- papai, porque o homem aranha não joga fogo?
- ele gosta mais de jogar teia.
- a teia prende o bandido?
- prende. Aí o homem aranha bate nele e depois leva pra polícia.
- e o transformers, joga fogo?
- também não. Só da tiro.
- ele é gigantão?
- é. Gigantãozão.
- amanhã você compra um pra mim?
- amanhã eu compro.
- mas eu não quero piquinininho.
- ta bom.
- papai.
- hum?
- a lua cai em cima da gente?
- não. Ela ta amarrada.
- e se a nave pousar em cima dela? Vai cair!
- cai não. O moço amarrou fortão.
...
- e se pousar um tantão de nave?
- aí a gente tem que sair correndo.
- não é que o moço não almoçou tudo?
- não almoçou. aí ficou fraquinho.
- deixa eu jogar?
- não. Tá na hora de dormir.
- só pouquinho?
- nem pouquinho.
...
- papai.
- oi.
- amanhã a gente vai na casa do Bernardo de novo?
- uhum.
...
- Papai.
- hum.
- porque você não quer conversar comigo?
- tô conversando, sim.
- ta não. Você falou "uhum".
...

domingo, 9 de outubro de 2011




‘E se eu dissesse que te amo? Quantas voltas seu mundo daria antes que me mandasse partir? Quanto tempo levaria até que fôssemos levados pela fúria da tempestade em nosso beijo? E se eu contasse sobre o aperto morno que me sufoca o peito? Sobre o medo de te ter. Sobre a angústia de te perder. Ensaiei nove formas de te tocar. Tantas outras de sentir seu perfume. Mas o beijo - aquele que em fúria varre minha alma sonolenta - deixei sozinho em sua boca.
Não me arrependo do medo. Pois não é medo. É uma forma de te dar paz, e, lentamente mergulhar sozinho e nu nesse lago revolto.
E se eu tivesse dito que te amo? Quantos sonhos mais precisaria ter para suprir a falta esmagadora de seu abraço?
Ainda estou realizando o sonho de acordar incontáveis vezes e te encontrar deitada a meu lado.’

Ela então olhou para a janela.
Com a carta em suas mãos mordeu os lábios tentando segurar a vontade de telefonar.
Fechou os olhos com força e começou a ler tudo novamente.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

#16


O ventilador girava no sentido de exaustão, fazendo a fumaça do cigarro criar movimentos ondulantes antes de fugir pela janela.
Na mesa ao lado o rádio despejava agudamente um samba antigo que cantava o ter sem poder tocar.
Ela deitou de lado, apagando o cigarro no copo sobre a cadeira.
Continuou ali, olhando para o vidro embaçado e fumegante.
Imaginou que ele entraria em casa naquele momento, com sua mochila enorme a tilintar.
Começaria a se despir desde a sala, deixando peças de roupa pelo chão, sobre os móveis.
Fechou os olhos.
Ele se aproximou da cama cheirando a suor e força. Afastou seus cabelos da nuca e deu um beijo respirado para depois sussurrar qualquer segredo em seu ouvido.
Foi para o banheiro e agora ela ouvia a água cair pesada.
Teve vontade de chegar até a porta e ficar assistindo enquanto com os braços apoiados na parede, ele deixava que seus cabelos, costas, pescoço, nus, se molhassem.
Quis ficar ali parada sorrindo e se torturando ao segurar o desejo.
Quis pedir que ele voltasse consigo para a cama. Que fizesse carinho em seus cabelos. Que cantasse qualquer coisa antiga, que falasse do tempo, da distância tão curta e ao mesmo tempo tão cortante.
Abriu os olhos.
Chorava.
No copo sobre a cadeira restavam pequenas gotas que insistiam em não alcançar o fundo.

terça-feira, 7 de junho de 2011


Ele se olhou no espelho e organizou com as mãos os cabelos que insistiam em acompanhar o descaso do vento.
Fechou os olhos e respirou fundo.
Abriu a torneira e limpou o rosto longamente, de cabeça baixa assistindo as gotas explodirem contra a porcelana azul da pia.
No espelho impecavelmente limpo, seus olhos refletiam vermelhos e cansados. Enjoados dessa visão que se repetia tanto. Dessa sensação imutável que se desenrolava a tanto tempo.
Sua mente varreu uma época em que caminhava entre as pessoas e podia perceber seus sentimentos, seus perfumes, seu ardor. Um tempo que passou tão lentamente quanto o tempo é capaz de passar.
Ela disse algo da cama. Disse para si mesma, contorcida em febre e insanidade. Os olhos vidrados fitavam a janela escura, que deixava entrar a noite silenciosa. Trazia consigo o frio do lago inerte que ficava a poucos metros de distância. Um frio que não era suficiente para acalmar a fúria que devorava sua carne.
Ele se sentou a beira da cama observando. Havia se trocado, e agora vestia uma camisa azul e calça preta. Os pés brancos e descalços se destacavam na penumbra do quarto.
Pediu que se acalmasse.
Que o perdoasse.
Então tocou a pele de suas costas arqueadas e sentiu os poros dilatados, os pêlos arrepiados berrando na ponta de seus dedos.
Quis dizer para si mesmo que dessa vez seria diferente. Podia ser diferente.
Mas sentia uma dor lascinante invadindo seu corpo. Ela estava quente. Ele tinha fome.
Mordeu brutalmente a artéria de sua coxa. Urrando como um animal preso, desesperado.
Ela não emitiu um som sequer.
Vergou seu corpo e se agarrou aos lençóis com tanta força que os nós de seus dedos deslocaram-se.
Quando terminou, ela estava parada olhando para seu rosto. Não havia medo nem surpresa. Era apenas a imagem triste da piedade.
Nem todas agiam assim.
Na última semana  era a terceira a ser levada para sua casa. A primeira a demonstrar a piedade que tantas vezes o fez chorar.

terça-feira, 19 de abril de 2011



ela acordou num emaranhado difuso de sol. sua pele nua rabiscava o quarto com lentidão e sabores sem fim. a seu lado, ele via as partículas de poeira que lentamente navegavam o ar e rodeavam seus corpos em descanso.
os olhos se encontravam a todo momento, se despediam em sorrisos até que se reencontravam na lentidão do tempo.

_tenho vontade de voar as vezes.
_tenho vontade de voar sempre.
_não... prefiro que seja as vezes. como nós. distantes. intensos. verdadeiros.
_estamos aqui voando?
_é como se fosse.
_e é tão bom quanto.
_o que vai fazer quando sair daqui?
_vou pra casa.
_vai me escrever do caminho?
_talvez. alguma mensagem em especial?

_um segredo.
_não sei se tenho segredos interessantes.
_ser interessante não é o importante. só quero um segredo.
_e o que vai fazer com ele?
_anotar no canto de uma página da nossa história.

_gosto de fechar os olhos as vezes e musicar essa história.
ele se levantou e abriu as cortinas.
deixou que a luz esquentasse seu rosto e então se virou de volta para a cama.
era agora uma visão escura. bordas vermelhas e furiosas de seus contornos o tornavam maior e misterioso.
ela tinha olhos lindos que enxergavam a todo tempo com ternura.
ele agora abriu a janela e deixou que o segredo crescesse a ponto de ser um sonho a dois.
voltou para a cama e afastou seus cabelos para depois sentir o perfume de seus ombros.
_já tenho o segredo que quero para nós.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010


Ela olhava para fora e sorria.
Talvez se lembrasse de palavras sussurradas na noite anterior. Juras de amor sem fim, elogios a seus cabelos castanhos e finos, seu rosto de menina com uma pinta negra desafiando os negros olhos, uma sutileza conhecida apenas pelos dois e que a fez se arrepiar.
Sorria quase a rir entre estranhos que, enjaulados em seu próprio mundo, não tinham mais garras nem asas.
Viu um vulto dormindo na janela do veículo ao lado. Lembrou-se de seu sono a dois, seu despertar observado, seu desejo tímido de evaporar num átimo sendo devorado pelo desejo do outro. Cobriu o rosto e quis ser possuída por aqueles olhos que a despiam com fome e paixão, que a tocavam embalados por seu cheiro jovem e medroso.
Baixou o lençol, descobrindo o sorriso honesto. Sua mente girava visitando terras distantes onde queria levá-lo pra sempre.
Ele sorriu de volta.
Queria cantar sobre anjos e paisagens molhadas de sol, mas era só silêncio.
Despertou de seus pensamentos e olhou ao redor. E em cada jaula, cada olhar, cada rosto, a vida parecia ser só aquilo que se via passar todos os dias, da mesma forma. O tedioso ir e vir. O viver apenas para viver.
Cega de amor em seu canto, ela voava.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010


Todos haviam enlouquecido. 
Perseguiam os cães gritando sem sentido, saltavam de pontes sorrindo, entravam em igrejas procurando por amigos do passado.
Com o olhar perdido, sentado no meio da rua eu olhava para as paredes. Aguardava que delas saísse um anjo com seu olhar em fúria e suas mãos em fogo.
Um homem passou por mim rindo e arrastando uma cama. Sobre ela seu filho carregado de piolhos e sujeira pulava e  gritava ordens imprecisas sobre o caminho a seguir.
As árvores cresciam descontroladas, derrubando casas e postes. A noite murmuravam histórias dos tempos em que os homens devoravam o mundo ao redor. Todos temiam esses dias, como se a sanidade fosse um novo princípio do fim.
De meu canto, via tudo passar lento. Ouvia cada parte do tudo berrar como crianças famintas, enquanto o anjo não chegava.
Seu bater de asas se confundia com passos lentos daqueles que fugiam das sombras.
Distantes.
Anteriores ao tempo.

Num dia claro e silencioso surgiu uma mulher em silêncio.
Olhou ao redor. Tocou árvores e abraçou as pessoas.
Virou-se em direção ao céu com olhos verde-sonho que faziam querer chorar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010


Aída gostava de luzes. Espalhou por toda a casa velas e luminárias, lâmpadas brancas e amarelas, quadros e enfeites iluminados.
Na sala, um grande aquário cheio de luzes fluorescia as células dos peixes.
Brilhavam.
Fernando tinha centenas de garrafas, organizadas em prateleiras de madeira escura. Divididas por cores, formatos e odores de antigos conteúdos.
Caminhava entre elas todas as noites. Diminuído em seus sonhos, diminuto como uma ficção.
Sonhava.
Pedro juntava pedaços de antigos carros em seu quintal. Ignorava as rodas. Davam sensação de fuga, e ele queria ficar. Queria que nada mais passasse. Nada mais se afastasse de seus olhos.
Passava pela pintura desgastada os dedos roídos e sentia o vento que ali passou. Fechava os olhos para devorar cada segundo dessa liberdade.
Stela via o mundo em verde. Através das janelas, a senhora do ônibus, o sol do parque, a flor caída, um cão bravio.
Verde. 
E nada fazia tanto sentido quanto verde. Como olhos. Canto do olho. Canto da boca carregando um meio sorriso sem fim.
Leo cultivava um infinito de mudanças a cada dia. O tamanho do prato. A forma do espelho. Os tipos de sons, sabores, lembranças, sentimentos. Todos bem embalados em papel grosso. Amarrados com cordas brancas e finas. A cada reencontro, silêncio. 
Recomeço. 
Uma sensação castanha de tempo voltando.
Não havia sentido em outros universos. Independente do nome que o carregasse. Nenhum que explicasse o vôo de um pássaro, os gritos de uma chuva que cai, a distância entre desejos que não se chocam.
Num dia sem sol, nasceu Ana. 
Gostava de unhas azuis e  sonhos inacabados.

domingo, 22 de agosto de 2010



Muito tempo atrás consegui enxergar através da fumaça de memórias que ardiam na fogueira das lembranças que partiam dele. Vi seus olhos insistindo em girar ao redor, gravando tudo que pudesse ser visto e sentido. Tudo que pudesse denunciar nosso tempo. Vi suas mãos ávidas por minha carne e por meu gosto. Os poros inundados de meu cheiro. Impregnado de mim. 
Saturado. 
Buscando espaço para desesperadamente devorar cada parte do que nunca cheguei a ser. 
Muito tempo atrás sonhei um sonho sem tempo. Deitada no chão senti quando ele chegou a porta. Olhava para o caminho de insetos entre o reboco. Cismando com cada pensamento trazido e levado por aquelas trilhas. Vez ou outra piscava, querendo encontrar os olhos, afogar de lágrima tudo o que estaria prestes a deixar fugir. 
Ele pensou meu nome. Me devoraria devagar. Mais uma vez. E mais uma vez, eu não me soltaria da força de sua respiração ou do trovejar de suas asas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010


A parede me olhava com olhos distantes que sentenciavam aos gritos a necessidade de escrever. Depois de um silêncio literário de meses, procurei em meus cadernos frases perdidas que, conectadas, criariam um monstro textual que precisaria ser alimentado, cresceria, devoraria pensamentos.
Encontrei uma nota em tinta vermelha. Cópia de um escrito da época do colégio.
Ela tinha cabelos castanhos muito lisos. Sardas pequeninas como uma constelação.
'como você consegue ler com todo esse barulho?'
Foi o que nos aproximou.
Era dois anos mais velha. Estava prestes a se formar e voltaria à cidade onde moravam os pais.
Voltou numa tarde de quarta-feira após um passeio pelo campus da universidade.
Ainda hoje sinto um frio na barriga ao sentir seu perfume encarnado na pele de alguma desconhecida que passa por mim. Passam sem me ver. Carregando cada milímetro de seus próprios sonhos. Alheias a meu desejo de abraça-las e sentir em cada pescoço um intenso cheiro de céu.

Numa frase breve, arranquei todo pedaço de história que pudesse ser desfiado.
'me conta de você.'
Esperei semanas. Torturado pelo imediatismo por vezes cruel criado pelos telefones e computadores.
Tirei do envelope uma foto que saiu pelo lado de trás. Por um tempo sem fim observei a nota que se repetia a meus olhos. A letra mantinha o mesmo desenho, o mesmo alinhamento perfeito. Triturava as nervuras do papel, marcando o branco como uma cicatriz recente.
Não imagino por quanto tempo ou por quantas vezes li aquilo, mergulhado em fragmentos de passados, presentes e sentidos antes de virar a fotografia.

me afogo com sede. bebendo da luz que passa lenta pela constelação de seus olhos.

domingo, 9 de maio de 2010



Ela despertou com a música latejando em sua cabeça. Um refrão grudento e desesperado que transmitia uma paixão tão intensa que beirava uma dor destruidora.
Foi ao computador e imprimiu a tradução da letra que leu enquanto a música era executada pela oitava vez seguida, no volume máximo do stéreo.
Suspirava profundamente a cada oitava alcançada pela cantora. Tomou banho e se aprontou para o trabalho ao som da canção. No metrô, lia e relia o papel em suas mãos. Vez ou outra olhava pela janela, tentando tomar pra si todo amor que passava veloz por entre as pessoas que iam e vinham por todos os lados. Respirava fundo para segurar o nó que se formava em sua garganta, vez ou outra secando uma lágrima que teimava em brotar.
Passou do ponto onde desceria, e decidiu seguir até o final da linha. Cantava.
Ela se levantou e sentiu que atraia cada olhar e sentido ali. Nunca, em cada segundo da vida da cada uma das pessoas ali presentes, havia sido sentido tamanho pulsar de amor.
O ar parou naquele instante. Os homens piscavam boquiabertos. As mulheres com os olhos deitados de lágrimas, lamentavam sem fim.
Ela abriu os braços e deixou cair a cabeça para trás num sorriso infinito.
Mil crianças nasceram. Milhares de idosos se tocaram, num adeus saturado de paixão.
Ela sorriu um sorriso sem fim e deu o primeiro passo em direção a eles.