Ela despertou com as mãos trêmulas, sentindo o coração bater tão forte que latejava a cabeça. Ficou ali um tempo deitada entre seus três travasseiros preferidos, com os quais se cercava todas as noites.
Sorriu olhando para o nada.
Ela estava novamente sentada no banco enquanto aguardava sua senha ser chamada para atendimento.
O número 74 surgiu no letreiro digital e ela se encaminhou para o guichê 12. O atendente pegou sua senha e sem delongas prosseguiu com todo o procedimento.
Por um tempo inacreditável o toque dos dedos no momento da entrega da senha permanecia em suas mãos, subindo por seus braços e ombro. A cada piscar de olhos invadia mais e mais cada centímetro de pele. Arrepiando o corpo, pressionando suas costelas, como uma presença invisível controlada por sua vontade. Doeram-lhe os seios e a nuca, enquanto a sensação continuava a dominar seu corpo.
Ouviu seu nome ser chamado.
Repetido.
Era o atendente perguntando sobre um endereço para entrega.
O odiou por um segundo.
Amou desesperadamente cada uma das palavras que informavam algo que nem mesmo importava mais.
Quis toca-lo novamente, mas ouviu um agradecimento de despedida que não deixava margem para qualquer tentativa.
'Não'.
Levantou-se e caminhou com dificuldade até a porta.
Não conseguiu atravessar a rua. Parou ali bem na entrada, atrapalhando o tráfego daqueles que iam e vinham. Um segurança se aproximou. Uma moça perguntou se estava tudo bem.
Ela apenas olhava para dentro. No guichê 12 trabalhavam alheias a seu ardor as mãos que lhe fizeram voar.
O atendente percebeu a movimentação e se levantou para olhar.
Era a moça que havia atendido.
Ela o viu se aproximar vestido de preto e azul. Carregando suas mãos em sua direção. Levando para perto aqueles olhos que da indiferença anterior mostravam agora outra faceta de uma alma.
'O que houve'? Ele perguntou.
Ela não sabia se poderia responder. Sua boca estava seca e tremia. Suas pernas sustentavam pequenos espasmos que subiam cada vez mais fortes intercalados por uma respiração profunda. Deu um passo a frente e deixou sua bolsa no chão.
Tocou o braço do atendente e fechou os olhos.
Naquele momento o mundo era um sol com mil fagulhas. Ofuscante. Ensurdecedor. Inacreditável.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
terça-feira, 22 de maio de 2012
Café
Quando ela surgiu, eu havia acabado de pedir dois cafés.
Um cremoso, com um toque de chocolate meio amargo.
O meu, puro. Muito forte.
Me olhou com surpresa, dando a certeza de uma palavra perdida entre os lábios. Uma palavra travada pelo anseio de contar cada célula de seus sonhos.
Voltei para a mesa com aquela visão impregnada em meus olhos até que olhei para aquela que me esperava.
Não havia mais coração em meu peito, nem alma aprisionada em minha carne.
Tudo voava ao redor, me olhando do alto, querendo se partir em tres pedaços.
Queria voltar ao balcão e olhar de perto aqueles olhos que me perseguiam em mil sonhos. Beijar seu sorriso vermelho de olhos fechados.
Ao longe ela nos olhava sem ver, com a mesma intensidade que eu ali vivia sem insistir.
Perdido num dia nublado em que corria sem fim ao encontro de portas que sempre se fechavam, desejei mudar o tempo.
Pedir perdão e me levantar.
Deixar para tras passado e presente.
Desafiar o medo que estrangulava com dedos de pedra.
E se aquele beijo vermelho não me trouxesse a paz que eu esperava?
Por outro lado, e se aquele olhar de lago fosse a coisa mais próxima do paraíso onde alguma vez me encontraria?
Olhei novamente em sua direção. Em seu lugar, um homem pedia um expresso enquanto contava moedas na palma das mãos.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Poesia
Ele havia acordado inúmeras vezes durante a madrugada. Assaltado por uma ansiedade devoradora, despertava sobressaltado a olhar para a janela negra de tanta noite.
As cinco da manhã já se encontrava de olhos muito abertos, acompanhando os vincos do teto que mudavam de posição conforme a luz escorria para dentro do quarto, brotada do amanhecer lento.
Na tarde anterior, uma amiga de longa data sugeriu entre sorrisos: voce deveria vender poesia aos necessitados de coração.
Sentou-se numa praça do centro da cidade sob a sombra de um antigo flamboyant portando papéis perfumados com aromas de erva-doce e canela, duas canetas de escrita fina, com corpo acabado em madeira escura apoiados numa mesa desmontável outrora usada para apoiar livros e refrescos na varanda de casa.
Em seu peito, um crachá pendurado por uma corda branca que sustentava o dizer POESIA.
Está vendendo poemas? Perguntou a primeira moça.
Faz tempo está amando? Sorriu o velho.
Faz tempo. Escreve algo pra mim?
Pra você ou para aquele que voce ama?
Para os dois.
E ele escreveu. Sobre mãos que se tocam. Olhares que se procuram. Peles que se atraem.
O preço era o valor da poesia. Somente quem a tivesse na alma naquele momento poderia definir.
Ela pagou. Sorriu. E se foi sem dizer palavra.
Outros pararam para ver.
Alguns se aproximaram.
Alguns pediram conselhos.
Não haviam conselhos. Apenas poesia.
Quero uma poesia para alguém que nunca mais vi.
Se nunca mais viu, pretende entregar?
Não.Vou guardar pra mim e ler sempre que me doer a saudade.
E ele escreveu. Sobre mistérios que dedicavam aos sonhos, sobre tantas léguas que levam e nunca mais trazem de volta. Sobre o céu que vê, o sol que seca, a memória que sussurra lembranças dos tempos que dois eram o respirar de um.
Os papéis se acabaram.
Tem uma papelaria logo ali. Alguem falou.
A poesia tem o momento certo para acabar. Sorriu o poeta para as pessoas.
Colocou no bolso da frente as canetas de ponta fina com acabamento em madeira escura e dobrou a mesa dobrável.
Despediu-se com um aceno da mão enrugada e caminhou de volta para casa com o coração em pedaços.
As cinco da manhã já se encontrava de olhos muito abertos, acompanhando os vincos do teto que mudavam de posição conforme a luz escorria para dentro do quarto, brotada do amanhecer lento.
Na tarde anterior, uma amiga de longa data sugeriu entre sorrisos: voce deveria vender poesia aos necessitados de coração.
Sentou-se numa praça do centro da cidade sob a sombra de um antigo flamboyant portando papéis perfumados com aromas de erva-doce e canela, duas canetas de escrita fina, com corpo acabado em madeira escura apoiados numa mesa desmontável outrora usada para apoiar livros e refrescos na varanda de casa.
Em seu peito, um crachá pendurado por uma corda branca que sustentava o dizer POESIA.
Está vendendo poemas? Perguntou a primeira moça.
Faz tempo está amando? Sorriu o velho.
Faz tempo. Escreve algo pra mim?
Pra você ou para aquele que voce ama?
Para os dois.
E ele escreveu. Sobre mãos que se tocam. Olhares que se procuram. Peles que se atraem.
O preço era o valor da poesia. Somente quem a tivesse na alma naquele momento poderia definir.
Ela pagou. Sorriu. E se foi sem dizer palavra.
Outros pararam para ver.
Alguns se aproximaram.
Alguns pediram conselhos.
Não haviam conselhos. Apenas poesia.
Quero uma poesia para alguém que nunca mais vi.
Se nunca mais viu, pretende entregar?
Não.Vou guardar pra mim e ler sempre que me doer a saudade.
E ele escreveu. Sobre mistérios que dedicavam aos sonhos, sobre tantas léguas que levam e nunca mais trazem de volta. Sobre o céu que vê, o sol que seca, a memória que sussurra lembranças dos tempos que dois eram o respirar de um.
Os papéis se acabaram.
Tem uma papelaria logo ali. Alguem falou.
A poesia tem o momento certo para acabar. Sorriu o poeta para as pessoas.
Colocou no bolso da frente as canetas de ponta fina com acabamento em madeira escura e dobrou a mesa dobrável.
Despediu-se com um aceno da mão enrugada e caminhou de volta para casa com o coração em pedaços.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Há um vício que desenvolvi por você.
Um imutável desejo de ligar e ouvir sua voz.
Ligar e dizer que liguei porque te quero pra mim.
Há um desejo que nunca passou longe demais.
Um desejo de sorrir o seu sorriso ao me ver chegar.
Explorar cada fragmento de arrepio que se esconde entre seus cabelos.
Cada pedaço de perfume que me faz querer te ter.
É um fechar de olhos no meio da chuva.
É como abrir os braços para se misturar ao vento.
Há uma lembrança que espero nunca perder.
Guardada entre os dedos e enrolada para que nunca possa cair.
Nela somos dois se olhando e querendo um mesmo beijo.
Somos um que se encontra sorrindo de seus próprios desejos.
Há um sonho que mil vezes se repete.
Nele te tenho ao meu lado sorrindo.
Seu sorriso se desfaz a meio mundo de distância.
Te perco entre mil rostos. Sei qual deles é o seu, mas não consigo mais caminhar em sua direção.
Há um vício que desenvolvi por você.
Um imutável desejo de te querer.
E continuo querendo apesar do tempo e da verdade.
Um imutável desejo de ligar e ouvir sua voz.
Ligar e dizer que liguei porque te quero pra mim.
Há um desejo que nunca passou longe demais.
Um desejo de sorrir o seu sorriso ao me ver chegar.
Explorar cada fragmento de arrepio que se esconde entre seus cabelos.
Cada pedaço de perfume que me faz querer te ter.
É um fechar de olhos no meio da chuva.
É como abrir os braços para se misturar ao vento.
Há uma lembrança que espero nunca perder.
Guardada entre os dedos e enrolada para que nunca possa cair.
Nela somos dois se olhando e querendo um mesmo beijo.
Somos um que se encontra sorrindo de seus próprios desejos.
Há um sonho que mil vezes se repete.
Nele te tenho ao meu lado sorrindo.
Seu sorriso se desfaz a meio mundo de distância.
Te perco entre mil rostos. Sei qual deles é o seu, mas não consigo mais caminhar em sua direção.
Há um vício que desenvolvi por você.
Um imutável desejo de te querer.
E continuo querendo apesar do tempo e da verdade.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Xurek
''Era uma vez dois irmãos. Mas eles eram irmãos que eram anões.''
Piquinininhos?
É. Piquinininhos.
''Um dia um dos irmãos foi escalar uma montanha muito alta. Muito muito alta.
Ele andou muitas horas no meio do mato e das pedras. O pé começou a doer, ele ficou com muita muita sede e decidiu procurar um lugar para beber água.
Olhou por todos os lados e não encontrou nada.
Como ele estava muito cansado, sentou numa pedra.
De repente começou a ouvir um barulho baixinho de água caindo.
Ele se levantou de um pulo e ouviu melhor. Ouviu, olhou, pensou e começou a seguir a direção do som.
Então chegou numa cachoeira gigantona, com muita água pra beber e tomar banho. Ele estava com tanta sede que foi tirando a roupa e mergulhou na cachoeira.''
Ele só tava de cueca?
Tava. Só de cueca.
''enquanto nadava, ele ouviu um ronco esquisito.
O que será isso? Ele perguntou e saiu da água para olhar. Então encontrou atras das arvores um dragão dormindo.''
Um dragão de verdade?
É. Grandão.
Cospe fogo?
Cospe, e é bravo.
Voa também?
Voa.
''aí ele viu que do lado do dragão tinha uma cesta cheia de comida. Como o anão tinha muita fome, ele pensou em comer um pouco.''
A comida era só do dragão?
Era.
Mas dragão não come muito?
Come. Mas esse comia pouco porque tava de dieta e tava guardando pra jantar.
Dragão janta???
Claro que janta! E almoça também.
''Então foi andando devagarinho, devagarinho, devagarinho, até chegar perto do dragão.
Enquanto isso, o irmão do anão começou a ficar preocupado e subiu a montanha atrás dele. Só que anão tem a perna curtinha. Então demorava, demorava, demorava.
Quando o anão ia puxando a cesta de comida, o dragão acordou.
Fez cara de bravo e soltou fumaça pelo nariz.
O que você tá querendo? Perguntou para o anão.''
Mas dragão nem fala.
Fala sim.
Não fala! O dragão do Xurek não fala.
Mas o dragão do Xurek é de mentirinha.
Não é. Ele casou com o burro.
O burro também é de mentirinha.
Você tá falando mentira.
Tô não.
Tá sim! Eu tenho o dvd do Xurek e você não tem o dvd do anão!
...
sexta-feira, 9 de março de 2012
inacabado #28
Ela estava decidida a não deixar que dessa vez ele se perdesse entre a multidão.
Ignorou qualquer resquício de fome e começou a esperar.
No horário de costume, lá estava ele se desintegrando entre os outros como um fio de fumaça que se movimenta para dizer que está bem perto do fim.
Num último átimo, ela chamou seu nome.
Ele se virou ainda sorrindo da piada dos amigos e a enxergou linda e ofegante. Seu rosto afogado numa negritude de cabelos desmedidos pelo vento.
Voltou alguns passos e a abraçou forte. Dizendo seu nome completo, como prometeu que o faria.
vamos sair daqui? Ela pediu.
O segurou pela mão e abriu caminho entre os caminhantes.
se fosse num sonho - pensou - eu queria poder voar daqui. chegar ao vazio de qualquer lugar só pra conseguir ouvir sua voz e suas histórias em meio a um silêncio escandaloso.
Mas se sentaram sob uma grande árvore à vista de todos, e de ninguém.
me conta uma história - pediu de novo.
Ele não sabia contar histórias. Gostava de escrevê-las. Olhar para a janela buscando respostas no horizonte ou nos carros que passavam quando lhe faltava o ar. Então lhe sorriu e perguntou o que gostaria de ouvir.
quero te ouvir. Ela disse.
E ele falou. Sobre noites que caem pesadas. As engrenagens que manipulam os improváveis caminhos da vida. Os sons que escapam de mil instrumentos. Sobre as peles que se tocam e os olhos que se veem. Falou do tempo que passa lento andando ao lado da distância e dos aromas dotados de saudade.
De olhos fechados, ela absorvia cada entonação. Sorria para si. Chorava para si. Se abraçava para aplacar todo sentimento, então voltava a respirar.
gostaria de poder dançar com você. Disse.
eu não sei dançar.
não faz mal.
Então se levantou e o pegou pelas mãos.
Dançaram ali, a vista de todos e de ninguém.
Ele devorava cada segundo num viajar nômade entre seus ombros e pescoço. Tocando a pele branca e macia com os labios fechados num ir e vir lento. Sentindo o perfume e os poros que se arrepiavam.
Se aproximou de seus ouvidos. Respirou ali, para que ela soubesse que a estava trazendo lento para dentro de si.
tem algo que você me deve. e quero receber agora.
Ela fechou os olhos.
Sorriu e sentiu sua nuca ser invadida por dedos que se perdiam entre os fios de seus cabelos.
Ignorou qualquer resquício de fome e começou a esperar.
No horário de costume, lá estava ele se desintegrando entre os outros como um fio de fumaça que se movimenta para dizer que está bem perto do fim.
Num último átimo, ela chamou seu nome.
Ele se virou ainda sorrindo da piada dos amigos e a enxergou linda e ofegante. Seu rosto afogado numa negritude de cabelos desmedidos pelo vento.
Voltou alguns passos e a abraçou forte. Dizendo seu nome completo, como prometeu que o faria.
vamos sair daqui? Ela pediu.
O segurou pela mão e abriu caminho entre os caminhantes.
se fosse num sonho - pensou - eu queria poder voar daqui. chegar ao vazio de qualquer lugar só pra conseguir ouvir sua voz e suas histórias em meio a um silêncio escandaloso.
Mas se sentaram sob uma grande árvore à vista de todos, e de ninguém.
me conta uma história - pediu de novo.
Ele não sabia contar histórias. Gostava de escrevê-las. Olhar para a janela buscando respostas no horizonte ou nos carros que passavam quando lhe faltava o ar. Então lhe sorriu e perguntou o que gostaria de ouvir.
quero te ouvir. Ela disse.
E ele falou. Sobre noites que caem pesadas. As engrenagens que manipulam os improváveis caminhos da vida. Os sons que escapam de mil instrumentos. Sobre as peles que se tocam e os olhos que se veem. Falou do tempo que passa lento andando ao lado da distância e dos aromas dotados de saudade.
De olhos fechados, ela absorvia cada entonação. Sorria para si. Chorava para si. Se abraçava para aplacar todo sentimento, então voltava a respirar.
gostaria de poder dançar com você. Disse.
eu não sei dançar.
não faz mal.
Então se levantou e o pegou pelas mãos.
Dançaram ali, a vista de todos e de ninguém.
Ele devorava cada segundo num viajar nômade entre seus ombros e pescoço. Tocando a pele branca e macia com os labios fechados num ir e vir lento. Sentindo o perfume e os poros que se arrepiavam.
Se aproximou de seus ouvidos. Respirou ali, para que ela soubesse que a estava trazendo lento para dentro de si.
tem algo que você me deve. e quero receber agora.
Ela fechou os olhos.
Sorriu e sentiu sua nuca ser invadida por dedos que se perdiam entre os fios de seus cabelos.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
inacabado #14
Ele era bruto como um torrão de pedra que escapa de uma encosta tostada pelo sol.
De poucas e lascinantes palavras. Era um bruto de ação, disso não havia quem duvidasse. A vida trafegava melhor desde que suas mãos de ferro tocaram a garganta flácida do governo. Não era querido, mas respeitado por tamanha competência e vontade ferrenha. Mas houve aquela manhã, onde com um abrir definitivo de olhos o bruto derramou o caos sobre a vida, em baldadas afogantes.
Sentou-se em sua cadeira de governante e mandou chamar rádio televisão internet telégrafo e fofoqueiros.
Falarei - Falou o bruto.
A sala apinhada de gente borbulhava de excitação. Falaria o bruto. Caso raro. Muito raro.
Ele já estava sentado ali, a frente de todos com os olhos baixos, perdido nas linhas secas de Graciliano. Um acessor se aproximou informando que todos os veículos estavam ali. Era hora hde falar.
Tudo bem - ele respondeu fechando lentamente aquelas páginas secas e olhou para frente. Um oceano de olhos lacrimosos e ansiosos por qualquer falha. As falhas vendem mais do que os acertos, sabia ele.
Bom dia - falou olhando para cada rosto ali.
A voz era sempre baixa, calma, decidida.
Olhou para baixo, para o local onde seu paletó creme se misturava a sua camisa branca sem gravata.
Nunca usara uma gravata, exceto quando jovem ao ser obrigado pelo pai, sob ameaças de não participar do maior evento da cidade. Mas, ao conseguir passar pelos portões afrouxou o nó. Cinco minutos depois ela estava dobrada e guardada no bolso esquerdo da calça.
Tenho uma informação para que divulguem. A partir de hoje qualquer tipo de maquiagem está terminantemente proibida. Cirurgias plásticas estéticas estão proibidas.
Como assim? - bradou a repórter enfeitada da terceira fila - voce tem algo contra mulheres ficarem bonitas?
Mulheres não ficam bonitas. Elas são ou não são. É uma simples questão de aceitação. - o bruto olhava com descaso ao redor. Parou os olhos sobre um magro jovem ansioso.
Pergunte, jovem. - falou.
O jovem se levantou. Quis saber da indústria cosmética e seus cifronários prejuízos. Foi informado de que naquele momento todas recebiam informações e verba para que mudassem sua linha de produção. Todos deveriam produzir medicamentos, vacina, alimento, educação.
Absurdo! Berravam alguns. Gargalhadas despejavam outros.
Enlouquecera o bruto - Teimava em afirmar a sociedade.
Teimavam mesmo sabendo que fora um ato de extrema sabedoria.
Saúde e educação no lugar de pós e tinturas? Seria perfeito se não fosse algo do que se discordar.
O povo foi para a avenida. Ficou pelado em protesto. Queimou onibus. Chutou cachorros. Mulheres se tingiram de carvão. Homens passaram a concordar que carvão é belo. As mulheres emburraram. Queriam blush.
É humana a necessidade de se ter a quem reclamar as frustrações.
Muitos viam outros muitos reclamando. Entravam na causa apenas pela oportunidade de ter contra quem guerrear.
O bruto decidiu não mais se pentear. Acordava pior do que havia dormido na noite anterior.
Transformou-se em alvo de atentados. Os jornais faziam charges descabeladas de sua pessoa.
Ele não se importava. Ao décimo quarto mês do plano estavam começando a se encher os estoques de vacinas. O alimento nas prateleiras era vendido a preço de banana. Outros países eram ajudados, pois havia abundancia.
Universidades gratuitas começavam a receber os alunos.
A Era da Verdade. Foi o tema de vestibulares por todo o país.
Existe verdade mais cortante do que um rosto de verdade? Perguntou certa mocinha num videolog. Virou hit.
Conte para seu filho - disse o bruto para seu acessor - que o mundo é um lugar mais honesto sendo monocromático.
Mas o mundo não tem só uma cor, senhor.
Sim. Tem. Apenas a cor única de nossa pele.
Na manhã seguinte o bruto foi encontrado em sua cama.
Sua carta de despedida encerrava o plano, e dizia a próprio punho;
'enfeitem-se. Quando a fome voltar à sua porta, ou a porta de seu amigo, saberás que abrir mão de ilusões para trabalhar por uma realidade é duro, mas nos torna um povo maior.'
De poucas e lascinantes palavras. Era um bruto de ação, disso não havia quem duvidasse. A vida trafegava melhor desde que suas mãos de ferro tocaram a garganta flácida do governo. Não era querido, mas respeitado por tamanha competência e vontade ferrenha. Mas houve aquela manhã, onde com um abrir definitivo de olhos o bruto derramou o caos sobre a vida, em baldadas afogantes.
Sentou-se em sua cadeira de governante e mandou chamar rádio televisão internet telégrafo e fofoqueiros.
Falarei - Falou o bruto.
A sala apinhada de gente borbulhava de excitação. Falaria o bruto. Caso raro. Muito raro.
Ele já estava sentado ali, a frente de todos com os olhos baixos, perdido nas linhas secas de Graciliano. Um acessor se aproximou informando que todos os veículos estavam ali. Era hora hde falar.
Tudo bem - ele respondeu fechando lentamente aquelas páginas secas e olhou para frente. Um oceano de olhos lacrimosos e ansiosos por qualquer falha. As falhas vendem mais do que os acertos, sabia ele.
Bom dia - falou olhando para cada rosto ali.
A voz era sempre baixa, calma, decidida.
Olhou para baixo, para o local onde seu paletó creme se misturava a sua camisa branca sem gravata.
Nunca usara uma gravata, exceto quando jovem ao ser obrigado pelo pai, sob ameaças de não participar do maior evento da cidade. Mas, ao conseguir passar pelos portões afrouxou o nó. Cinco minutos depois ela estava dobrada e guardada no bolso esquerdo da calça.
Tenho uma informação para que divulguem. A partir de hoje qualquer tipo de maquiagem está terminantemente proibida. Cirurgias plásticas estéticas estão proibidas.
Como assim? - bradou a repórter enfeitada da terceira fila - voce tem algo contra mulheres ficarem bonitas?
Mulheres não ficam bonitas. Elas são ou não são. É uma simples questão de aceitação. - o bruto olhava com descaso ao redor. Parou os olhos sobre um magro jovem ansioso.
Pergunte, jovem. - falou.
O jovem se levantou. Quis saber da indústria cosmética e seus cifronários prejuízos. Foi informado de que naquele momento todas recebiam informações e verba para que mudassem sua linha de produção. Todos deveriam produzir medicamentos, vacina, alimento, educação.
Absurdo! Berravam alguns. Gargalhadas despejavam outros.
Enlouquecera o bruto - Teimava em afirmar a sociedade.
Teimavam mesmo sabendo que fora um ato de extrema sabedoria.
Saúde e educação no lugar de pós e tinturas? Seria perfeito se não fosse algo do que se discordar.
O povo foi para a avenida. Ficou pelado em protesto. Queimou onibus. Chutou cachorros. Mulheres se tingiram de carvão. Homens passaram a concordar que carvão é belo. As mulheres emburraram. Queriam blush.
É humana a necessidade de se ter a quem reclamar as frustrações.
Muitos viam outros muitos reclamando. Entravam na causa apenas pela oportunidade de ter contra quem guerrear.
O bruto decidiu não mais se pentear. Acordava pior do que havia dormido na noite anterior.
Transformou-se em alvo de atentados. Os jornais faziam charges descabeladas de sua pessoa.
Ele não se importava. Ao décimo quarto mês do plano estavam começando a se encher os estoques de vacinas. O alimento nas prateleiras era vendido a preço de banana. Outros países eram ajudados, pois havia abundancia.
Universidades gratuitas começavam a receber os alunos.
A Era da Verdade. Foi o tema de vestibulares por todo o país.
Existe verdade mais cortante do que um rosto de verdade? Perguntou certa mocinha num videolog. Virou hit.
Conte para seu filho - disse o bruto para seu acessor - que o mundo é um lugar mais honesto sendo monocromático.
Mas o mundo não tem só uma cor, senhor.
Sim. Tem. Apenas a cor única de nossa pele.
Na manhã seguinte o bruto foi encontrado em sua cama.
Sua carta de despedida encerrava o plano, e dizia a próprio punho;
'enfeitem-se. Quando a fome voltar à sua porta, ou a porta de seu amigo, saberás que abrir mão de ilusões para trabalhar por uma realidade é duro, mas nos torna um povo maior.'
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
hoje acordei pensando em estrelas.
o que tem as estrelas?
tem memória. elas vêem. sabem tanto que não se cabem e caem.
pra onde vão? caem na terra?
não sei. só vi que caem. já viu alguma caindo?
vi. caem tão rápido que dão a sensação de estarem gritando pelo negror do céu.
eu acho que alguém mora nelas. e fica lá, vendo a chuva que cai cinzenta, o sol secando todas as coisas.
ja me falaram que cada estrela é a alma de uma pessoa que tá aqui na terra.
sei não. é pouca estrela pra tanta gente.
eu acho que ainda tem um monte pra lá. onde nem dá pra ver.
quer mais vinho?
quero.
me fala mais das estrelas.
eu queria poder marcar uma e te falar que é um presente meu.
eu aceito todas.
é muito egoísmo, né? tem mais um monte de gente que quer ter uma estrela.
mas ninguém vai saber que são minhas. imagina que estão só achando que tem.
sei nao...
vai me dar?
sabe aquela grandona ali, perto da lua?
sei.
ela está no céu todos as noites. sempre no mesmo lugar, tendo lua ou não. eu te dou aquela.
e se um dia ela também cair?
vai ser um bom motivo pra gente sentar de novo e conversar sobre aquilo que não entendemos.
tem memória. elas vêem. sabem tanto que não se cabem e caem.
pra onde vão? caem na terra?
não sei. só vi que caem. já viu alguma caindo?
vi. caem tão rápido que dão a sensação de estarem gritando pelo negror do céu.
eu acho que alguém mora nelas. e fica lá, vendo a chuva que cai cinzenta, o sol secando todas as coisas.
ja me falaram que cada estrela é a alma de uma pessoa que tá aqui na terra.
sei não. é pouca estrela pra tanta gente.
eu acho que ainda tem um monte pra lá. onde nem dá pra ver.
quer mais vinho?
quero.
me fala mais das estrelas.
eu queria poder marcar uma e te falar que é um presente meu.
eu aceito todas.
é muito egoísmo, né? tem mais um monte de gente que quer ter uma estrela.
mas ninguém vai saber que são minhas. imagina que estão só achando que tem.
sei nao...
vai me dar?
sabe aquela grandona ali, perto da lua?
sei.
ela está no céu todos as noites. sempre no mesmo lugar, tendo lua ou não. eu te dou aquela.
e se um dia ela também cair?
vai ser um bom motivo pra gente sentar de novo e conversar sobre aquilo que não entendemos.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Um
Se ajoelhou entre as folhas que, ainda mortas, estalavam sob o peso de sua dor.
Se houvesse espaço na imensidão a sua volta, tentaria correr. Mas estava cercado por lembranças que lamentavam medonhas, como presenças que, sem rumo, procuravam ficar perto de um corpo a pulsar.
Do céu vingador não veio anjo nem chuva.
Só um cinza esmagador que se movia, dando passagem ao vento frio de dedos estranhos e impiedosos a vasculhar.
Remexer a dor lasciva que berrava surda por dentro. Gritava tanto que o peito se rasgava num choro sem som.
Um gemido e memórias fugiam dali a caminho do cinza céu.
Não havia espaço.
Ficava tudo ali, amargando os olhos negros sem fim. Sem espaço. Não havia ponto de fuga.
Tentou dizer pra si que o sono leva o rasgar da dor. Tentou com força, a ponto de arder o sangue nas veias.
Doeu muito fundo pensar em não mais sofrer por amor.
Chorou devagar, como quem espera que o corpo seque e consiga descansar nos braços da piedade.
Deitou.
Mas não havia espaço.
"Malvadeza
Judiar assim
Tenha dó do meu coração
Que desatinou, roeu, que deu pena
Amargou essa solidão
Desabou a chorar por ti, o Serena
Pronto pro teu perdão."
Se houvesse espaço na imensidão a sua volta, tentaria correr. Mas estava cercado por lembranças que lamentavam medonhas, como presenças que, sem rumo, procuravam ficar perto de um corpo a pulsar.
Do céu vingador não veio anjo nem chuva.
Só um cinza esmagador que se movia, dando passagem ao vento frio de dedos estranhos e impiedosos a vasculhar.
Remexer a dor lasciva que berrava surda por dentro. Gritava tanto que o peito se rasgava num choro sem som.
Um gemido e memórias fugiam dali a caminho do cinza céu.
Não havia espaço.
Ficava tudo ali, amargando os olhos negros sem fim. Sem espaço. Não havia ponto de fuga.
Tentou dizer pra si que o sono leva o rasgar da dor. Tentou com força, a ponto de arder o sangue nas veias.
Doeu muito fundo pensar em não mais sofrer por amor.
Chorou devagar, como quem espera que o corpo seque e consiga descansar nos braços da piedade.
Deitou.
Mas não havia espaço.
"Malvadeza
Judiar assim
Tenha dó do meu coração
Que desatinou, roeu, que deu pena
Amargou essa solidão
Desabou a chorar por ti, o Serena
Pronto pro teu perdão."
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
amanhã, quando acordarmos, você ainda estará usando os olhos lindos que trouxe hoje para me ver chegar?
vai me abraçar como se dissesse que hoje é o melhor dia para se viver?
vivo sonhando com seu beijo. quero tocar lento sua boca, e te ouvir falar bobagens sem sentido, do tipo que me farão rir durante dias.
quero saber se amanhã, quando acordarmos, eu posso te levar comigo.
te acompanhar correndo louca entre os carros enquanto sorri olhando para trás.
levando consigo a certeza de que nunca vou te deixar correr sem destino.
amanhã, quando o sol nascer, vou segurar a sua mão e te apresentar ao mundo, deixando entrar pelas janelas todas as histórias que o vento possa contar.
para cada uma delas, vamos escolher um sonho que possamos plantar.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
uma de suas mãos percorriam de leve a cintura.
a outra, ia e vinha pela linha da coluna. emaranhando os cabelos.
transferindo pensamentos.
de olhos fechados, girando devagar, percebiam os móveis no cômodo.
mesa baixa, sofá.
janela.
luzes berrando.
pensou em como podia ser possível um segundo conter tantas lembranças.
ou mesmo gravar tantas memórias.
como uma nota tocada pode conter dor. paz. fúria. paixão.
vivam em segundos. e, cada um deles, carregado de lembranças, memórias, acordes.
as luzes berravam.
foram até a porta.
ébrios do vinho. do escuro. do toque.
de mãos dadas, em silêncio desceram os degraus e iluminaram seus olhos com o mundo veloz que, guiado pela noite, chamava.
seguiram até uma esquina movimentada.
ela sorriu.
vestida como se fosse dormir, fez uma reverência.
ali, entre o mundo, a noite, as luzes que berram, os acordes em fúria e as almas ébrias, dançaram.
se olharam pela milésima terceira vez.
sorriram.
ele sorriu.
então suas mãos voltaram a lhe transferir pensamentos.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
esse é o começo de tudo.
e o fim de um começo.
bem assim. bastante controverso e chocante.
foi assim, excessivamente indiferente que decidi seguir em frente e bater a porta da casa dela.
abriu a porta olhando, querendo perguntar - o que foi?
não perguntou. parou e olhou no olho.
falei eu vim.
ela sabia. tava ali vendo.
encostou na porta e cruzou os braços finos e brancos.
calada.
calada, mas ainda assim me perguntando e daí? não devia ter vindo. não tenho nada para você.
as vezes tem, pensei. mas só pensei, pois não perguntou de verdade.
talvez tivesse se perguntado se ficaria ali parado ou me aproximaria para beijar.
mas não beijaria. iria parar bem perto do rosto, sentindo o creme, perfume, sabonete, halito, cabelos, pulso.
tudo misturado de encontro a mim.
quis contar.
mas e se me enxotasse como se faz com um menino chato?
pensei não sou menino.
as vezes chato.
mas só quando quero.
falei também não. fiquei ali sismando sozinho e só pra mim.
cego de tanto não saber.
esfregando as mãos de nervoso.
olhando pra elas uma vez. olhando pra ela na outra.
vi um meio sorriso na cara.
de mim ou para mim?
- vim te ver.
- só isso?
- é.
- o que tem aí na mão?
- nossa aliança.
- quero não.
- mas eu comprei.
- gastou o salário todo?
- gastei.
- olha pra mim.
- ...
- devolve.
tenha dó, quis falar.
mas engoli. fechei a mão e escondi a aliança.
mentira que gastei o salário todo. andei pensando.
mentira pra fazer ela chorar pensando com dó de mim.
mentira.
ela não vai chorar.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
ela se levantou da cama e pousou os pés em seus chinelos. ficou ali parada, pensando em nada. olhando para os sonhos que não teve. pensou se devia seguir em frente ou voltar pra cama.
apertou os olhos. esticou e abriu os dedos dos pés.
o relógio despertou novamente.
desligou e se levantou abrindo as janelas.
diante do espelho, escovou os dentes olhando para a torneira que deixou aberta.
pensou em molhar o rosto, mas continuou escovando os dentes.
se olhou no espelho e esticou uma mecha dos cabelos cacheados.
não cresceram desde ontem de manhã, pensou.
no rádio Lennon cantava qualquer coisa sobre a paz. isso a fez pensar no condomínio onde mora. seu vizinho de cima era forte candidato a merecer todo tipo e carga e descarga de pensamentos anti-paz que houvessem. mas porque pensava nisso? precisava se vestir. a calça do dia anterior desvalorizava suas pernas - já pensei isso antes, pensou. e a camisa esquentava muito. já pensei nisso antes também, pensou.
de cima da tv, o gato olhava, se lambia e miava com preguiça. não vou trabalhar hoje, disse a ele que respondeu com mais uma lambida na própria costela. descalçou os sapatos e foi até a cozinha.
ao seu lado, ele ia e vinha querendo comida.
serviu.
viu a chuva cair lenta lá fora. tamborilando contra o batente da janela. criando manchas nos vidros.
voltou a seu quarto deixando para trás partes do perfume que havia passado na noite anterior, antes de se deitar.
digitou uma mensagem no celular. enviou.
deitou-se novamente.
fechou os olhos e sentiu a gostosa sensação do corpo agradecendo.
abriu os olhos.
havia se esquecido de tirar a roupa.
quando acordar eu tiro. pensou sorrindo.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
— O Amado Ribeiro está lá embaixo!
— Lá embaixo?
— C o m o c o m i s s á r i o .
— Arubinha, olha. Você vai dizer a esse moleque...
— Está com fotógrafo e tudo!
— Diz a ele, ouviu? Que se ele... Porque ele não me conhece, esse cachorro!
— O famoso Cunha!
— Você?
— Eu.
De repente a luz se apagou.
Ela sentiu um calor se aproximar de seu rosto, se afastou assustada, mas a aproximação era carinhosa, intensa, perfumada.
Uma boca se agarrou a sua boca. Antes que pudesse se afastar mais, sentiu uma mão segurar seus cabelos pela nuca. Foi beijada. Beijou. Só pensava na confusão de sentimentos e sensações que aqueles instantes de segundos traziam.
Sentiu seu queixo ser tocado antes do beijo acabar, tão rápido como começou. Então a pessoa se afastou, como se nunca tivesse existido.
Afundou na poltrona e sentiu o coração bater descompassado e retumbante.
A luz voltou poucos minutos depois.
No palco, os atores sorriam, olhando na direção do balcão da técnica.
Olhou a seu redor.
Do lado direito, uma moça que comentava com o amigo-namorado-marido sobre a cara das pessoas no retornar das luzes.
Do lado esquerdo, um senhor tirava do bolso o telefone celular.
Na poltrona da frente, um rapaz com cabelos cacheados que não mostravam se sorria.
Repassou em sua cabeça o momento.
Não houveram palavras.
Um roubo silencioso, que fazia sua mente vaguear entre a libido e a revolta.
Quis se levantar e fugir.
Quis ser roubada mais uma vez.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
- alô?
- oi. ta podendo falar?
- ei. to sim. como você tá?
- tô legal. não é nada demais. só precisava te ouvir um pouco.
- o que fez de bom hoje?
- o de sempre. trabalhei muito, estudei, li. e você?
- o mesmo. exceto pelo estudar.
- você sabe que não liguei para falar do trabalho, não sabe?
- sei sim.
- mas ao mesmo tempo fica aquela vontade de não falar nada. aquela vontade de só te sentir por perto. saber que estamos juntos de alguma forma, mesmo que apenas através do telefone.
- olha...
- não se preocupa. eu não vou mais tentar te ter. me contentei com o fato de apenas ter te conhecido.
- isso já te faz feliz?
- não. você sabe que não.
- então porque diz se contentar com apenas isso?
- hoje ouvi no rádio uma música muito bonita. eu não me importei com o que dizia a letra, porque sabia que ela havia sido escrita para alguem que estava sendo amado. li um poema sobre o início do amor, e não me importei de não ter sido eu quem o escreveu, porque sabia que havia alma em cada uma daquelas letras. vi um casal sorrindo no banco de trás de um taxi ao vir trabalhar. também não me importei que não fôssemos nós a sorrir ali. tivemos algumas horas de felicidade honesta e plena. isso vou carregar pra sempre, e me lembrar de cada instante toda vez que me sentir sozinho.
- você vai me fazer chorar.
- quero aproveitar também para de certa forma, me despedir.
- porque?
- vou me obrigar a ser forte e não mais te procurar. cada sorriso seu me alimenta, me dá um fôlego novo para seguir em frente, e preciso deixar morrer a parte de mim que me deixei entregar. do contrário, nunca vou conseguir me abrir de novo para ninguém.
- ...
- não vou sumir. estarei sempre aqui para você. vou apenas deixar de dizer que te quero. talvez assim eu um dia realmente deixe de te querer.
- ...
- vou desligar. é tarde e precisamos trabalhar cedo amanhã.
- tá bom. boa noite.
- boa noite. beijo.
- ei...
- sim?
- posso te pedir uma coisa?
- pode sim.
- me liga amanhã de novo?
- ...
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
- papai, porque o homem aranha não joga fogo?
- ele gosta mais de jogar teia.
- a teia prende o bandido?
- prende. Aí o homem aranha bate nele e depois leva pra polícia.
- e o transformers, joga fogo?
- também não. Só da tiro.
- ele é gigantão?
- é. Gigantãozão.
- amanhã você compra um pra mim?
- amanhã eu compro.
- mas eu não quero piquinininho.
- ta bom.
- papai.
- hum?
- a lua cai em cima da gente?
- não. Ela ta amarrada.
- e se a nave pousar em cima dela? Vai cair!
- cai não. O moço amarrou fortão.
...
- e se pousar um tantão de nave?
- aí a gente tem que sair correndo.
- não é que o moço não almoçou tudo?
- não almoçou. aí ficou fraquinho.
- deixa eu jogar?
- não. Tá na hora de dormir.
- só pouquinho?
- nem pouquinho.
...
- papai.
- oi.
- amanhã a gente vai na casa do Bernardo de novo?
- uhum.
...
- Papai.
- hum.
- porque você não quer conversar comigo?
- tô conversando, sim.
- ta não. Você falou "uhum".
...
domingo, 9 de outubro de 2011
‘E se eu dissesse
que te amo? Quantas voltas seu mundo daria antes que me mandasse partir? Quanto
tempo levaria até que fôssemos levados pela fúria da tempestade em nosso beijo?
E se eu contasse sobre o aperto morno que me sufoca o peito? Sobre o medo de te
ter. Sobre a angústia de te perder. Ensaiei nove formas de te tocar. Tantas
outras de sentir seu perfume. Mas o beijo - aquele que em fúria varre minha alma
sonolenta - deixei sozinho em sua boca.
Não me
arrependo do medo. Pois não é medo. É uma forma de te dar paz, e, lentamente
mergulhar sozinho e nu nesse lago revolto.
E se eu
tivesse dito que te amo? Quantos sonhos mais precisaria ter para suprir a falta
esmagadora de seu abraço?
Ainda estou
realizando o sonho de acordar incontáveis vezes e te encontrar deitada a meu
lado.’
Ela então olhou para a janela.
Ela então olhou para a janela.
Com a carta
em suas mãos mordeu os lábios tentando segurar a vontade de telefonar.
Fechou os olhos com força e começou a ler tudo novamente.
Fechou os olhos com força e começou a ler tudo novamente.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
#16
O ventilador girava no sentido de exaustão, fazendo a fumaça do cigarro criar movimentos ondulantes antes de fugir pela janela.
Na mesa ao lado o rádio despejava agudamente um samba antigo que cantava o ter sem poder tocar.
Ela deitou de lado, apagando o cigarro no copo sobre a cadeira.
Continuou ali, olhando para o vidro embaçado e fumegante.
Imaginou que ele entraria em casa naquele momento, com sua mochila enorme a tilintar.
Começaria a se despir desde a sala, deixando peças de roupa pelo chão, sobre os móveis.
Fechou os olhos.
Ele se aproximou da cama cheirando a suor e força. Afastou seus cabelos da nuca e deu um beijo respirado para depois sussurrar qualquer segredo em seu ouvido.
Foi para o banheiro e agora ela ouvia a água cair pesada.
Teve vontade de chegar até a porta e ficar assistindo enquanto com os braços apoiados na parede, ele deixava que seus cabelos, costas, pescoço, nus, se molhassem.
Quis ficar ali parada sorrindo e se torturando ao segurar o desejo.
Quis pedir que ele voltasse consigo para a cama. Que fizesse carinho em seus cabelos. Que cantasse qualquer coisa antiga, que falasse do tempo, da distância tão curta e ao mesmo tempo tão cortante.
Abriu os olhos.
Chorava.
No copo sobre a cadeira restavam pequenas gotas que insistiam em não alcançar o fundo.
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